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Visita de Putin tem grande peso simbólico e pouco efeito prático | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A visita do presidente russo, Vladimir Putin, ao Oriente Médio tem um grande peso simbólico e político, mas os potenciais efeitos práticos no processo de paz entre israelenses e palestinos são bastante limitados, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil. Putin chegou na terça-feira ao Egito para uma reunião com o presidente Hosni Mubarak e visita também Israel e os territórios palestinos. É a primeira vez em 40 anos que um líder russo (ou soviético) vem ao Egito ou aos territórios palestinos e a primeira vez na história que acontece uma visita a Israel. A Rússia faz parte do quarteto - ao lado da União Européia, dos Estados Unidos e da ONU - que propôs o "Mapa da Paz" para israelenses e palestinos em 2002. Mas, com o país cheio de problemas políticos e econômicos internos, a atenção do presidente Putin ao processo de paz no Oriente Médio tem sido pequena. "A liderança russa não quer ficar marginalizada neste processo, mas eu não vejo grandes oportunidades para uma influência efetiva. É verdade que a Rússia ainda é uma grande força na Europa e na Ásia e tem um assento permanente no Conselho de Segurança, mas não acredito que eles tenham muito poder junto à Autoridade Palestina ou aos outros países fortes na região", avalia o especialista em relações Rússia-Oriente Médio da Universidade Nacional da Defesa, em Washington, Eugene Rummer. Limitações Para o cienstista político palestino da Universidade Birzeit, em Ramallah, Hisham Ahmed, a visita de Putin retoma relações históricas que os russos tinham com os palestinos e que foram reduzidas depois da dissolução da União Soviética. "É claro que o papel da Rússia é limitado porque Israel, por exemplo, não vai atender a exigências deles como atende aos americanos. Mas a Rússia ainda é uma grande potência nuclear e, guardadas as proporções, esta é uma visita importante." A União Soviética deu historicamente um apoio aberto à causa palestina, mas analistas concordam que tal posicionamento era ligado principalmente à situação geopolítica do momento. O apoio americano aos israelenses fazia com que, dentro do quadro da Guerra Fria, o alinhamento dos palestinos com os soviéticos fosse praticamente automático. Rummer observa que atualmente não existe mais uma relação tão direta entre ganhos russos e perdas americanas e vice-versa. "Depois de ter conversado muito com formuladores de política externa russos, tenho a impressão de que, em relação ao Oriente Médio, Estados Unidos e Rússia discordam muito mais em relação a meios do que a fins", disse. Segundo o pesquisador, os russos também têm interesse em uma situação mais calma no Oriente Médio. "A Rússia hoje também tem muito medo do terrorismo islâmico", disse. Israel Outro fator que alterou as relações russas no Oriente Médio foi a enorme emigração de judeus russos para Israel nos últimos 20 anos. Segundo estimativas, mais de 15% dos cidadãos israelenses atualmente são de origem russa. "Não há dúvida de que as relações entre a Rússia e os palestinos foram afetadas por essas mudanças, mas ainda há também uma ligação profunda dos russos com os palestinos", disse Hisham Ahmed. O cientista político diz que durante décadas milhares de estudantes palestinos foram para a União Soviética com bolsas de estudo. O próprio presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, fez seu doutorado em Moscou. "E Putin é o primeiro presidente a visitar Abbas desde que ele (Abbas) foi eleito, antes mesmo de qualquer país árabe. É verdade que isso tem um peso mais simbólico e político mas, nesses aspectos, o peso é grande e mostra o interesse da Rússia em ampliar seu envolvimento na região", disse Ahmed. Desacordos Na visita a Israel, Putin também vai ter que tratar de temas delicados que podem provocar algum desentendimento entre os dois governos. O principal deles é a venda de mísseis que os russos pretendem fazer aos sírios. O governo israelense minimiza publicamente a preocupação com o assunto, dizendo acreditar na afirmação russa de que tratam-se de mísseis antiaéreos de pequeno alcance, que não apresentariam risco para Israel. Analistas, no entanto, dizem que nos bastidores os israelenses estão se movimentando para tentar impedir esse comércio de armas com medo, principalmente, de que elas acabem parando nas mãos de militantes que eles consideram terroristas. "Uma questão delicada com a qual vamos ter que lidar por muito tempo é a dos interesses comerciais de empresas russas superando até os interesses de Estado. É uma situação semelhante à que ocorre com o Irã, para quem os russos vendem material nuclear, mas ao mesmo tempo também querem evitar que os iranianos desenvolvam armas atômicas", disse. Outro ponto de conflito diz respeito aos russos com cidadania israelense com extradição pedida pela Rússia. São principalmente grandes empresários que deixaram o país depois de terem a prisão ordenada com base em leis anticorrupção. Em muitos casos, no entanto, há sérias alegações de que as ordens de prisão foram expedidas mais por questões políticas do que puramente legais. O governo israelense já deixou claro que não pretende extraditar nenhum deles. Embora já tenha havido no passado casos de extradição de pessoas com cidadania israelense, o tema é sempre delicado em um país que foi criado tendo como um de seus objetivos proteger judeus perseguidos em outras partes do mundo. |
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