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Análise: Antigas áreas de influência são desafio para Putin | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O futuro do Quirguistão, ex-país soviético, deve estar no mínimo inquietando o presidente russo, Vladimir Putin. Nesta semana, é verdade, arrefeceram os protestos populares responsáveis pela deposição do presidente quirguiz, Askar Akayev. A oposição acusa Akayev, que mantinha estreitos laços com Putin, de ter fraudado as eleições parlamentares de fevereiro. Akayev fez as malas e deixou o país. Mas, mesmo assim, a situação no Quirguistão oscila entre o caos e eleições presidenciais transparentes, agora marcadas para 26 de junho - data que a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), principal órgão europeu de segurança mediando a disputa, julga precipitada. À espera das presidenciais, no Quirguistão o debate gira em torno da seguinte questão: seriam legítimos os deputados do governo anterior ou aqueles eleitos em fevereiro? Desta vez, Putin observa o quadro desenrolando-se de longe. Decisão sábia. As manifestações populares em Tbilisi, capital da Geórgia, no final de 2003, foram certamente marcantes para o presidente russo. O povo foi às ruas por causa de suspeitas de fraude em eleições parlamentares. E, assim, o presidente Eduard Shevardnadze viu-se forçado a renunciar. No ano passado, o povo inundou as ruas de outra capital de um ex-país soviético. Em Kiev, Ucrânia, o premiê pró-russo, Viktor Yanukovich, era acusado de ter fraudado as legislativas. Putin tomou as dores do presidente da Ucrânia, Leonid Kuchma, e de Yanukovich. E o presidente russo deu-se mal: Viktor Yushchenko, líder da oposição, saiu-se vitorioso. Como protestos populares podem fazer desmoronar – pacificamente – pilares do autoritarismo soviético? Essa, sem dúvida, é a questão que Putin, ele mesmo cria do sistema soviético, certamente se coloca. Ex-agente do serviço secreto soviético, a temida KGB (hoje FSB), esse sucessor do primeiro presidente pós-soviético, Boris Yeltsin, é o homem forte que vários russos da velha guarda acham apropriado para comandar a Rússia. Imagem Judoca de bom nível, fluente em língua alemã, para vários russos Putin encarna o agente secreto Stiglitz, protagonista ficcional que tantos russos admiram. Stiglitz seria o James Bond dos russos. Ao mesmo tempo, Putin se apresenta como um democrata para as novas gerações que aspiram uma melhor qualidade de vida, e um sistema realmente democrático. Afinal, não foram essas, após o colapso da União Soviética, as promessas dos políticos?
Reeleito para um segundo mandato, circulam rumores em Moscou de que Putin tentará permanecer no cargo após 2008. Para isso, o presidente teria de fazer uma emenda constitucional. Nada disso, porém, pode ser provado. De qualquer forma, as tentativas de Putin para aplacar a mídia vieram à tona várias vezes. Em termos de política exterior, Putin provou que sua prioridade não é necessariamente lidar com democratas. Shevardnadze e Kuchma, por exemplo, controlavam a mídia e o poder legislativo de seus países. Por sua vez, Akayev, que permaneceu mais de 13 anos no poder, está sendo acusado não somente de ter fraudado as eleições. Mas também de nepotismo e corrupção – e de ter colocado rivais atrás das grades. "Esferas de influência", velho jargão dos tempos da Guerra Fria, quando os soviéticos disputavam com os Estados Unidos o controle de zonas do mundo, parece não ser um anacronismo para Putin. |
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