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Clandestinidade nobre | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Quando escrevi minha primeira reportagem sobre brasileiras vivendo ilegalmente nos Estados Unidos o pai de uma delas ameaçou quebrar o escritório da revista Manchete em Belo Horizonte e me dar uma surra quando eu aparecesse por lá. Foi na década de 70. A clandestina em questão era uma universitária recém-formada que estava passando uns tempos aqui para aprender inglês e vivia de bicos, como diarista e professora de português. Foi a palavra clandestina que enfureceu o pai. Naquela época carregava um peso quase equivalente a marginal. Hoje, em média, 58 brasileiros estão sendo presos por dia tentando entrar nos Estados Unidos e dispostos a viver com outros dez ou 12 milhões de clandestinos, de cientistas russos a engraxates brasileiros. Não existe vergonha na vida sem documento e há um aspecto até enobrecedor porque fazem um trabalho honesto mal pago, sem benefícios, correndo o risco diário de prisão e deportação. Percentualmente, o brasileiro é o grupo étnico que mais cresceu em número de prisões por entradas ilegais, 1.665% entre 1999 e 2004. Na semana passada, 232 foram presos em 2 dias no Texas. Estão saindo do Brasil aos bandos. Em agosto passado, 14 brasileiros foram presos em furgões a caminho de Boston. Contaram que pagaram de US$ 2,5 mil a US$ 11 mil pelo pacote de entrada e transporte até o destino final. É uma barganha. O pacote chinês custa US$ 75 mil. Eles trabalham até 17 horas por dia, a maioria em restaurantes e lavanderias, para pagar pelas passagens e documentos falsos. Milhares dividem quartos onde 18 pessoas se revezam em beliches, levam pelo menos 5 anos para pagar a dívida e não há como escapar dela sem arriscar a própria vida ou as dos parentes que deixaram na China. Enquanto isso, norte-coreanos arriscam a vida para viver miseravelmente, mas felizes, como clandestinos na China. |
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