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Análise: Desafios da igreja são redefinir papel social e estrutura interna | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A eleição de um novo papa é um momento para a igreja fazer um balanço e pensar em seu futuro. Após o longo pontificado de João Paulo 2º, muitos vêem uma oportunidade para que o novo líder dos cerca de 1 bilhão de católicos reavalie algumas questões espirituais e morais que causaram polêmica no final do século 20. Além de temas relativos à doutrina, o rápido crescimento da Igreja Católica no mundo em desenvolvimento significa que grande parte dos fiéis está agora em países em que há pobreza e desprezo pelos direitos humanos. O papel da igreja deve ser puramente espiritual? Até que ponto ela deve abarcar uma agenda social ou se envolver com política? Há também pressões das bases por mudanças radicais na organização interna da igreja. A questão central é em que lugar deve se concentrar o poder. A burocracia do Vaticano deve preservar o controle centralizado? Ou deve distribuir poder nas mãos dos bispos em todo o mundo? Até mesmo o papel do papado está em discussão. Os cardeais terão de lidar com muitas questões ao fazer a sua escolha. Críticos Nunca faltaram críticos da Igreja Católica, e há aqueles tanto dentro como fora que vêem o atual momento como uma crise institucional. Eles acusam a igreja de não ter reconhecido as mudanças de comportamento da sociedade moderna que levaram muitos, sobretudo os jovens, a questionar as visões tradicionais sobre moralidade. O casamento não é mais visto por muitas pessoas como precondição para uma vida em família. A oposição da igreja aos métodos contraceptivos artificiais é ignorada por muitos. E o impacto do movimento das mulheres por igualdade política deu ao Vaticano a imagem de último bastião da desigualdade. Os críticos destacam a queda no número de pessoas que vão à missa em muitos países ocidentais como prova de que a igreja perdeu a sintonia com grande parte de seus seguidores. Outro motivo de preocupação é o declínio no número de jovens que desejam se tornar padres. Nos Estados Unidos, a igreja teve de apelar a anúncios publicitários para tentar preencher as vagas nos seminários. A culpa é atribuída à desilusão de muitos católicos com a falta de avanços do Vaticano nas reformas que eram esperadas – notoriamente com relação aos seus ensinamentos sobre contracepção. Camisinha A rápida proliferação do vírus HIV e da Aids na África trouxe uma nova urgência a esse debate e provocou demandas pela aprovação da igreja ao uso da camisinha como medida de saúde pública. A insistência da igreja para que os padres continuem a manter o celibato e a recusa em admitir mulheres como padres também são questões em debate. Os escândalos de abuso sexual, sobretudo nos Estados Unidos, é outra crise que o Vaticano tem enfrentado. Não bastasse o fato de padres terem molestado crianças, a imagem da igreja foi ainda mais prejudica com as revelações de que o alto clero tentou acobertar o problema. Ainda assim, em muitas partes do mundo em desenvolvimento, a igreja parece gozar de boa saúde. As igrejas de muitas nações africanas estão lotadas. Mas de que forma a igreja deve atender às necessidades globais de seus fiéis? Na América Latina, onde o número de católicos cresceu rapidamente, a igreja se vê dividida sobre o que ficou conhecido como teologia da libertação. Ao invocar a missão de Jesus como um amigo dos pobres, essa linha estimula as pessoas a se libertar da opressão econômica e política. O Vaticano adotou um linha dura contra os padres e bispos que parecem apoiar mudanças revolucionárias, vendo a militância como uma forma de atuação social com nuances marxistas. Mas o problema não desapareceu, e o novo papa terá sua autoridade testada à medida que responder a essas tensões. Ele estará ciente de que milhões de católicos nesses países vivem em pobreza, com poucos dos confortos vistos como básicos nos países desenvolvidos.
Uma coisa é certa: um novo papa vindo da América Latina ou da África daria uma nova dimensão ao feroz debate interno na igreja sobre onde devem estar as suas prioridades no século 21. 'Ventos da mudança' Muitos na igreja lembram dos dias do Segundo Concílio do Vaticano, quando o papa João 23 "escancarou as janelas do Vaticano" e deixou entrar os ventos da mudança. No centro desse processo de modernização estava a colegialidade – uma medida para dar aos bispos maior influência na gestão da igreja. Mas os progressistas ficaram decepcionados com a falta de avanços desde então. Ele dizem que a igreja é conduzida por uma burocracia rígida e centralizada, resistente a mudanças, relutante em largar do poder e rápida ao silenciar os teólogos dissidentes. Nem é preciso dizer que os tradicionalistas no Vaticano definem de forma diferente a sua atuação. Eles reforçam a necessidade de defender os ensinamentos da igreja numa época em que os valores espirituais e morais estão sob ataque. Outros, porém, acreditam que a tendência centralizadora da igreja seja um sério obstáculo para união entre os cristãos. Eles argumentam que a reforma do papado e da burocracia do Vaticano é essencial para que haja progresso rumo a uma maior reconciliação. E há um sentimento entre muitos cardeais e bispos de que o novo papa deveria liderar um Vaticano menos autoritário. Alguns dizem que um avanço rumo a maior democracia dentro da igreja deveria se estender ao processo de eleição do papa. Por que restringir a escolha a um grupo de cardeais de elite? Certamente, argumentam, para evitar que os bispos tenham voz na eleição. Se eles conseguissem implementar suas visões, reverteriam centenas de anos de tradição e fariam com que este fosse o último conclave à moda antiga. Assim, de uma forma ou outra, a Igreja Católica e seu novo papa enfrentam desafios enormes no início do terceiro milênio. |
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