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Atualizado às: 07 de março, 2005 - 10h42 GMT (07h42 Brasília)
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Rejeição aos EUA une governo e críticos na Síria

Manifestantes sírios em Beirute apóiam o presidente Assad e defendem permanência das tropas sírias no Líbano
Interferência americana no Oriente Médio causa irritação no país
As pressões dentro do Líbano e vindas da comunidade internacional – principalmente dos Estados Unidos – tiveram efeito sobre a Síria, que anunciou no sábado o início do processo de retirada de suas tropas que estão no país vizinho desde 1976.

Apesar do importante papel americano no processo, dentro da Síria a oposição à pressão de Washington é uma das poucas coisas que une o governo e os raros críticos que levantam a voz para falar sobre o governo do presidente Bashar al-Assad.

É consensual o discurso de que os americanos não estão fazendo pressão porque estão preocupados com a democracia na Síria ou com o bem-estar dos libaneses, mas sim para defender seus próprios interesses e também os interesses de Israel.

"A Síria tem um governo fascista e controlado pelos serviços secretos, mas também não confiamos nem um pouco no regime americano", disse o presidente da Associação de Direitos Humanos da Síria, Haithan Maleh, que foi um preso político entre 1980 e 1986.

"O presidente Assad já anunciou a retirada das tropas do Líbano, mas alguns americanos nunca vão ficar satisfeitos porque eles têm uma agenda própria para o Oriente Médio", disse a ministra dos Expatriados da Síria, Bouthaina Shaaban.

"Eles querem trazer o caos e a instabilidade para a região para que possam reestruturar nossos países de acordo com os interesses deles."

Democracia

Maleh não acredita que a pressão americana sobre os regimes do Oriente Médio possa ajudar os movimentos de oposição na região.

"A pressão dos Estados Unidos só faz com que o governo se feche e aumente ainda mais a repressão", diz.

Quando se trata de analisar o estado da democracia dentro da Síria, porém, o discurso dos dois lados se torna bem diferente.

Para Bouthaina Shaaban, a existência de um Parlamento há mais de 50 anos no país é uma das provas de que a Síria está no caminho da democracia.

"Nós temos 4 mil anos de história e aqui na Síria foi inventado o alfabeto. Nós somos um povo civilizado e não precisamos que ninguém venha nos ensinar o que é democracia", disse.

Já o advogado Maleh cita como prova de que não há liberdade no país a existência de 15 diferentes braços do serviço secreto, "cada um administrando suas próprias prisões, que têm no total mais de 2 mil presos políticos".

"Estou representando um preso que foi condenado a dois anos e meio de cadeia porque estava usando a internet", diz.

Segundo ele, há no país leis que permitem o assassinato de militantes islâmicos pelo governo e que tornam inimputáveis os agentes dos serviços secretos.

Maleh - que tem 73 anos e exibe em seu escritório peças de artesanato que fabricava nos anos em que ficou preso - diz que não tem mais medo do governo.

"Depois dos 70 anos de vida, a gente já está no tempo extra. Agora o governo pode fazer o que quiser com o que me resta da vida que não me importo", disse.

Líbano

Maleh avalia que a retirada da Síria do território libanês faz com que o presidente Al-Assad perca uma de suas mais importantes cartas no jogo da política internacional.

O advogado diz que a retirada já deveria ter acontecido há muito tempo, quando acabou a guerra civil no Líbano, mas concorda que, por outro lado, o país também tem de criar uma estratégia para se defender de um possível ataque de Israel.

O vale do Beqaa, para onde o presidente Al-Assad disse que as tropas sírias serão deslocadas inicialmente, é um ponto altamente estratégico no Oriente Médio, porque dá acesso fácil - através de uma ampla planície entre cadeias montanhosas - desde o território israelense até a capital síria.

Bouthain Shaaban discorda da avaliação de que a movimentação de tropas dentro do Líbano vá tirar peso da Síria no equilíbrio internacional de forças.

"Tudo vai ser feito em comum acordo entre sírios e libaneses. Nosso presidente já anunciou a firme decisão política de retirar as tropas e agora o modo como isso vai ser feito depende de um estudo técnico e logístico", disse.

O presidente sírio, Bashar al-Assad
Al-Assad assumiu após morte de seu pai em 2000

A ministra espera que o anúncio do presidente ajude a restabelecer boas relações de seu país com a França, que ficaram prejudicadas durante esta crise.

Congresso

No que diz respeito às reformas democráticas internas, Shaaban diz que em cerca de dois meses vai acontecer o congresso do Partido Baath - hegemônico na Síria - e que deve haver então "um salto nas reformas".

Maleh não espera mais do que "mudanças cosméticas" durante esse congresso. "O regime sírio é fraco, mas a oposição é mais fraca ainda", disse.

O atual presidente, Bashar al-Assad, assumiu o poder quando seu pai, o presidente Hafez al-Assad morreu, no ano 2000.

Naquele momento, Bashar tinha 34 anos de idade e era oftalmologista em Londres. A Constituição síria foi mudada às pressas para reduzir de 40 anos para 34 anos a idade mínima para que um cidadão pudesse assumir a presidência.

Havia expectativa de que algumas mudanças profundas acontecessem com a chegada do novo governante, mas, embora algumas coisas tenham acontecido - como a liberação do acesso à internet e às TVs via satélite -, a maioria dos observadores considera as mudanças ainda muito tímidas.

Ao contrário do que acontece em outro países do Oriente Médio, há poucas restrições a aspectos da vida cotidiana. Não há, por exemplo, obrigatoriedade do uso de véus pelas mulheres - que inclusive ocupam altos cargos no governo - e filmes e músicas americanas estão por toda parte, tanto nos cinemas quanto nas TVs.

Mas a mídia local ainda está toda nas mãos do governo, e os sírios evitam discussões políticas críticas ao governo, sempre com medo de que alguém possa estar escutando.

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