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Rejeição aos EUA une governo e críticos na Síria | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
As pressões dentro do Líbano e vindas da comunidade internacional – principalmente dos Estados Unidos – tiveram efeito sobre a Síria, que anunciou no sábado o início do processo de retirada de suas tropas que estão no país vizinho desde 1976. Apesar do importante papel americano no processo, dentro da Síria a oposição à pressão de Washington é uma das poucas coisas que une o governo e os raros críticos que levantam a voz para falar sobre o governo do presidente Bashar al-Assad. É consensual o discurso de que os americanos não estão fazendo pressão porque estão preocupados com a democracia na Síria ou com o bem-estar dos libaneses, mas sim para defender seus próprios interesses e também os interesses de Israel. "A Síria tem um governo fascista e controlado pelos serviços secretos, mas também não confiamos nem um pouco no regime americano", disse o presidente da Associação de Direitos Humanos da Síria, Haithan Maleh, que foi um preso político entre 1980 e 1986. "O presidente Assad já anunciou a retirada das tropas do Líbano, mas alguns americanos nunca vão ficar satisfeitos porque eles têm uma agenda própria para o Oriente Médio", disse a ministra dos Expatriados da Síria, Bouthaina Shaaban. "Eles querem trazer o caos e a instabilidade para a região para que possam reestruturar nossos países de acordo com os interesses deles." Democracia Maleh não acredita que a pressão americana sobre os regimes do Oriente Médio possa ajudar os movimentos de oposição na região. "A pressão dos Estados Unidos só faz com que o governo se feche e aumente ainda mais a repressão", diz. Quando se trata de analisar o estado da democracia dentro da Síria, porém, o discurso dos dois lados se torna bem diferente. Para Bouthaina Shaaban, a existência de um Parlamento há mais de 50 anos no país é uma das provas de que a Síria está no caminho da democracia. "Nós temos 4 mil anos de história e aqui na Síria foi inventado o alfabeto. Nós somos um povo civilizado e não precisamos que ninguém venha nos ensinar o que é democracia", disse. Já o advogado Maleh cita como prova de que não há liberdade no país a existência de 15 diferentes braços do serviço secreto, "cada um administrando suas próprias prisões, que têm no total mais de 2 mil presos políticos". "Estou representando um preso que foi condenado a dois anos e meio de cadeia porque estava usando a internet", diz. Segundo ele, há no país leis que permitem o assassinato de militantes islâmicos pelo governo e que tornam inimputáveis os agentes dos serviços secretos. Maleh - que tem 73 anos e exibe em seu escritório peças de artesanato que fabricava nos anos em que ficou preso - diz que não tem mais medo do governo. "Depois dos 70 anos de vida, a gente já está no tempo extra. Agora o governo pode fazer o que quiser com o que me resta da vida que não me importo", disse. Líbano Maleh avalia que a retirada da Síria do território libanês faz com que o presidente Al-Assad perca uma de suas mais importantes cartas no jogo da política internacional. O advogado diz que a retirada já deveria ter acontecido há muito tempo, quando acabou a guerra civil no Líbano, mas concorda que, por outro lado, o país também tem de criar uma estratégia para se defender de um possível ataque de Israel. O vale do Beqaa, para onde o presidente Al-Assad disse que as tropas sírias serão deslocadas inicialmente, é um ponto altamente estratégico no Oriente Médio, porque dá acesso fácil - através de uma ampla planície entre cadeias montanhosas - desde o território israelense até a capital síria. Bouthain Shaaban discorda da avaliação de que a movimentação de tropas dentro do Líbano vá tirar peso da Síria no equilíbrio internacional de forças. "Tudo vai ser feito em comum acordo entre sírios e libaneses. Nosso presidente já anunciou a firme decisão política de retirar as tropas e agora o modo como isso vai ser feito depende de um estudo técnico e logístico", disse.
A ministra espera que o anúncio do presidente ajude a restabelecer boas relações de seu país com a França, que ficaram prejudicadas durante esta crise. Congresso No que diz respeito às reformas democráticas internas, Shaaban diz que em cerca de dois meses vai acontecer o congresso do Partido Baath - hegemônico na Síria - e que deve haver então "um salto nas reformas". Maleh não espera mais do que "mudanças cosméticas" durante esse congresso. "O regime sírio é fraco, mas a oposição é mais fraca ainda", disse. O atual presidente, Bashar al-Assad, assumiu o poder quando seu pai, o presidente Hafez al-Assad morreu, no ano 2000. Naquele momento, Bashar tinha 34 anos de idade e era oftalmologista em Londres. A Constituição síria foi mudada às pressas para reduzir de 40 anos para 34 anos a idade mínima para que um cidadão pudesse assumir a presidência. Havia expectativa de que algumas mudanças profundas acontecessem com a chegada do novo governante, mas, embora algumas coisas tenham acontecido - como a liberação do acesso à internet e às TVs via satélite -, a maioria dos observadores considera as mudanças ainda muito tímidas. Ao contrário do que acontece em outro países do Oriente Médio, há poucas restrições a aspectos da vida cotidiana. Não há, por exemplo, obrigatoriedade do uso de véus pelas mulheres - que inclusive ocupam altos cargos no governo - e filmes e músicas americanas estão por toda parte, tanto nos cinemas quanto nas TVs. Mas a mídia local ainda está toda nas mãos do governo, e os sírios evitam discussões políticas críticas ao governo, sempre com medo de que alguém possa estar escutando. |
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