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Oposição libanesa exige saída da Síria para negociar | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Líderes da oposição exigiram em uma declaração conjunta a retirada das foças sírias do Líbano e a renúncia dos chefes dos serviços de inteligência libaneses como condição para participarem das negociações de formação de um novo governo que substitua o gabinete demissionário do primeiro-ministro Omar Karami. Alguns dos oposicionistas, no entanto, preferiram utilizar a palavra "recuo" dos sírios - e não retirada - quando falaram com a imprensa na saída da reunião na qual a declaração foi redigida. O anfitrião do encontro, Walid Joumblatt, admitiu que não há consenso sobre o modo como esta retirada deve acontecer. "Alguns de nós defendem o uso do tratado de Taef (assinado entre os dois países em 1989, prevendo inicialmente um deslocamento das forças sírias dentro do Líbano) e outros querem o cumprimento da Resolução 1559 (do Conselho de Segurança da ONU, determinando a retirada imediata das tropas sírias do território libanês)", disse Joublat, que promoveu a reunião em sua casa nas montanhas, a cerca de uma hora de Beirute, por medo de atentados. "Nosso tom está bem mais moderado do que o que se ouve dos manifestantes nas ruas do centro de Beirute. É melhor que o governo nos ouça para não ter de enfrentar um levante popular." Joumblatt não conseguiu, no entanto, concretizar sua intenção de também catalizar a oposição em torno da exigência da renúncia do presidente Emile Lahoud. Tratado de Taef Formalmente, o discurso de muitos oposicionistas acaba não sendo tão diferente da posição dos políticos pró-Síria, que também defendem o cumprimento do tratado de Taef. Mais do que a simples retirada militar, o que mais diferencia as posições entre os dois lados diz respeito ao grau de confiança que cada um tem a respeito das intenções do governo sírio. "Eu sou um dos políticos que há anos vêm pedindo o fim da intervenção militar síria, mas isso não pode ser feito aos gritos porque há realidades que têm de ser levadas em conta. Ninguém, nem as pessoas que estão protestando na rua, poderia viver com uma inimizade entre países vizinhos e tão ligados entre sí como a Síria e o Líbano", diz o deputado oposicionista independente, Hassam Rebeh. "A Síria sempre esteve presente para ajudar os libaneses e por isso temos o tratado de Taef. A retirada síria tem que acontecer, mas o modo como isso vai acontecer tem de ser decidido pelos governos dos dois países e não por pessoas gritando na rua ou por poderes estrangeiros", diz o deputado do Partido Baat libanês (a agremiação política mais próxima da Síria), Qasem Hasham. No parlamento libanês, a maioria do deputados é pró-Síria. Segundo a oposição, isso acontece porque as eleições são manipuladas pelo vizinho mais poderoso. Resolução 1559 Entre os manifestantes, ao contrário, a palavra de ordem é o cumprimento da Resolução 1559, aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU em setembro do ano passado. A resolução pede a saída de todas as forças estrangeiras presentes no Líbano - uma referência indireta à Síria, o único país que ainda mantém tropas no país - e também o desmonte das milícias armadas locais, o que incluiria o poderos Hizbollah. "O governo do primeiro-ministro Karami já renunciou, mas vamos continuar protestando porque não era este o nosso principal objetivo. O que queremos é volta da soberania libanesa, com a saída das tropas sírias de nosso território e o cumprimento da Resolução 1559", disse Jad Mattar, da Frente Patriótica Democrática. Mattar esta entre as centenas de jovens manifestantes acampados em uma vigília permanente na praça central de Beirute - ao lado do mausoléu do ex-primeiro-ministro assassinado Rafiq Hariri - atendendo aos pedidos de líderes da oposição de manutenção dos protestos até que a retirada síria aconteça. Mas apesar de ter pessoalmente posições mais radicais, Mattar diz que entende a necessidade de os líderes da oposição adotarem um tom mais brando. "Ninguém quer inimizade com a Síria e nós só temos problemas porque eles estão mantendo uma ocupação militar aqui. O que queremos é que eles saiam do país para que o Líbano soberano possa estabelecer boas relações com nosso vizinhos sírios", diz. "Nosso países tem um histórico muito importante e isso não pode ser esquecido." Maioria silenciosa Mas os líderes do campo pró-Síria dizem que a posição de manifestantes como Mattar não reflete o que pensa a maioria do país. Para eles, os protestos nas ruas são organizados por uma minoria barulhenta e não representam o que pensa a maioria silenciosa do país. "Não é porque as ruas estão cheias de manifestantes que todo mundo no Líbano pensa como eles. A renúncia do gabinete de Karami não aconteceu por causa das manifestações mas porque, dentro do Parlamento, chegou-se à conclusão de que esta seria a melhor solução", diz o baathista Hasam. O deputado é originiário da cidade de Shibat, controlada pelos isralenses. O status da cidade ainda está indefinido: Israel afirma tratar-se de seu território, mas os libaneses consideram a cidade uma área ilegalmente ocupada. A relação conflituosa entre libaneses e israelenses - ou mesmo a simples existência de Israel - também está entre os principais argumentos dos defensores da presença síria no país. "Os Estados Unidos estão só interessados em pegar a Síria e são os sírios que nos defendem de Israel", diz o deputado governista do Partido Socialista Nacional do Líbano, Marwan Fares. O deputado critica franceses e americanos por tentarem se envolver nos problemas libaneses. "Eles (franceses e americanos) dizem que a influência síria tem de ser eliminada mas os Estados Unidos e a França é que querem definir os destinos do Líbano", diz. Pressão Apesar das recentes indicações em entrevistas do presidente sírio Bashar al-Assad de que a retirada do Líbano pode estar se aproximando, Fares discorda que a a Síria esteja se dobrando às exigências do exterior. "A Síria nunca teve a intenção de ficar permanentemente no Líbano e está fazendo o que tem de ser feito. Estamos acostumados à pressão externa e vamos tomar nossas próprias decisões." O oposicionista Rebeh, ao contrário, tem uma visão mais favorável dos impactos do cenário internacional no Líbano. "A Síria está percebendo que a situação no mundo está mudando e que eles tem de seguir as novas tendências." |
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