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Em cartada arriscada, Howard Dean comandará democratas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O médico Howard Dean é um político improvável, de colapsos e ressurreições espetaculares. Apesar da resistência inicial de quase todos os caciques partidários, ele está pronto para ser consagrado neste sábado, em Washington, presidente do Partido Democrata. Dean parecia destinado a ser uma nota de rodapé na história, depois que sua candidatura nas primárias presidenciais democratas no começo de 2004 implodiu. Para o folclore político, ele deixara o seu grito histérico de triunfo após terminar em terceiro lugar nas primárias do Estado de Iowa. Mas Dean está aí de volta, não adianta chorar ou gritar. Candidatos obscuros desistiram ao longo da corrida pelo comando do partido e Dean tem uma massa crítica de apoio de liberais e de ativistas entre os 447 membros do Comitê Nacional Democrata que deverão votar no sábado. Um impulso importante foi o respaldo do cacique Harold Ickes, súdito fiel da "família real" Clinton, o que reforçou a teoria maquiavélica de que Dean tem o sinal verde para chefiar o partido desde que não atrapalhe a caminhada rumo à Casa Branca da ex-primeira-dama Hillary. Pontos favoráveis Os pontos agora a favor de Howard Dean são os mesmos que contaram nas primárias. Ele tem capacidade para mobilizar a base, recrutar novos ativistas e arrecadar fundos, em particular na internet. Com Dean, há entusiasmo, mas também a armadilha. Há um debate interminável sobre a necessidade democrata de expandir seu apelo além de sua base e se apossar da mensagem republicana em valores morais e segurança nacional. Contra o ex-governador de Vermont há o fato de que ele reforça as fraquezas do partido. Os republicanos foram muito hábeis para caricaturar Dean como um liberal estridente e pacifista. Ele seria um porta-voz da contra-cultura ultrapassada dos anos 60. Realmente, parte do triunfo inicial de Dean nas primárias presidenciais resultou de sua postura contra a guerra do Iraque (que hoje de certa maneira é compartilhada pelo establishment do partido), mas na verdade ele está longe de ser um esquerdista. Como governador, Dean era pragmático e centrista. Ele impôs disciplina fiscal no seu pequeno Estado, assumiu compromissos com empresários (irritando ambientalistas) e é favorável ao direito dos americanos portarem armas. A caricatura, no entanto, está consolidada. Ademais há muitas dúvidas sobre o temperamento e a disciplina de Howard Dean. Uma função essencial de presidente de partido é organização e Dean tem reputação de péssimo administrador. Basta ver que sua campanha nas primárias estourou rapidamente os US$ 50 milhões arrecadados. Mesmo antes do início da votação nos Estados, ele estava praticamente quebrado. Os republicanos torcem pelo sucesso de Howard Dean como presidente do partido rival. Melhor notícia para eles seria apenas a consagração de Hilary Clinton como candidata presidencial dos democratas em 2008. Dick Morris, ex-bruxo eleitoral de Bill Clinton, resumiu um sentimento fatalista sobre o triunfo de Howard Dean dizendo que se trata de uma "nota de suicídio" do Partido Democrata. O ambicioso Howard Dean não almejaria o comando do partido se fosse um cargo meramente burocrático. É preciso alguém que articule uma alternativa às políticas republicanas e reconstrua a infra-estrutura democrata. A função hoje tem mais importância na medida em que democratas não controlam nem a Casa Branca e nem o Congresso. Pior ainda, é uma oposição sem um líder carismático ou um rumo definido. A opção democrata por Dean gera essa discussão sobre nota de suicídio, desespero ou cartada histórica do partido. Há um problema mais fundamental. Em temas que variam de segurança nacional a valores morais – e passando mesmo por certos aspectos da política econômica – as visões democratas deixaram de galvanizar o apoio da maioria dos eleitores americanos. |
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