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Realidade militar e política impede Bush de fixar prazo para saída do Iraque | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O Exército americano estima que deve manter por pelo menos mais dois anos o seu atual contingente de 120 mil soldados no Iraque, e a Casa Branca está pedindo ao Congresso que autorize mais US$ 80 bilhões de fundos adicionais este ano para operações militares. Esses dados divulgados dias antes das eleições iraquianas confirmam a dificuldade estratégica para se fixar uma data para a retirada das tropas americanas do país. Há pressões para que os soldados americanos comecem a voltar para casa. Pesquisas mostram que, para a opinião pública dos Estados Unidos, o investimento iraquiano não compensou, e mesmo no establishment republicano há vozes, como a do ex-secretário de Estado James Baker, clamando pela necessidade de uma redução gradual da presença militar no Iraque. Planos Na sabatina de confirmação do seu nome no Senado, a secretária de Estado Condoleezza Rice foi pressionada para fixar prazos, mas ela se recusou a especificar um cronograma de retirada. Isso não impede o Pentágono de elaborar os habituais planos de contingência, inclusive para uma retirada imediata. Dentro do Iraque, obviamente há pressões, algumas muito explosivas. Em termos políticos, líderes xiitas na campanha eleitoral exigem um fim rápido da ocupação. É jogo de cena. A realidade da insurgência torna inviável tal exigência. A fixação de um prazo é irrealista, para não dizer perigosa para a própria sobrevivência da transição no país. Nos bastidores, os líderes xiitas admitem para as autoridades americanas que, após a vitória nas eleições de domingo, eles poderão pedir um vago compromisso para a retirada vinculada a eventuais progressos das tropas locais na luta de contra-insurgência. Mesmo a médio prazo, estes progressos são duvidosos. Anthony Cordesman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, um dos mais respeitados analistas militares americanos, estima que, no cenário mais otimista, as forças iraquianas não terão equipamento e treinamento para confrontos significativos com os rebeldes até o final do ano. Fatores Não há prazo para a retirada militar americana do Iraque, mas vários fatores podem apressar uma decisão. Com petulância retórica, o presidente Bush já declarou uma vez que a missão estava cumprida. De fato, isto às vezes pode efetivamente acontecer. Em 1952, sete anos após o final da Segunda Guerra Mundial, o general Douglas MacArthur encerrou a ocupação americana no Japão, que passou a ser definido como um aliado fiel e estável. É verdade que tropas americanas permanecem até hoje no país. No Iraque, sempre há a possibilidade de uma farsa para justificar a saída americana. Bush pode adotar a solução Aiken, referência ao lendário senador republicano George Aiken que, em 1966, propôs a seguinte artimanha para os EUA se safarem do atoleiro vietnamita: declarar vitória e cair fora. No final das contas, a saída do sudeste asiático foi atropelada e humilhante. São as famosas imagens em 1975 da missão de resgate empreendida por helicópteros no telhado da embaixada americana em Saigon. O governo Bush nem pode imaginar tal cenário humilhante, mas um evento catastrófico pode apressar a retirada do Iraque. Em 1983, o governo Reagan insistiu que os fuzileiros navais ficariam no Líbano, mas o atentado de 23 de outubro, que provocou a morte de 241 deles, forçou a Casa Branca a mudar de planos meses depois. Com um crescente número de baixas americanas no Iraque, as pressões populares domésticas por uma retirada podem se tornar muito poderosas. Mas muitos analistas rebatem que o investimento político de Bush no Iraque é muito poderoso. Michael O' Hanlon, da Instituição Brookings, em Washington, ressalta que o legado do presidente depende do sucesso iraquiano. A missão deve ser cumprida, de qualquer forma. |
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