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Atualizado às: 09 de fevereiro, 2005 - 03h04 GMT (01h04 Brasília)
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Década de 90 foi decepcionante na AL, diz FMI

Crescimento na região não foi suficiente para reduzir pobreza
Crescimento na região não foi suficiente para reduzir pobreza
Se os anos 80 são lembrados na América Latina como a década perdida, os anos 90 foram "decepcionantes", segundo um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a região.

"Comparado com um período mais longo, o desempenho da economia latino-americana nas últimas duas décadas foi algo decepcionante", afirma o relatório intitulado "Estabilização e Reformas na América Latina desde 1990".

"Este estudo conclui que as reformas estruturais e de estabilização estimularam o crescimento, embora os efeitos tenham sido menores e menos duradouros do que o originalmente esperado."

Os avanços, portanto, não foram suficientes para superar problemas estruturais, incluindo a pobreza. De fato, em termos absolutos, o número de pobres aumentou em 14 milhões na década de 90 para atingir 214 milhões em 2002, segundo o Fundo.

O documento foi preparado pela equipe do Fundo para o Hemisfério Ocidental e apresentado nesta terça-feira em Washington.

Consenso de Washington

Ao apresentar um relatório sobre a evolução da economia latino-americana na última década, o diretor do Fundo Monetário Internacional para o Hemisfério Ocidental, Anoop Singh, disse que os governos latino-americanos aprenderam a lição.

Singh disse que existe atualmente um "novo consenso", diferente do "Consenso de Washington", como é conhecido o conjunto de medidas liberalizantes aplicadas na região nos últimos anos.

"O Consenso de Washington, ou de onde seja, não focava nas reformas estructurais e institucionais", disse o funcionário do FMI, ao comentar as conclusões do relatório "Estabilização e Reformas na América Latina desde 1990".

"Nos anos noventa, a dívida pública crescia, em moeda estrangeira e com vencimento de curto prazo." Hoje, acrescentou, os governos latino-americanos se endividam em moeda nacional e a longo prazo.

Inflação

Os analistas do FMI dizem que as reformas realizadas entre o final da década de 80 e princípios dos 90 ajudaram os países latino-americanos a controlar a inflação e impulsionaram um tímido crescimento econômico.

Segundo o relatório, o controle da inflação – resultado de um "consenso latino-americano" – significou o "mais notável sucesso" dos programas de reformas na região.

"No fim dos anos 90, apenas dois países da América Latina tinham índices de inflação de mais de 10% e a média regional havia baixado para bem menos de 10%."

Já o impulso ao crescimento, outro objetivo das reformas, foi verificado apenas na primeira metade da década, quando o desempenho da região "parecia validar muitas das grandes expectativas iniciais".

"Os sinais de fragilidade ficaram evidentes, no entanto, com o Efeito Tequila, do México, em 1994 e 95, e o contágio para outras grandes economias da região."

Seguiram-se as crises asiáticas e russa, relata o documentoo, "o apetite dos investidores por risco caiu e a consequente reversão do fluxo de capitais acentuaram vulnerabilidades inerentes a economias latino-americanas".

Como resultado, o PIB (Produto Interno Bruto) per capita caiu mais de 1%, em média, entre os anos de 1997 e 2002, e a melhora nos indicadores sociais foi interrompida, diz o FMI.

No caso do Brasil, diz o relatório, o PIB praticamente estagnou nesse período.

Os analistas do FMI destacam as crises financeiras no Brasil (1999 e 2002), na Argentina (2001) e no Uruguai (2002) e dizem que, embora a importância relativa dos erros de política interna possa ser discutida, "está claro em retrospecto que essas economias não estavam suficientemente protegidas de crises".

De acordo com o FMI, o Brasil e a Argentina conseguiram se recuperar relativamente rápido das crises, mas o seu crescimento continua abaixo do potencial, impedindo uma "luta efetiva contra a pobreza, o principal problema da região".

O relatório também critica o que considera como falta de eficácia dos governos no empreendimento das reformas de liberalização econômica – "fraquezas que limitaram e, em alguns casos, distorceram as reformas".

O documento analisa ainda a influência de políticas fiscais no desempenho econômico da região. No geral, o FMI considera que os governos se mantiveram muito expostos às instabilidades do setor financeiro e, com isso, amplificaram os choques nas suas economias.

"Esta forte co-relação de riscos significou que os governos estavam menos equipados para fornecer apoio para o setor financeiro quando esta ajuda era mais necessária."

O documento também critica o que chama de indisciplina fiscal na região, embora elogie o Brasil e a Colômbia como "notáveis exceções" no que diz respeito ao aumento da base de arrecadação.

"O Brasil, em particular, aumentou a arrecadação fiscal em mais de 5% do PIB nos anos que se seguiram à crise financeira de 1998, refletindo em grande parte os aumentos nos impostos indiretos e impostos sobre transações financeiras."

Por outro lado, o relatório critica a rigidez nos gastos do governo, citando a reserva de verbas para programas específicos, como o Fundo contra a Pobreza, e o atrelamento de gastos a outras variáveis marcroeconômicas (ligar a aposentadoria ao salário mínimo, por exemplo).

"Com cerca de 80% dos gastos públicos sendo obrigatórios no fim da década de 90, a habilidade do país em se adaptar a mudanças nas circunstâncias macroeconômicas ficou comprometida."

O relatório elogia ainda a Lei de Responsabilidade Fiscal brasileira, que diz ser um "bom exemplo de uma resposta de um país latino-americano às lições fiscais dos anos 90" .

O relatório destaca ainda a dificuldades de acesso dos países latino-americanos aos mercados internacionais, destacando apenas o Chile e o México como exceções. O Chile por sua "agressiva" e o México, pelas vantagens de sua associação com os Estados Unidos e o Canadá numa área de livre comércio (Nafta).

Recomendações

O FMI termina o relatório sugerindo que os países da região reforcem "a credibilidade a e a força dos sistemas financeiros, adoptando medidas adicionais que fortaleçam a independência dos bancos centrais".

Dessa forma, as economias ficariam mais vulneráveis a crises internacionais e, defende o Fundo.

Outra recomendação é a redução da dívida pública, que o próprio FMI diz ser uma tendência na região.

O Fundo também cobra maior participação da América Latina na região, o que, segundo relatório, deve ser prioridade da região.

O relatório reconhece, no entanto, que a abertura depende também de esforços internacionais.

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