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Lucas Mendes: Estado de Graça | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O Estado da União é uma espécie de check up anual da condição geral do país, mas o diagnóstico costuma ser tão otimista que deveria se chamar Estado de Graça. Uma hora, metade doméstica, metade internacional, dois terços discurso, um terço aplauso, duas ou três promessas cumpridas, um mundo por cumprir. Bem misturado. John Kennedy foi um dos poucos presidentes que deprimiram a audiência: - a maré está contra" disse ele " e as notícias vão piorar antes de melhorar". Sentia o calor da guerra fria. Johnson veio em seguida e prometeu a criação da Grande Sociedade, o mais ambicioso plano americano de luta pela integração racial e contra a pobreza. Foi engolido pela guerra do Vietnã, mas muitas de suas metas foram realizadas. Nixon, imerso no escândalo Watergate, foi ao Congresso pedir aos deputados e senadores que enterrassem o assunto. Sete meses depois, partia num helicóptero da Casa Branca politicamente enterrado. Clinton, o campeão da eloqüência, foi o único presidente que fez o Estado da União diante de um Congresso que estava decidindo se ele deveria ou não ser expulso da Casa Branca por causa de Monica Lewinsky. A tradição do discurso começou pelo primeiro presidente mas o terceiro, Jefferson, achava que a apresentação diante do Congresso tinha um ranço aristocrático e mandou o dele por escrito. Os 26 presidentes seguintes seguiram o exemplo, mas o 27, Woodrow Wilson, foi ao vivo ao Congresso em 1913 e restabeleceu a tradição. Desde o rádio passou a ser uma oportunidade indispensável para o presidente ir ao Congresso e falar com o povo passando por cima dos políticos. Para quem fica embasbacado com discursos como eu, o Estado da União é imperdível mas o primeiro e último republicano que me fez chorar foi Ronald Reagan . Ele inventou a fórmula de levar americanos comuns para o Congresso e apresentá-los como heróis do cotidiano porque tinham feito algo excepcional. Não importava se pertenciam a algum partido. Desde então todos presidentes copiaram o modelo, mas sempre com um ângulo partidário. Perdeu o sabor de verdade. |
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