BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
Atualizado às: 30 de janeiro, 2005 - 00h56 GMT (22h56 Brasília)
Envie por e-mailVersão para impressão
Análise: Credibilidade de eleições no Iraque depende de participação sunita

Candidato faz campanha em Bagdá
A campanha convencional foi quase impossível no Iraque
O sucesso das eleições no Iraque não depende apenas de quantas pessoas vão votar, mas de quem vai comparecer às urnas neste domingo.

Se um número significativo da minoria muçulmana sunita não participar das eleições, a credibilidade do pleito pode ser prejudicada.

Muitos iraquianos, em particular os sunitas, vêem as eleições com indiferença. Eles não confiam na nova classe política e acreditam que os políticos sejam incapazes de lidar com suas principais preocupações - como segurança, desemprego, infra-estrutura inadequada -, enquanto o Iraque permanecer sob a ocupação das forças lideradas pelos Estados Unidos.

O pior cenário é que uma eleição que não tenha legitimidade para um grande número de iraquianos poderia levar o país ao caminho da guerra civil e à divisão do território.

Rivalidade

Analistas internacionais ressaltam, porém, que a política iraquiana não é apenas uma questão de rivalidade entre sunitas e xiitas.

Os muçulmanos sunitas estão bem longe de ser um grupo monolítico que opera de forma unificada.

Até mesmo os xiitas – com sua tradição mais hierárquica do que os sunitas ortodoxos – mostram divisões que muitas vezes não são reconhecidas.

Primeiro, existe a dicotomia entre xiitas religiosos e xiitas laicos.

Depois, existe a tradição xiita iraniana – predominante especialmente nos centros sagrados de Najaf e Karbala – que se contrasta com os xiitas árabes que prevalecem entre os pobres da área rural e das favelas, muitos dos quais seguem o clérico radical e ex-líder insurgente Moqtada Sadr.

Eleitora recebe folheto de campanha em Bagdá
Os eleitores de classe-média têm suas próprias preocupações

Divisões xiitas

A Aliança Unida Iraquiana, com o alegado apoio do principal líder xiita no Iraque, aiatolá Ali Sistani, é a casa natural para os xiitas de tradição iraniana.

No entanto, os "xiitas árabes" podem relutar em votar na Aliança Unida Iraquiana, que é dominada pelo antigo Conselho para Revolução Islâmica no Iraque (Sciri, na sigla em inglês), baseado no Irã, e pelo Partido Islâmico Daawa.

Eles podem, na verdade, nem mesmo aparecer para votar, por acreditarem que não haverá uma mudança em sua participação política ou da ocupação americana que está no país.

No entanto, a Aliança Unida Iraquiana deve receber a maior parcela de votos.

Por sua vez, os xiitas de classe-média podem considerar o primeiro-ministro interino do Iraque, Ayad Allawi, como um salvador no meio de tantos grupos religiosos e da insurgência liderada pelos sunitas, que já custou a vida de muitos iraquianos.

Allawi tem as mesmas raízes seculares e urbanas, apesar de ter vivido no exílio por muitos anos, e cultivou a imagem de um homem duro, o que muitos xiitas vêem como a única maneira de derrotar o terrorismo. Mas essa posição já lhe criou muitos inimigos.

Mensagens mistas

A situação sunita é o que faz com que a eleição se torne realmente problemática. Para os xiitas, essa é uma oportunidade de assegurar o seu poder numérico, já que cerca de 60% da população do país é de muçulmanos xiitas.

Mas para os sunitas - cerca de 20% dos iraquianos -, as eleições podem colocar um fim ao seu poder no Iraque depois de um longo, enriquecedor e turbulento período de domínio no país.

Líderes religiosos da Associação de Intelectuais Muçulmanos (AMS, em inglês) já pediram que os sunitas boicotem as eleições com o argumento de que o pleito não significa nada enquanto o Iraque continuar sendo ocupado por forças americanas.

No entanto, outro grupo sunita, o Partido Islâmico do Iraque, chegou a apresentar uma lista de candidatos, apesar de agora pedir também pelo boicote, mas alegando problemas de segurança.

E a própria AMS diz que os eleitores sunitas nas províncias do norte do país devem votar de qualquer maneira, para impedir que eles sejam vencidos nas urnas pelos curdos, que querem terminar com a exclusão do poder que vêm sofrendo há décadas.

Medo de violência

Mas há uma tradição secular entre os muçulmanos sunitas que é ainda mais forte que o secularismo xiita.

Na verdade, alguns analistas dizem que as questões sobre que papel uma religião pode ter na política iraquiana são mais importantes que qualquer divisão entre xiitas e sunitas.

Urnas que serão usadas nas eleições
Muitos locais de votação ainda não foram divulgados

Muitos sunitas de classe-média podem pensar que têm mais em comum com os xiitas de classe-média do que com clérigos, e podem seguir os xiitas seculares para os locais de votação para votar em candidatos seculares.

A questão para eles, no entanto, é se é seguro votar, já que qualquer manifestação de atividade eleitoral é considerada um alvo para os insurgentes.

Autoridades iraquianas e americanas estão aplicando medidas de segurança draconianas para assegurar que as eleições sejam justas e livres.

Há mais de 6 mil postos de votação - um número grande para impedir ataques de grande porte. Apesar disso, é necessário matar apenas poucas pessoas para assustar toda a população.

Resultados imprevisíveis

Mas será que a participação dos sunitas vai ser forte o suficiente para dar legitimidade à eleição?

Pode-se dizer que a guerra civil já acontece em algumas partes do Iraque.

Além disso, as eleições podem trazer resultados surpreendentes devido ao atual estado do país.

Ninguém sabe como a distância dos candidatos - muitos deles inclusive omitiram a identidade com medo de serem assassinados - pode afetar os eleitores.

O comportamento das forças americanas - talvez fiquem muito perto dos locais de votação e assustem os eleitores - pode ter uma influência.

E os pedidos de boicote podem ter menos impacto do que foi pensado.

Há inclusive a possibilidade de que as forças que lideram a insurgência contra a ocupação americana votem nessas eleições para não perder mais status depois da retirada do Exército dos Estados Unidos.

Eleições no Iraque
Especial traz as últimas notícias e análises.
IraquianasEntenda o processo
Tire as suas dúvidas sobre as eleições deste domingo.
Ahmed ChalabiQuem é quem
Conheça os principais personagens do pleito no Iraque.
NOTÍCIAS RELACIONADAS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Envie por e-mailVersão para impressão
Tempo|Sobre a BBC|Expediente|Newsletter
BBC Copyright Logo^^ Início da página
Primeira Página|Ciência & Saúde|Cultura & Entretenimento|Vídeo & Áudio|Fotos|Especial|Interatividade|Aprenda inglês
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
Ajuda|Fale com a gente|Notícias em 32 línguas|Privacidade