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Refugiados votam, mas não dispensam luta armada | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Um brasileiro que entre em um campo de refugiados palestino não pode deixar de perceber as semelhanças com uma favela: vielas estreitas, falta de infra-estrutura, reclamações de desemprego e crianças andando por todos os lados. A BBC Brasil visitou o campo de Balata, perto da cidade de Nablus, na Cisjordânia, e os refugiados que vivem no campo consideram as eleições palestinas são importantes e acham que todos devem votar. Mas se por um lado o caminho político é visto como necessário, nenhum dos palestinos ouvidos acha que é hora de abandonar as ações armadas contra os israelenses. Os grandes campos de refugiados - em Balata, por exemplo, há cerca de 25 mil pessoas - são as principais fontes de recrutamento de ativistas dispostos a realizar ações suicidas e ataques ousados contra alvos israelenses. “São duas coisas diferentes. Temos de votar mas enquanto Israel continuar nos atacando temos também de ter a resistência armada”, disse o líder do Fatah - o grupo político de Yasser Arafat e Mahmoud Abbas - Iahamdi Jamal. “De qualquer jeito, agora nada vai mudar porque o presidente americano George W. Bush e (Ariel) Sharon (primeiro-ministro de Israel) não querem paz,” completou. "Mártires" Por todo o campo há fotos dos dois principais candidatos às eleições palestinas: Mahmoud Abbas e Mustafá Barghouti. No entanto, é ainda maior o número de cartazes homenageando “mártires” que morreram em ações contra Israel ou assassinados pelos militares israelenses. É raro encontrar alguém que não tenha uma história destas para contar. “Meu irmão levou quatro tiros nas costas e tivemos de tratá-lo em casa porque ele era procurado pelos israelenses e não tivemos coragem de levá-lo a um hospital. Meses depois os israelenses conseguiram assassiná-lo com 35 tiros”, contou um palestino. Também é grande o número de mães que tem filhos em prisões israelenses. Uma palestina disse que seus dois filhos estão na cadeia há dois anos e que ela não pode vê-los porque Israel não permite que pessoas maiores de 16 anos visitem os presos. Futuro Perguntas sobre o futuro aos palestinos de Balata resultam sempre na mesma resposta: só Alá sabe o que vai acontecer. Mas apesar dá crença na providência divina, eles dizem que não podem parar de lutar. “O Alcorão diz que vamos ter paz mas que antes os homens ainda vão passar por muita guerra e sofrimento”, diz Muhamed Hussein, que já perdeu dois irmãos no conflito. Há também muitos que já escaparam por pouco da morte e hoje são procurados pelo Exército de Israel. “Em 2002, eu estava num carro com outros dois companheiros do Fatah quando fomos atacados por mísseis disparados por um helicóptero”, conta Samir Yahandi. Mas ele diz que a experiência de quase ter morrido não o levou o deixou com medo e, sim com mais força. “Estou pronto para continuar lutando”, disse. Atualmente ele está sendo caçado pelo Exército israelense e passa seu tempo se movimentando rapidamente pelo campo para evitar que informantes digam aos militares onde ele pode ser encontrado. No meio da entrevista, o celular de Yahandi tocou e ele teve de sair apressado para, segundo me explicaram seus companheiros, buscar novo refúgio. Origem Os campos de refugiados começaram a ser criados em 1948, quando a guerra que resultou na criação do Estado de Israel fez com que muitos palestinos saíssem de suas casas. Muitos foram para outros países, mas um parte decidiu ficar em campos de refugiados na esperança de receberem suas casas de volta. Jamila Abide abandonou sua casa - perto da cidade a Jaffa - com a família aos 19 anos, em 1948, e passou por diversos lugares até se instalar no campo de Balata, que foi fundado em 1952. Enquanto conversava, Jamila exibia a chave da antiga casa que, como muitos outros, vem guardando desde então. Em 1996, Jamila votou em Yasser Arafat para a Presidência da Autoridade Nacional Palestina e este ano seu candidato é Mahmoud Abbas. |
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