|
Livro minimiza perigo na crise dos mísseis em Cuba em 1962 | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Com a proliferação nuclear descontrolada e juvenil dos nossos tempos, os sócios veteranos do clube nuclear até olham com saudades para os dias da Guerra Fria quando a premissa da doutrina da destruição mútua assegurada trazia o conforto (ou ao menos a sensação) de que o planeta não iria para o espaço. A perspectiva de aniquilação refreava potências nucleares como os Estados Unidos e a ex-União Soviética, mais tarde agregadas pela Grã-Bretanha, França e China. A crise dos mísseis em Cuba, em 1962, foi um daqueles momentos em que a doutrina de destruição mútua assegurada foi colocada à prova quando os americanos descobriram que os russos planejavam usar a ilha de Fidel Castro como uma base nuclear. O tema é uma categoria acadêmica à parte e, no entanto, sempre cabe mais uma contribuição. A crise foi um exemplo clássico de que erros de cálculo e falhas de comunicação podem provocar um desastre. Duelo Max Frankel, que foi editor-chefe do The New York Times, acompanhou os dramáticos eventos de 1962 bem posicionado como repórter diplomático do jornal em Washington. Bom jornalista, ele deu um bom título ao seu livro (High Noon in the Cold War), mas a noção de um duelo sob o sol escaldante do meio-dia na Guerra Fria não bate com a tese de Frankel. Seu argumento básico é que o mundo não esteve perto da aniquilação nuclear em 1962, conforme diz o clichê. Frankel diz que o americano John Kennedy e o soviético Nikita Krushchev eram "homens altamente inteligentes, firmemente no controle de ambos os governos" e determinados a impedir a guerra nuclear. Frankel dispara o seu míssil contra acadêmicos, jornalistas, ex-assessores governamentais e roteiristas de Hollywood unidos em uma ofensiva para exagerar os perigos mundiais no começo dos anos 60. A tese obviamente não significa que Frankel esteja descartando a gravidade da crise. Seu relato revela a intensa natureza pessoal do duelo entre dois dirigentes submetidos a pressões domésticas para adotarem decisões radicais e fatais com base em informações imprecisas. O dilema para ambos era imenso. Khrushchev precisa demonstrar, de forma dramática, o status de superpotência do seu país, e Kennedy não podia se dar ao luxo de parecer frouxo. Quando Khrushchev concluiu que Kennedy não estava para brincadeiras, ele determinou que as armas nucleares não fossem usadas mesmo em caso de invasão americana de Cuba. E o dirigente de Moscou não desafiou o bloqueio americano ou adotou retaliações em Berlim, como Kennedy temia. De sua parte, o presidente americano rejeitou as recomendações militares para a invasão de Cuba. Para acertar os ponteiros e impedir disparos no duelo ao sol do meio-dia, Kennedy prometeu a Khrushchev que, se os soviéticos removessem suas armas ofensivas de Cuba, ele retiraria os mísseis Júpiter instalados na Turquia em cinco meses. Mas era vital manter a troca em sigilo para preservar a imagem de triunfo. E assim acabou a saga de 1962. O roteiro de Frankel está muito bem arrumado. O drama é que a crise poderia ter tomado outros caminhos, em particular o do abismo. O próprio Frankel admite que a sensação de vulnerabilidade pode gerar beligerância. Havia muitos fatores fora do controle daqueles dois dirigentes prudentes e empenhados em impedir a tragédia. Hoje se sabe que havia mais armas nucleares táticas em Cuba do que se supunha na época; sabe-se também que Fidel Castro não era um mero vassalo de Moscou. Ele poderia ter agido por conta própria; e militares americanos poderiam ter aprontado alguma bobagem. Há, portanto, motivos para não ter saudades dos tempos em que o clube nuclear tinha apenas sócios supostamente responsáveis. Por mais que Max Frankel tente nos tranquilizar, ufa, foi por pouco. HIGH NOON IN THE COLD WAR |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||