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Crise entre EUA e UE é narcisimo das pequenas diferenças, diz livro | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Antes da eleição americana de 2 de novembro, Timothy Garton Ash ecoou num texto no jornal The Washington Post o lugar-comum que a vitória do democrata John Kerry sobre George W. Bush facilitaria o conserto das relações entre os Estados Unidos e a Europa. Bem, Bush estará aí por mais quatro anos e uma de suas primeiras promessas pós-reeleição, ao lado do parceiro Tony Blair, foi a de investir em melhores laços transatlânticos. Tal empenho está sendo recebido com ceticismo nos dois lados do oceano, especialmente após a confirmação de que Colin Powell não ficará para o segundo mandato de Bush. Mas o britânico Timothy Garton Ash, um dos mais conhecidos europeístas lá e cá, não vê razões para um completo desalento. Seu livro mais recente vai além da conjuntura. Sua esperança de revigoramento da velha aliança atlântica está baseada em necessidades estratégicas, razões históricas e imperativos morais. Ninguém precisa explicar ao professor Garton Ash como existem obstáculos respeitáveis a serem superados e que não há volta aos tempos de ouro da parceria forjada após a Segunda Guerra para combater o inimigo soviético. Afinal, ele é diretor do Centro de Estudos Europeus do St. Anthony's College, da Universidade de Oxford, além de ser associado ao influente Instituto Hoover, da Universidade de Stanford, nos EUA. O argumento-chave do livro é que o conceito de um mundo livre – na economia e na política – jamais terá chance de se materializar se Estados Unidos e Europa não atuarem juntos. Para Garton Ash, os parceiros podem superar os obstáculos porque, escrevendo na primeira pessoa do plural, ele argumenta que "nós não somos duas civilizações separadas, mas duas variantes do mesmo sistema de valores, com interesses a longo prazo ao menos compatíveis". Garton Ash adverte contra os riscos de "fantasias euro-gaullistas" de uma superpotência européia que se contraponha aos Estados Unidos. Já para os americanos, há um apelo para que aceitem uma Europa forte e unida. E ele lembra que a rigor os Estados Unidos foram a "primeira União Européia". Discípulo do filósofo Isaiah Berlin e leitor do prêmio Nobel de Economia Amartya Sen, Garton Ash insiste no vínculo entre liberdade e desenvolvimento econômico, algo comum entre Estados Unidos e Europa. Ele escreve que o Ocidente irá manter a supremacia global pelas próximas duas décadas e que, por essa razão, deve usar seu poderio militar e econômico, assim como seus recursos culturais, para disseminar liberdade e dizimar a pobreza, que é a raiz do extremismo e do terrorismo. Garton Ash adverte que o Ocidente corre contra o relógio para consolidar sua agenda (são estes parcos 20 anos de supremacia) porque os chineses e indianos estão chegando. Com estas pinceladas geopolíticas, Garton Ash arremata que os grandes obstáculos entre EUA e Europa na verdade são picuinhas. Citando Freud, ele diz que se trata do "narcisismo das pequenas diferenças", em comparação às que existem em relação ao extremismo jihadista ou à China. Timothy Garton Ash elucida muita coisa sobre o cenário transatlântico, mas as supostas picuinhas não podem ser minimizadas. E aqui Freud ajuda a explicar. Free World |
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