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Atualizado às: 01 de dezembro, 2004 - 14h15 GMT (12h15 Brasília)
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Campanha de abstinência é violência contra África, diz Grangeiro

Alexandre Grangeiro
Grangeiro acha que o uso de preservativos é a melhor opção
O consultor e ex-diretor nacional do Programa DST-Aids, Alexandre Grangeiro, acha que a milionária campanha de abstinência financiada pelos Estados Unidos não vai ajudar em nada no combate à epidemia de Aids. Pelo contrário, ele considera a campanha "uma violência à África".

Os Estados Unidos têm dedicado um terço das verbas destinadas ao combate à Aids em países em desenvolvimento a projetos de grupos que defendem a abstinência sexual. Uganda é um dos maiores destinos dessas verbas.

Grangeiro também acredita que o Brasil só vai conseguir reverter a proliferação da epidemia entre usuários de drogas injetáveis se a legislação do país for modificada.

Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, Grangeiro, que esteve na semana passada em Angola para visitar os projetos de combate à Aids no país, diz ainda que é fundamental buscar a valorização da mulher na sociedade. Leia a entrevista na íntegra.

BBC Brasil - O que o senhor avalia como um dos pontos fundamentais para controlar o crescimento do número de casos de Aids entre as mulheres?

Alexandre Grangeiro - Acho que é fundamental buscar a valorização da mulher na sociedade, buscar meios de a mulher garantir formas de uso de preservativos e fazer com que a mulher tenha um uma inserção social mais importante. Hoje, nós não vamos fazer com que a mulher combata a Aids nos países africanos sem que ela tenha um papel mais importante.

E essa questão não é simplesmente econômica. É uma questão cultural na África. O papel da mulher na África de fato é muito diminuto. Há trabalhos que estão sendo executados especialmente por organizações não-governamentais da África que buscam desde formar e conscientizar a população sobre o HIV, mas fundamentalmente dá poder e condições para que as mulheres consigam de fato, na relação com seu parceiro ou com qualquer homem, negociar o uso de preservativos em condições mais igualitárias.

 É preciso que a população africana não só cobre mas também se envolva mais com relação à Aids. Há uma resistência muito grande dos africanos em acreditar na epidemia.

BBC Brasil - Como o senhor avalia a situação na África em relação à proliferação da doença e aos tratamentos de pessoas portadoras do vírus HIV?

Alexandre Grangeiro - A situação ainda é crítica. Hoje é necessário aumentar e muito as atividades de prevenção nos países africanos. Primeiro, há uma necessidade de maior engajamento dos governos. Os governos estão envolvidos com uma série de problemas em desenvolvimento nesses países.

O caso de Angola, por exemplo, é bastante exemplar. É um país que saiu de uma guerra civil há dois anos, que tem um problema sério de desenvolvimento, tem que se livrar das minas terrestres. No caso da Aids, Angola precisa ter uma estrutura de serviço para que se possa fazer o diagnóstico da doença, promover o acesso a preservativos e o acesso a tratamentos. Países como Angola ainda têm uma deficiência muito grande.

BBC Brasil - O que o senhor acredita que deve ser feito para tentar amenizar o impacto da epidemia nos países africanos?

Alexandre Grangeiro - É necessário que os governos priorizem o tema, que aumentem os investimentos nessa área. É preciso que a população não só cobre mas também se envolva mais com relação à Aids. É freqüente ainda na África ter um comportamento de não se acreditar na existência da doença, de se acreditar que é uma doença ocidental, de branco, que está sendo criada para acabar com a África. Há uma resistência muito grande da população em acreditar na epidemia.

E há também o papel dos próprios organismos internacionais. Hoje, eles têm conseguido levantar mais recursos para atuar nos países do Terceiro Mundo, especialmente nos países africanos. Mas as políticas que estão sendo desenvolvidas ainda estão muito distantes da realidade desses países. Nós não vamos conseguir hoje fazer uma frente internacional para a África achando que vamos transportar modelos europeus ou mesmo do Brasil para serem aplicados de imediato no continente. É preciso fazer com que esses modelos de prevenção sejam adaptados à realidade africana, o que é um grande desafio.

 Essa campanha baseada no modelo de abstinência e fidelidade é uma violência contra a África. Dinheiro jogado fora.

BBC Brasil - O senhor acredita que o programa de abstinência, financiado pelos Estados Unidos é uma opção para tentar diminuir a proliferação da Aids nos países africanos?

Alexandre Grangeiro - Essa campanha baseada no modelo de abstinência e fidelidade é uma violência contra a África. Dinheiro jogado fora. É uma forma de distanciamento e interlocução com a própria realidade africana e faz com que a população se torne mais vulnerável ainda. Há regiões na África onde a troca de parceiros é cultural e incentivada. Em alguns lugares de Moçambique e Angola, por exemplo, muitas vezes quando o marido morre, a mulher é assumida pelo irmão mais velho desse parceiro. Se aquele homem morreu de Aids, essa mulher pode estar infectada e conseqüentemente transmitindo a doença.

Fazer campanha de abstinência e de fidelidade hoje na África é propor uma política que não tem aplicação nenhuma a essas culturas. Grande parte do dinheiro para a prevenção está pautada nesse modelo que tem pouca efetividade nesse sentido.

BBC Brasil - Qual seria então a melhor opção para o trabalho de prevenção nos países africanos?

Alexandre Grangeiro - Não tem como se trabalhar hoje na África sem que seja no sentido de incentivar a prevenção. Os vários trabalhos que eu tive oportunidade de conhecer e que estavam centrados no uso de preservativos tinham um sucesso muito grande. A população incorpora o preservativo de forma bem trabalhada e seria mais condizente com a realidade africana. E, se não mudar esse modelo, nós vamos ter um número cada vez maior de casos.

Além disso, agora têm mudado muito as ações de prevenção e de assistência. Se não se promover o diagnóstico do HIV na África e o tratamento, vamos manter uma situação de desconhecimento. Muitos morrem sem saber que são vítimas da Aids.

BBC Brasil - Outro problema apontado pela Unaids (Programa da ONU para HIV-Aids), em seu último relatório, foi o aumento do número de pessoas infectadas entre os usuários de drogas injetáveis. O Brasil foi criticado pela própria diretoria da Unaids por não ter um programa voltado para os usuários. Como o senhor vê essa situação?

 A regulamentação sobre o uso de drogas injetáveis no Brasil tem que sair o mais rápido possível para fundamentar o trabalho de organizações não-governamentais e dos serviços de saúde junto aos usuários.

Alexandre Grangeiro - Olha, no Brasil, nos países do Leste Europeu e na Ásia, o uso de drogas é a maior fator de crescimento da epidemia. Na região Sul do país, a doença é explosiva. Onde se tem consumo de droga, a epidemia cresce de forma explosiva.

Não tem como se fazer uma política de controle da Aids sem ter uma política séria e contundente para a questão das drogas. O grande problema é que alguns países têm adotado políticas de drogas que são ainda mais repressivas. O usuários de drogas, que deve ser visto como uma pessoa que precisaria de auxílio na área de saúde, é visto como delinqüente. Isso faz com que ele se afaste de qualquer serviço de prevenção.

O que hoje está em análise pela Casa Civil é um projeto de análise e redução de danos. É necessário que essa regulamentação saia o mais rápido possível para fundamentar o trabalho de organizações não-governamentais e dos serviços de saúde junto aos usuários de drogas. Essa regulamentação nada mais é do que uma permissão para que organizações não-governamentais e serviços de saúde possam disponibilizar agulhas e seringas aos usuários de drogas e ao mesmo tempo vincular eles aos serviços de saúde e prestar assistência necessária.

BBC Brasil - Mas o Brasil já vem realizando um programa de distribuição de seringas e agulhas entre os usuários de drogas injetáveis. Esse programa não é suficiente?

Alexandre Grangeiro - O Brasil tem uma experiência importante na área de redução de danos. Há várias instituições e entidades com trabalhos positivos, mas ainda está longe de ser uma ação abrangente, que cubra todos os usuários de drogas do país. A estimativa é de que 1% da população faça uso de drogas e poderia estar exposta ao HIV. As grandes cidades precisam ter uma política de redução de danos.

E a legislação brasileira, se por um lado não diz que é proibido, também não diz se é possível. O que está acontendo é que cada juiz, em cada município, pode ter a sua interpretação. Muitas vezes são feitas observações mais conservadoras, mais equivocadas. Então, o trabalhador de saúde que atua junto com aos usuários de drogas é visto com um delinqüente. Muitas vezes eles são presos e tem-se evitado que eles trabalhem em áreas de risco. Recentemente, em São Paulo, havia uma ONG que trabalhava na região central com usuários de crack e que foi proibida de distribuir cachimbos para que pudesse evitar a transmissão de hepatite. Ou seja, um prejuízo para a população.

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