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Para chilenos, Chile vive ano da libertação | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A primeira investigação em trinta anos sobre os casos de tortura no Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet, a implementação do divórcio no país e a estréia de campanhas pelo uso da camisinha para evitar a Aids estão fazendo com que os chilenos, em suas próprias palavras, vivam um ano do destape, ou libertação. As medidas estão sendo classificadas como "avanços" por diferentes analistas e também por muitos chilenos, em um ano em que também proliferam, em Santiago, os clássicos cafés con piernas. Os cafés, onde executivos são servidos de cafés por mulheres de saias curtas, são uma marca registrada de Santiago. Mas, devido ao conservadorismo do Chile, eram restritos a apenas três ou quatro, nas proximidades do Palácio Presidencial de La Moneda. Em 2004, surgiram, porém, vários outros em diferentes bairros da capital chilena. Segundo os chilenos, uma amostra de que o país está se liberalizando. Liberdade "Estamos começando a nos sentir mais livres", afirma o técnico de informática Mario González, 35 anos, casado e pai de dois filhos. "O divórcio chegou tarde aqui no Chile. Muita gente queria se divorciar e acabava tendo que cancelar o casamento. Não tinha outra opção", afirmou. Em uma entrevista ao Cara a Cara, programa da Rede TV, do Chile, o analista Ricarte Soto, no entanto, disse que ainda falta muito para que o país seja realmente livre. "Nós, chilenos, não somos conservadores. Somos reprimidos", diagnosticou. "A Aids, por exemplo, existe desde 1986, mas somente há cerca de um mês uma campanha de prevenção à doença foi veiculada aqui. Como pode ser?", indaga. O Chile tem 15 milhões de habitantes e é governado pelo socialista Ricardo Lagos. País de maioria católica praticante, o Chile era até a semana passada um dos três países no mundo a não permitir o divórcio. A aprovação do divórcio, pelo Congresso Nacional, gerou o medo de que poderia ocorrer uma enxurrada de pedidos de divórcio na Justiça. Mas até sexta-feira passada, isso não havia acontecido. Para a advogada de direitos humanos, Júlia Urquieta, esse é, sem dúvida, "um ano de avanços" para a vida no país. Pinochet Urquieta cita ainda a primeira investigação sobre mais de 35 mil casos de tortura, ocorridos durante o período Pinochet. O informe completo foi entregue por uma comissão independente ao presidente Lagos, que divulgará os dados e falará sobre o assunto no dia 10 de dezembro. "Também, pela primeira vez, a Suprema Corte, que durante anos foi controlada por representantes de Pinochet, decidiu invalidar a lei de anistia para investigar o desaparecimento de um preso político, naqueles anos de terror”, lembra Julia Urquieta. Júlia Urquieta referia-se ao caso de desaparecimento de Miguel Angel Sandoval, do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR, na sigla em espanhol) que levou a Suprema Corte a anular a anistia para levar militares, acusados do crime, a julgamento. A decisão surgiu quase que simultaneamente, também pela primeira vez na história do país, ao reconhecimento, por parte do comandante em chefe do Exército, Juan Emílio Cheyre, da "responsabilidade institucional" do Exército nos casos de violação dos direitos humanos durante a ditadura. Neste mesmo 2004, foram descobertas contas bancárias de Augusto Pinochet em bancos no exterior. A investigação faz parte de um projeto para investigar corrupção e lavagem de dinheiro realizado pelo Subcomitê de Investigacoes do Senado americano. As descobertas sobre Pinochet foram divulgadas na semana passada em Washington. "É mesmo nosso ano do destape", diz o o cientista político Cláudio Fuentes, diretor da Flacso (Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais), lembrando que o país se prepara para as eleições presidenciais de dezembro do ano que vem. |
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