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Vencedor nos EUA poderá enfrentar recessão | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A dura disputa entre os dois candidatos a presidente dos Estados Unidos empurrou a discussão econômica para o topo da agenda. O atual presidente americano, George W. Bush, está sempre pronto a tirar da manga estatísticas sobre emprego. Quase 2 milhões de postos de trabalho foram criados no último ano, diz ele. O candidato democrata, John Kerry, está sempre pronto a atacar os argumentos de Bush, dizendo que o total de empregos nos Estados Unidos caiu em 800 mil desde o início de 2001. Assim, os dois continuam com o jogo de ping-pong. Estatísticas selecionadas são utilizadas para ganhos políticos, e marcar pontos é o objetivo. Ameaça No entanto, há uma coisa que nenhum dos dois candidatos aceita: a não ser que seja adotada uma ação drástica, os Estados Unidos podem cair em uma recessão prolongada e profunda.
O crescimento econômico atual é robusto, em torno de 3% a 4%, depois que a economia se recuperou de uma pequena recessão em 2001, e nenhum candidato está preparado para aceitar que a taxa de expansão pode recuar a qualquer momento. "Infelizmente, enquanto o debate envolveu alegações diferentes sobre qualificações para liderança econômica, nenhum candidato articulou claramente os desafios de longo prazo que enfrentamos agora, muito menos uma visão ampla e com credibilidade para resolvê-los", diz o economista Richard Berner, do Morgan Stanley. Essa é uma visão controvertida, pois sugere que, em termos econômicos, não tem importância quem ganha a disputa, já que nenhum enfrenta as verdadeiras questões econômicas. Mas isso é verdade? Dívida A visão pode não representar a da maioria – pessimistas raramente conseguem isso –, mas vale a pena explorar os argumentos sombrios. Uma grande parte do problema é este: os Estados Unidos estão vivendo além de seus meios e isso é verdade tanto para as pessoas quanto para o governo. Entre as pessoas, poupança pessoal para aposentadoria ou momentos difíceis saiu de moda. Os gastos alcançaram níveis frenéticos. Os consumidores foram estimulados por cortes de impostos e por autoridades econômicas que os vêem como os principais condutores do crescimento da economia. Os gastos de consumo correspondem a 70% da atividade econômica nos Estados Unidos. O crescimento também tem sido baseado em acesso fácil a crédito barato. A dívida privada aumentou para US$ 9,7 trilhões (mais de R$ 27 trilhões), o equivalente a quase 85% do Produto Interno Bruto (PIB) americano. Demanda Para alguns economistas, tal confiança no consumidor torna frágil a prosperidade econômica dos Estados Unidos, especialmente porque as finanças públicas também estão desorganizadas. A dívida do governo americano chega a US$ 7,4 trilhões (quase R$ 21 trilhões). O sistema de aposentadorias do país está em crise. E os Estados Unidos precisam de uma reforma cara e dolorosa do sistema de saúde. "Cada candidato alega reconhecer esses desafios, mas em minha opinião nenhum deles tratou desses desafios de forma adequada", diz Berner. As autoridades econômicas têm escolhas duras em relação ao consumo: estimular os consumidores a começarem a pagar suas dívidas e afetar o consumo. Tentar influenciar a direção do consumo pode ser esforço em vão, de qualquer forma, é claro. Em meados do primeiro semestre, o consumo caiu na medida em que a confiança dos consumidores foi afetada pelo aumento da insegurança mundial e dos preços do petróleo. E, embora a demanda tenha se recuperado desde então, a queda daquele momento provocou medo de que o consumidor pode se render ao fantasma. Historicamente, preços elevados de petróleo, combinados com o dólar fraco, são problemáticos, não apenas devido à crescente dependência de petróleo importado dos EUA. Em 1985, os EUA importavam menos de 5 mil barris por dia. Este ano, a importação deve ficar próxima de 12 mil barris por dia. Projeções otimistas Tudo isso levou os pessimistas a dizerem que os Estados Unidos podem cair em uma recessão longa e profunda. Se estiverem certos, o eleitorado americano deve ver pouco das promessas dos candidatos durante a campanha se concretizar. O sistema de saúde não poderá ser consertado como prometido. Impostos poderão ter que aumentar. O déficit público do país não poderá ser reduzido à metade até 2009, como prometido por Bush e Kerry. As razões para isso são simples. Ambos basearam suas promessas tendo como base a previsão de que a economia americana vai continuar a crescer 3% ao ano durante os próximos quatro anos. Uma recessão, ou mesmo uma desaceleração do crescimento, dificultaria as chances de os dois cumprirem suas promessas. Mais ainda, independentemente das boas intenções dos dois candidatos, eles poderão não ter como aprovar mudanças no Congresso, onde, devido à eleição apertada, é provável que nenhum partido consiga maioria sólida. "Eu compartilho a visão da maioria dos observadores do mercado financeiro de que nenhum candidato terá mandato abrangente para governar, muito menos para aprovar mudanças na política econômica", avisa Berner. Qualquer coisa que seja dita na campanha por um dos candidatos está fortemente baseada na capacidade deles de apresentar soluções frente à recessão. Os eleitores americanos devem tentar prever qual dos dois candidatos tem maior chance disso. |
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