|
Corte feng e shui | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Esses orientalismos vêm e pegam a gente quando menos se espera. Garoto, tudo em matéria de sabedoria era com Lin Yutang, que era oriental, como toda fonte de sabedoria, segundo rezam as lendas urbanas. Depois, foi o Kung Fu, na televisão, com provérbios impenetráveis, mas de som interessante: “Gafanhoto tem que nadar como a serpente na água do rio para subir a montanha da felicidade.” Como a série era dublada em português, voltei a me interessar por outros ocultismos, feito o marxismo-leninismo. Há pouco, surgiu o danado do feng shui. Não se podia abrir jornal ou revista que lá estava o feng shui. Logo fui obrigado a ficar sabendo que feng shui era a antiga arte chinesa de dispor casas, edifícios, salas, interiores, de forma a manter um equilíbrio espiritual. Isso segundo uma tradicional filosofia (tudo é filosófico na China) que trata dos fluxos positivos de energia. Feng, fui informado, quer dizer vento, e shui, água. O que rigorosamente não explica absolutamente nada. O feng shui foi meio tentado lá em casa. Mexeram num vaso, mudaram o lugar de uma poltrona, uma estante com livros de referência mudou de sala. O resto, ou seja, nossa vida, ficou na mesma. O que – me entendam bem – foi ótimo. Fico sabendo agora que a mais recente moda, uma entre 187 outras, é a do corte de cabelo inspirado na filosofia do feng shui. Não é penteá-lo, o cabelo, com o feng (vento) e lavá-lo com o shui (água). Não. É tudo de acordo com aqueles outros preceitos orientais do yin e do yang, esses perfeitos patetas em eterno estado de mutação e que representam os princípios e padrões opostos da vida – ou seja, mais inescrutabilidades orientais. Ao que interessa: como é o corte de cabelo feng shui? Não tenho a menor idéia. Duvido que alguém tenha. Ainda acho difícil, depois desse tempo todo, chegar para o barbeiro, aqui em Londres, e pedir, em inglês, o equivalente a “uma aparada geral” ou “apenas uma desbastada”. Que, aliás, eles nunca conseguiram dar. Imagine se, a essa altura do campeonato, eu for fengar e shuir meus “pobres cabelos cor de prata, hoje da cor dos bancos do jardim!”, conforme diz o samba gravado por Sílvio Caldas. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||