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Caio Blinder: Aliados de Bush e Kerry vão fundo em 'lama eleitoral' | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
É pau, é pedra, é lama, é legal. Sabia-se que a campanha eleitoral americana seria cara, agressiva e suja, mas sempre há surpresas sobre a capacidade de legiões de partidários de ir mais fundo. Agora, na reta final da corrida eleitoral, democratas e republicanos encontraram uma brecha na lei e estão pegando pesado. O número da sorte é 527. Trata-se do artigo do código tributário que regulamenta contribuições de organizações não lucrativas engajadas em atividades políticas. Ele permite arrecadar fundos de campanha para uso ilimitado desde que os comerciais políticos não endossem explicitamente um candidato. Mas vale tudo para desancar o outro. Comerciais bélicos Ativistas pró-Kerry e pró-Bush – com destaque para bilionários como o liberal George Soros e o conservador T. Boone Pickens – estão tirando pleno proveito do artigo 527 e, nos últimos meses, despejaram mais de US$ 300 milhões no mar de lama. A televisão, em particular nos Estados que prometem ser mais competitivos na eleição de 2 de novembro, foi inundada com comerciais bélicos não sobre o Iraque, mas sobre o comportamento de Kerry e de Bush numa guerra que terminou há 30 anos, a do Vietnã.
De certa forma, os dois candidatos estão recebendo a lama que pediram. Ambos personalizaram a campanha. Bush enfatizando suas qualidades como líder e comandante-em-chefe e Kerry martelando o país com sua biografia de tenente-herói no Vietnã. A campanha eleitoral passou a ser centrada em personalidade e caráter, colocando a substância em segundo lugar. É um cenário sob medida para a fuzilaria de comerciais negativos dos democratas e dos republicanos e um maná para as redes de televisão de noticiário 24 horas que fazem o que podem para repercutir e dramatizar. E este noticiário de televisão em tempo integral e muitas vezes estéril encontrou um tema interminável na controvérsia envolvendo a rede aberta CBS, um símbolo do telejornalismo americano. No lendário programa 60 Minutos, a CBS revisitou a novela sobre o serviço de Bush na Guarda Nacional do Texas durante o Vietnã. Há um debate que vai às minúcias se seriam forjados ou não os documentos indicando tratamento privilegiado do então jovem herdeiro do clã Bush. Na usina conspiratória, circulam até histórias de que os próprios estrategistas republicanos teriam fabricado os documentos para pelo menos desviar a atenção sobre o que Bush fez ou deixou de fazer há 30 anos enquanto centenas de milhares de jovens como ele eram despachados para lutar no Vietnã. Best-sellers Neste mar de lama da campanha 2004, algumas denúncias sem fundamento podem ter pés-de-barro e outras são encadernadas em livros que rapidamente se tornam best-sellers.
A sensação obviamente é The Family, da fofoqueira profissional Kitty Kelley, em que três gerações da família Bush são jogadas no lodo. Os membros da dinastia são tratados como escroques, avarentos, mulherengos e envolvidos no consumo de drogas. Parece mais o Texas do seriado de televisão Dallas. O livro é um petardo de lama e, embora esteja basicamente a serviço da autora e não da campanha anti-Bush, dá uma medida das prioridades. A guerra no Iraque merece menos de 7 páginas de plena discussão num tomo de 705 páginas. Desde agosto, os Estados Unidos têm sido assolados por um número devastador de furacões. A passagem de Charley, Frances, Ivan e o resto da turma vai exigir exigir muita limpeza. Limpar o mar da lama eleitoral tampouco será fácil. Culpa da natureza humana. |
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