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Brasil caminha para crescimento sustentável, diz Sachs | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Um dos mais renomados especialistas em economias em desenvolvimento, o economista americano Jeffrey Sachs, disse que o Brasil está "a caminho de um crescimento rápido e sustentável". "O Brasil está cada vez mais voltado para as exportações, está ganhando mercados na Ásia, está se tornando uma economia mais diversificada", afirmou Sachs, em entrevista à BBC Brasil. Mas o economista cobrou do Brasil uma estratégia econômica de médio prazo para tranqüilizar investidores internacionais e aumentar a capacidade de executar objetivos no plano doméstico. Sachs, que é diretor do Instituto da Terra, da Universidade de Columbia, e assessor especial do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, diz que o governo brasileiro parece ter uma "idéia geral" do que precisa ser feito, mas que deveria divulgar estratégias detalhadas para áreas como marcroeconomia, política social e ciência e tecnologia. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, feita antes da divulgação do crescimento econômico de 4,2% no primeiro semestre. BBC Brasil – O senhor acha que os bons números que a economia brasileira tem apresentado são indicadores de um crescimento sustentável? Jeffrey Sachs- Nós estamos apenas na primeira metade do primeiro ano de recuperação. De qualquer forma, a experiência real vale mais do que previsões. Eu acho que o trabalho foi feito, mas ainda é cedo para dizer que deu resultados. Quando você analisa as projeções de um ano, você tem de distinguir entre o ciclo de negócios, o curto prazo e o médio prazo. Eu acho que o Brasil voltou a crescer, em taxas boas, graças em parte à reversão das condições do ciclo de negócios. O Brasil foi severamente atingido antes das últimas eleições por um pânico dos investidores estrangeiros e o governo Lula fez um trabalho muito eficiente em acabar com aquele pânico e manter a disciplina na macroeconomia. Ao fazer isso, (o governo) reverteu a perspectiva de curto prazo. Mas há um outro fator: a força de trabalho está se tornando mais experiente e mais qualificada. O Brasil está cada vez mais voltado para as exportações, está ganhando mercados na Ásia, está se tornando uma economia mais diversificada. Portanto, embora a projeção de um ano não possa ser usada para uma previsão de longo prazo, eu acredito que o Brasil está a caminho de um crescimento muito mais rápido e sustentável. BBC Brasil - O sr. acha que um crescimento de 4% – índice que vem sendo cogitado pelo mercado – é satisfatório para o Brasil? Sachs – Eu acho que o Brasil poderia crescer 5% ou mesmo 6% por alguns anos. Portanto, eu esperaria um crescimento acima de 4%. BBC Brasil - O senhor disse recentemente que as economias latino-americanas não conseguem crescer por causa da desigualdade e da falta de investimento em ciência e tecnologia. Como o senhor vê o Brasil nesse contexto? Sachs - Eu acho que a situação no Brasil melhorou consideravelmente. Acho que o Brasil pode estar próximo de fazer o que quase todos pensavam que poderia fazer: ser um país dinâmico e de liderança no mundo. O que mudou muito na minha opinião nos últimos dez anos, que começou com o governo de Fernando Henrique Cardoso e persiste agora, é um grande investimento em educação. E acho que eu devo acrescentar que essa educação está sendo cada vez mais bem utilizada na economia. Há também o investimento em exportação. O Brasil era uma das economias fechadas do mundo, com as exportações representando menos de 10% do PIB (Produto Interno Bruto). Agora, essa porcentagem é de 16%. Ainda é baixo, mas está crescendo. Então o Brasil está tomando a sua fatia nas exportações e cada vez mais está exportando produtos de alta tecnologia. Ainda há muito o que fazer, mas acho que a situação está melhorando. BBC Brasil - Então o Brasil pode ser considerado uma exceção nesse padrão de baixo crescimento na América Latina? Sachs - Olhando em retrospecto, não. O Brasil é um paradigma do crescimento lento, com um crescimento per capita muito baixo nos últimos 25 anos, crises crônicas, desequilíbrio na balança de pagamentos, … mas quando você olha além das superfícies dessas crises, incluindo a mais recente onda de crises de 1999 ao ano passado, eu acho que você pode dizer que o Brasil está provavelmente saindo dessa armadilha neste momento. Mas isso não ainda se manifestou por meio de um crescimento rápido e sustentável, embora eu acredite que esse é o cenário mais provável para os próximos cinco, dez anos. BBC Brasil – O senhor acha que o governo brasileiro tem uma estratégia econômica? Sachs - Eu acho que o Brasil tem, em termos muitos gerais, uma consciência de três coisas: uma é (a necessidade de manter) estabilidade macroeconômica, e boa administração do orçamento. A segunda é lidar com algumas das prioridades sociais, como a fome, e a terceira, é ter um economia mais competitiva, orientada para o exterior. Portanto, nesse sentido, acho que existe uma estrutura bem geral. Eu não sinto que o Brasil tenha mostrado ainda uma estratégia detalhada em cada uma dessas áreas que deveria mostrar para ser mais convincente e, internamente, para ser mais capaz de executar essa agenda. Eu acho que o governo fez um trabalho muito bom porque assumiu no meio de uma crise e sem experiência e acho que lidou bem com a situação, o que permitiu que essa reviravolta econômica acontecesse. Mas eu acredito que quanto mais claro o governo puder ser na sua estratégia, o mais coerente ao apresentar um cenário de cinco a dez anos, não apenas ano fiscal a ano fiscal, mais convincente o Brasil também será ao atrair investidores. Infelizmente, o Brasil ainda precisa acalmar os investidores porque eles tendem muito ao exagero e ao pânico – o que pode ser muito prejudicial para o país. BBC Brasil – O senhor já disse que a América Latina foi incapaz de se beneficiar das revoluções tecnológicas mundiais. Como o senhor avalia a atuação do Brasil nesse sentido? Sachs- O Brasil está começando a reconhecer que tem que fazer mais, embora eu não acredite que tenha alcançado o tipo de clareza e estratégia que poderia projetá-lo para o tipo de crescimento que a Coréia do Sul, por exemplo, teve nos últimos 25 anos. A Coréia é uma boa comparação porque tinha o mesmo nível de renda do Brasil até o início dos anos 70. Desde então, o Brasil mergulhou em crises crônicas enquanto a Coréia continuou a crescer. O meu diagnóstico é que a Coréia investiu pesadamente em pesquisa e desenvolvimento e em tecnologia. Os coreanos decidiram que queriam ser parte da revolução dos eletrônicos, da revolução dos semicondutores, enfim, da tecnologia de informação e comunicação de uma forma geral. Eles investiram em laboratórios nacionais, em educação de alto nível e fomentaram negócios de alta tecnologia com competitividade internacional. O Brasil não fez isso. A Coréia gasta 3% do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil aumentou os gastos, mas eles ainda representam apenas 1,1% do PIB. A Coréia está conquistando um grande número de patentes todo ano para novas invenções, cerca de 490 patentes todo ano por um milhão de habitantes. O Brasil mal entrou no jogo das patentes. Portanto, nós não estamos vendo muitas invenções brasileiras no momento. Mas isso pode mudar. BBC Brasil – Mas um país com o nível de desigualdade social do Brasil deve dar prioridade a investimentos em Ciência e Tecnologia em relação a áreas como saúde e educação? Sachs – Em primeiro lugar, investimentos em ciência e tecnologia são parte de um investimento mais amplo em educação, nas realmente sofisticadas capacidades do país. Eu acho que a experiência em várias partes do mundo mostra que esses investimentos não geram só cientistas, geram também empregos porque ciência e tecnologia criam competitividade de empresas e indústrias nacionais nos mercados mundiais. Mesmo indústrias como a agricultura dependem muito de boa ciência e vão depender cada vez mais tecnologia. A agrobiotecnologia é definitivamente uma das principais indústrias no mundo atualmente e eu gostaria muito de ver o Brasil se tornar um fornecedor sofisticado e competitivo de agrobiotecnologia. Não é só um trabalho para cientistas, o que está em jogo é a competitividade da economia. BBC Brasil - O senhor defende que países africanos parem de pagar as suas dívidas externas e invistam o dinheiro no combate a Aids e a outros problemas. O senhor acha que o mesmo se aplica ao Brasil? Sachs - Não, porque nesta altura o Brasil pode pagar as suas dívidas especialmente se os investidores estrangeiros não entrarem em pânico. O que aconteceu em 1999 com a crise na balança de pagamentos do Brasil foi que a taxa de câmbio havia sido mal administrada, o real havia sido mantido forte demais por muito tempo e finalmente entrou em colapso. Nos meses que antecederam as eleições presidenciais, o problema foi pânico financeiro e internacional, o que não é incomum porque investidores estrangeiros muitas vezes não sabem o que estão fazendo. Então eles começaram a tirar dinheiro do país porque acharam que o governo Lula seria irresponsável. Bom, o governo Lula se revelou muito responsável e isso levou ao reinvestimento daqueles depósitos e ao alívio da crise. Assumindo que o Brasil pode continuar a conquistar a confiança dos investidores estrangeiros, como eu acho deve ser o caso, a dívida é administrável. Isso é porque o Brasil já cancelou a sua dívida no passado e isso foi algo que eu defendi 15 anos atrás, quando o Brasil precisava reduzir a dívida que tinha com bancos estrangeiros. Eu trabalhei com o governo brasileiro na época e argumentei que a dívida deveria ser reduzida significativamente, mas neste momento o Brasil não precisa disso. Agora, o Brasil realmente precisa da confiança dos investidores internacionais. O país está ganhando essa confiança e se os investidores souberem mais sobre o Brasil e se o governo brasileiro mostrar uma face coerente para o mundo em termos de politica e estratégia, eu acho que a dívida é administrável. BBC Brasil - Do ponto de vista do Brasil e da América Latina, qual seria o melhor resultados nas eleições presidenciais americanas de novembro? Sachs – Não é segredo que eu tenho sido muito crítico desta administração porque eu acho que ela prejudicou interesses americanos ao lançar uma guerra irresponsável e que prejudicou interesses fiscais americanos ao colocar os Estados Unidos em uma situação de déficits fiscais enormes, que também se traduziram em enormes déficits comerciais. Para o mundo, na minha opinião, uma boa liderança por parte dos Estados Unidos é importante não só para os EUA, mas também para o mundo – e nós simplesmente não tivemos isso neste governo. |
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