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ONU pode servir de 'contrapeso' à presença americana no Iraque | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Um ano depois do ataque à sede da ONU em Bagdá, que deixou 22 mortos, incluindo o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, a presença do novo representante da organização no Iraque é encarada como o possível início de uma nova fase para a ONU no país. Para o diretor da organização Iraq Revenue Watch, Isam Al-Khafaji, o paquistanês Ashraf Jehangir Qazi, que chegou a Bagdá na semana passada, já deu mostras de que poderá servir como um contrapeso ao modo de pensar dos americanos. "Ele deu declarações em relação a Najaf dizendo que a opção militar não é a única opção, por exemplo. Ele mostrou a sua intenção de servir como intermediário nesse conflito. É um bom sinal", afirmou Al-Khafaji. Na opinião do iraquiano, o que a população do país espera da ONU é justamente uma postura que neutralize a 'atitude unilateral' dos Estados Unidos. Para o professor do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança, João Domingues, à medida em que o processo político se encaminha no Iraque, a ONU pode ganhar mais espaço. "O papel da organização é cada vez mais forte, apesar do que muitos preconizavam. Hoje, muitos reconhecem o valor que a ONU tem", afirma Domingues. Choque Na opinião do acadêmico português, a tragédia de agosto do ano passado e as diferenças existentes dentro do Conselho de Segurança em relação ao Iraque fizeram com que a organização revisse o seu papel. "A organização acreditava que por representar todos os Estados, estaria a salvo de ações desse tipo. Mas percebeu que também está sujeita a ações de grupos terroristas. Essa foi uma nova realidade enfrentada pela ONU, e a organização passou a pensar em meios de lidar com situações como essa", afirma Domingues. Uma das funcionárias da instituição em Bagdá na época do atentado, Veronic Taveau, afirma que, para a ONU, existe uma fase antes e outra depois do dia 19 de agosto de 2003. Veronic diz que o ataque não foi apenas um grande choque, mas também uma ação completamente inesperada. "Nós pensávamos que, porque trabalhávamos para a ONU e porque levávamos a bandeira azul da organização, estaríamos protegidos, mas nós estávamos errados", afirma. Isam Al-Khafaji diz que os iraquianos têm um sentimento duplo em relação a ONU. "Por um lado, eles viam a ONU como uma instituição que havia adotado o pior embargo econômico da história do país. Por outro, eles são suspeitos da atitude americana, então precisam de alguém para neutralizar essa atitude", afirma. Legitimidade Al-Khafaji afirma que existe a consciência de que há um limite no papel que a organização pode representar. "Os Estados Unidos perceberam que precisam do mundo e da ONU, mas há limites. Há questões, como as relacionadas à segurança, nas quais eles não estão preparados para ceder", afirmou. Para o vice-representante da ONU no Iraque, Ross Mountain, que coordena os trabalhos no escritório de Amã, na Jordânia, o papel da ONU hoje no Iraque é pelo menos tão importante como o que a organização tinha há um ano. "O foco mais atual tem sido nas ações políticas, mas nós não podemos esquecer que nós realizamos também os trabalhos de ações humanitárias e de assistência ao novo governo interino para que a população possa ter acesso a determinados serviços", afirma. Mountain diz acreditar que a comunidade internacional, as forças políticas e a população iraquiana esperam da ONU um papel mais importante. "Nós representamos a legitimidade internacional nesse processo todo, e esse é um aspecto que todos os atores agora entendem", afirmou Mountain. |
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