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Atualizado às: 20 de agosto, 2003 - 18h06 GMT (15h06 Brasília)
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'Ataque pode levar ONU a ter papel maior no Iraque'

Hotel Canal em Bagdá
Escritório-sede da ONu em Bagdá, depois da explosão

O ataque da terça-feira à sede da ONU em Bagdá e a morte do representante máximo da organização no país, Sérgio Vieira de Mello, vão aumentar a pressão sobre as Nações Unidas para que a organização chegue a um acordo com os Estados Unidos a respeito de um papel político mais atuante no Iraque.

A opinião é do pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI) de Portugal, Vasco Rato, que participou nesta quarta-feira do programa De Olho no Mundo, uma co-produção da BBC Brasil e da Rádio Eldorado AM de São Paulo.

"Há espaço para que haja uma maior intervenção política da ONU no Iraque", defende Rato.

Para o professor, se o objetivo do ataque "foi tentar impedir que as Nações Unidas tivessem um papel maior, o efeito foi contrário".

Caso de polícia

Rato diz que Rússia, China e França, que foram contra a guerra, vão ter que conviver com uma presença americana dominante no Iraque, "mas os Estados Unidos também vão ter que reconhecer que não podem fazer tudo sozinhos e é necessário que haja uma presença internacional".

O pesquisador acredita que a negociação política será "dolorosa", mas terá que ser feita.

O ataque da terça-feira demonstrou que os americanos subestimaram a resistência do pós-guerra, na visão de Rato, em parte porque não se antecipou uma guerra tão rápida e se criou um vazio de segurança.

As tropas que estão no Iraque também não seriam as mais indicadas para manter a ordem civil.

"A preservação da segurança deve ser feita pela polícia, como a Guarda Nacional Portuguesa ou os carabinieri italianos. O objetivo de soldados é lutar em guerra, não fazer a segurança. E no Iraque ainda há a dificuldade em manter a infra-estrutura", acrescenta.

Ataques

Rato também lembrou que se ouve falar na morte de um soldado americano por dia, mas há de 15 a 20 ataques outros incidentes diários no Iraque.

"E muitos destes ataques não são realizados por forças leais a Saddam Hussein. Há milícias xiitas radicais, há grupos que começaram a ser constutuídos neste último mês e há uma dificuldade em preservar a ordem", afirma.

Como a guerra acabou há apenas três meses e guerras de guerrilha aconteceram em ocupações anteriores, como as da Alemanha e do Japão, após a Segunda Guerra Mundial, o especialista em assuntos estratégicos acredita que os problemas de segurança no Iraque devam existir por mais um ano ou até um ano e meio.

Como outros especialistas de defesa, ele aconselha o aceleramento do processo político e a devolução do Iraque aos iraquianos, como ponto de partida:

"É necessário que o conselho iraquiano, que um governo iraquiano tenham poderes críveis e claros e que se caminho no sentido de uma solução política coesa", defende Rato.

Alvo

Sobre as motivações do ataque, Rato lembrou que há um ressentimento no país com relação à organização, que impôs sanções ao Iraque.

"Grande parte da população responsabiliza a ONU por tudo aquilo que aconteceu e pela degradação da vida anterior à guerra", afirmou.

Também haveria um objetivo político, que seria uma forma de mostrar que os americanos não são capazes de manter a segurança em Bagdá.

Para o pesquisador, a trágica morte de Vieira de Mello não vai ter grande influência no futuro do Iraque.

O simbolismo da morte é muito importante até para a ONU, já que ele era cotado para ser o próximo secretário-geral, "mas o que a ONU está fazendo no terreno poderá continuar a fazê-lo sem ele", acredita.

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