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Paris reforça polícia para combater crimes | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Os números relativos à criminalidade em Paris vêm registrando queda há 21 meses consecutivos. Se comparadas a um período ainda maior, as estatísticas da polícia parisiense revelam uma redução considerável da violência urbana. Os chamados "delitos da via pública" (assaltos em geral, mesmo de residências, com ou sem violência) caíram 30,4% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2001. A principal medida apontada pelas autoridades para explicar essa redução é o reforço da presença policial nas ruas de Paris. O número de agentes de segurança não pára de aumentar gradativamente: atualmente, há 26,1 mil policiais na capital (onde residem 2,2 milhões de pessoas). Há somente oito meses, eles eram menos de 20 mil. Tema de campanha Principal tema da última campanha presidencial, em 2002, o problema da falta de segurança mobilizou mais os candidatos do que outros temas habituais do debate político, como o desemprego. Diferentemente do Brasil, a ação da polícia nas cidades é de responsabilidade direta do Ministério do Interior. A prioridade do governo em relação ao assunto fez com que o problema da violência caísse para a sexta posição entre as principais preocupações dos parisienses (a poluição atmosférica e o trânsito ocupam os dois primeiros lugares), segundo uma sondagem divulgada em janeiro deste ano. De acordo com a mesma pesquisa, mais da metade dos parisienses (54%) avaliam que a presença policial nas ruas da capital é suficiente, embora outros 7% cheguem a dizer que ela é excessiva. Questionados sobre o assunto, os parisienses normalmente respondem que "não há mais problemas, já que existem policiais por todos os lados". Ceticismo Na avaliação de especialistas, apesar de ser apontado como uma contribuição para a redução da criminalidade, o reforço policial está longe de ser a única iniciativa a ser adotada para resolver a questão.
"Sou bastante cético em relação aos números divulgados pela polícia parisiense", afirma o sociólogo Michel Wieviorka, uma das maiores autoridades francesas sobre o assunto, autor de vários livros, entre eles Violência na França. "Para tentar diminuir o número de jovens delinqüentes é necessário substituir essa polícia repressiva por uma política de prevenção, que realize ações de caráter social", afirma. A França apresenta problemas de integração racial e as estatísticas revelam que boa parte dos crimes na capital são cometidos por jovens de origem magrebina (Marrocos, Argélia, Tunísia), que residem sobretudo na periferia de Paris. Alguns desses subúrbios são considerados bastante violentos: jovens incendeiam carros, destroem imóveis e agridem bombeiros. A polícia tem dificuldades para agir nesses locais. A lista de crimes na região também inclui assaltos nos trens de pariferia e no metrô da capital. Periferia Segundo a prefeitura de polícia de Paris (organismo responsável pelos agentes de segurança), 27% dos assaltos em Paris e na periferia da cidade ocorrem nos transportes públicos. Na capital, a presença policial também foi reforçada nesses locais: o número de crimes nos metrôs (cerca de 13 mil até junho de 2004) caiu 6,7% no primeiro semestre deste ano comparado ao mesmo período de 2003. "Se o governo francês reconhecesse realmente o islamismo, com uma política de reconhecimento cultural, que favorecesse associações étnicas e de diferentes origens sociais, talvez a delinqüência pudesse realmente diminuir em Paris", afirma Wiewiorka. "Não há receita milagrosa, mas é fundamental ter uma política de trabalho social com esses jovens", acrescenta. O também sociólogo Sébastien Roché, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica e autor de inúmeros livros sobre o assunto (o mais recente deles A delinqüência dos jovens), diz que o aumento do número de policiais e a destinação de maiores recursos para os agentes torna a prática de crimes efetivamente mais difícil. "Mas não podemos esperar que a polícia sozinha resolva o problema", diz Roché. O sociólogo também acredita que as estatísticas da polícia parisiense não são convincentes. "O número de roubos realmente diminuiu, mas as agressões físicas aumentaram. Somente a repressão policial não é uma solução eficaz", afirma. Prevenção social Para Roché, é necessário um trabalho pedagógico nas escolas e de prevenção social entre os jovens, além de uma reflexão maior sobre o que fazer com jovens delinqüentes reincidentes. "A França é um país com um modelo bastante social, onde praticamente não existem crianças que não freqüentam a escola, e com um forte sistema de auxílio às pessoas necessitadas", diz Roché.
"E mesmo assim temos problemas de criminalidade. Existe realmente um fenômeno de racismo e há jovens que pensam não ter seu lugar na sociedade." De acordo com o sociólogo, o problema é que as autoridades francesas não conseguem elaborar programas destinados a esses jovens de origens diversas porque teriam de assumir publicamente que eles cometem boa parte dos crimes e poderiam, então, ser acusadas de racismo. Enquanto não realiza a ação de prevenção social defendida pelos especialistas, o governo francês reforça suas leis para punir a delinqüência. Desde abril do ano passado, pessoas que se reúnem no hall de entrada de imóveis (prática freqüente dos jovens de periferia, que não dispõem de muitas atividades culturais em seus subúrbios), pedir dinheiro nas ruas e prostituição (incluindo a clientela) passaram a ser definidos como crimes passíveis de multa e pena de prisão. |
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