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Atualizado às: 03 de agosto, 2004 - 13h47 GMT (10h47 Brasília)
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Crimes nos EUA caíram quase pela metade desde 1994

Jens Ludwig, sociólogo
Ludwig atribui redução do crime a uma combinação de fatores
Os índices de criminalidade nos Estados Unidos caíram praticamente pela metade desde 1994, segundo dados do Departamento de Justiça americano.

Naquele ano, 31,2% dos americanos foram vítimas de crimes contra a propriedade (roubo de veículos e furto) e 5,12% vítimas de crimes violentos (assassinato, estupro, assalto ou agressão).

Em 2002, ano dos últimos dados disponíveis, ambos os índices haviam caído cerca de 50%: os crimes contra a propriedade atingiram 15,9% da população e os crimes violentos 2,28%.

"Mas ninguém sabe direito por quê. As diversas explicações que existem por aí refletem mais ideologias do que fatos concretos", admite o criminologista William McDonald, professor da Faculdade de Sociologia e Antropologia da Universidade Georgetown.

Conservadores e liberais

Os conservadores costumam apontar a ação mais dura da policia, o número recorde de pessoas presas nos Estados Unidos e a aplicação mais freqüente da pena de morte entre os principais motivos para a redução no crime.

 A sociedade está mudando e as pessoas estão usando menos violência.
Robert Sampson, criminologista

Para os liberais, o crescimento econômico, uma mudança cultural na população e a vigilância comunitária estão na raiz da mudança.

"A maioria dos criminologistas acredita que a dramática redução do crime nos Estados Unidos se deve à combinação de alguns fatores: o grande aumento no encarceramento de criminosos, a ação mais rigorosa da polícia e as vitórias na luta contra o problema do crack e da cocaína", diz o sociólogo Jens Ludwig, da Escola de Políticas Públicas da Universidade Georgetown.

"Nas grandes cidades americanas, vemos claramente uma concentração dos crimes mais violentos nas áreas pobres da cidade e de crimes contra a propriedade nas regiões ricas", acrescenta Ludwig.

O sociólogo observa, no entanto, que parte do declínio tem também fundamento puramente estatístico.

"Durante os anos 80, o crescimento no crime foi muito forte. Os anos 90 acabam favorecidos na comparação. É o que os estatísticos chamam de volta aos valores médios", afirma.

Tolerância Zero

O criminologista Robert Sampson – professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Harvard e uma das principais vozes liberais no assunto – admite que o policiamento mais duro teve efeitos visíveis em algumas cidades do país.

Capitólio, visto de Anacostia, um dos subúrbios mais violentos de Washington
Crescimento pode ajudar a explicar queda de crimes, diz Sampson

A principal vitrine deste método é Nova York, onde significativas reduções no crime foram conseguidas depois da adoção do programa Tolerância Zero, no início dos anos 90.

A estratégia, implantada pelo então prefeito Rudolph Giuliani, era não ignorar os pequenos crimes do dia a dia – pichações ou desordem, por exemplo – para criar um ambiente de ordem na cidade e, assim, evitar que pequenos problemas se transformassem em grandes crises.

Os defensores da tese dizem que, se uma janela for quebrada em uma rua e nada for feito a respeito disso, alguns jovens podem começar a achar que têm carta branca para quebrar outras janelas e cometer pequenos atos de vandalismo.

Com o tempo, o bairro ganharia fama de decadente e perigosos. Os cidadãos amedrontados ficariam longe da área e os criminosos ganhariam uma base para suas operações. Para os partidários do Tolerância Zero, a solução é resolver os pequenos problemas da comunidade antes que eles se tornem grandes.

Tendência

Robert Sampson, no entanto, diz que importantes cidades, como Los Angeles, na Califórnia, conseguiram diminuir o crime sem adotar as técnicas de policiamento mais repressivo.

Outras, como Baltimore, em Virginia, não conseguiram mudanças, segundo o criminologista, apesar de terem tentado reproduzir a experiência de Nova York.

"As cidades onde o projeto deu certo já vinham apresentando alguma tendência de redução no crime contra a propriedade antes destas medidas repressivas", afirma Sampson.

Dados do Departamento de Justiça indicam que mesmo entre 1987 e 1994 – ano a partir do qual os índices de criminalidade não pararam mais de cair – já havia uma tendência de melhora nos números, interrompida por alguns períodos de pico.

Mudança cultural

"Ainda não temos dados suficientes para afirmar nada com certeza, mas acho que a única teoria ampla o suficiente para explicar esta redução, em quase todo o país, é uma mudança cultural", diz o Sampson.

"A sociedade está mudando e as pessoas estão usando menos violência", acrescenta o pesquisador.

 Só colocar mais e mais gente na cadeia não vai resolver o problema social no longo prazo.
Terry Modglin, diretor-executivo da ONG Vigilância Jovem contra o Crime

O sociólogo observa que o crescimento econômico pode ajudar a explicar, em parte, a redução nos crimes contra a propriedade, mas não serve como causa para a queda nos crimes violentos.

"Com exceção do roubo seguido de morte, outros tipos de crimes violentos, como assassinato e estupro, costumam ter pouca relação com condições econômicas", diz Sampson.

Na última década, os programas de vigilância comunitária também cresceram muito nos Estados Unidos.

Nestes iniciativas, os próprios cidadão são incentivados a participar ativamente na segurança das áreas onde moram, principalmente com denúncias rápidas e sugestões objetivas às autoridades.

"Só colocar mais e mais gente na cadeia não vai resolver o problema social no longo prazo", diz o diretor-executivo da ONG Vigilância Jovem contra o Crime, Terry Modglin.

A ONG trabalha em 42 Estados americanos e outros sete países, incluindo o Brasil.

Aborto

Uma das poucas explicações compartilhadas por conservadores e liberais é a mudança no perfil demográfico dos Estados Unidos.

Com o envelhecimento da população e a redução nas taxas de natalidade, o número de jovens – em geral, mais propensos ao crime – caiu durante os anos 80 e 90.

Jens Ludwig explica que alguns pesquisadores acreditam que esta tendência foi reforçada pela legalização do aborto nos anos 70.

"Alguns estudos mostraram que a prática do aborto reduziu o número de jovens que nasceriam em famílias disfuncionais. É uma tese muito controvertida, tanto entre conservadores quanto entre liberais", diz Ludwig.

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