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Pai de jovem assassinado lidera cruzada contra violência na Argentina | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
“Se você quer uma prova de que ele está vivo, nós vamos te mandar três dedos dele.” Estas aterrorizantes palavras foram algumas das últimas que Juan Carlos Blumberg ouviu dos seqüestradores do seu filho Axel, de 23 anos. Dias depois, o universitário de olhos azuis estava morto. Ele havia sido agredido brutalmente e assassinado pelos seqüestradores, depois de ter tentado escapar do cativeiro. Axel Blumberg é apenas uma das cerca de duzentas pessoas seqüestradas na Argentina até agora, neste ano. O número é questionado por analistas, que acreditam que muitos desses crimes não são informados às autoridades. Cinco vezes mais Nos últimos dois anos, o número de seqüestros no país – durante muito tempo considerado um dos mais seguros na América Latina – aumentou mais de cinco vezes. No mesmo período, os familiares e amigos das vítimas entregaram aos criminosos até três bilhões de pesos (US$ 1 bilhão) em resgates, de acordo com Alex Zunca, um conselheiro de segurança da Província de Buenos Aires e um guarda-costas ocasional de celebridades como Madonna e David Copperfield. Um dos últimos levantamentos feitos pelo Ministério da Justiça argentino indica que um em cada dez residentes de Buenos Aires teme ser seqüestrado. Isso significa cerca de 300 mil pessoas. Muitas delas sem dúvida estavam entre as 200 mil que se reuniram no centro da capital argentina neste ano, e, motivadas pelo apelo de Juan Carlos Blumberg, pediram mais segurança e penas mais duras para os criminosos. Foi a maior mobilização popular na Argentina desde o auge do colapso econômico do país, pouco mais de dois anos antes. Ficou claro que a perda trágica de Juan Carlos Blumberg comoveu a sociedade argentina, que tão freqüentemente se mostra desinteressada por questões que não afetam suas vidas. Plano nacional Sentado na bagunça da sala de estar de sua casa em Martinez – uma cidade habitada por membros da classe média que todo dia têm que viajar para ir ao trabalho – Blumberg disse que ver o corpo sem vida de seu único filho no necrotério local o motivou a agir. “Ele estava coberto de hematomas, não tinha unhas. O menino foi massacrado”, disse, com as lágrimas brotando dos olhos.
“Foi terrível. Para mim, foi quando eu jurei que eu iria encontrar as pessoas responsáveis. Eu jurei que eu iria lutar para garantir que aquilo não iria ocorrer com outros jovens, e é isso que estou fazendo.” A solitária “Cruzada por Axel” de Juan Carlos Blumberg já produziu resultados, forçando o governo argentino a preparar às pressas um plano nacional de segurança – que inclui a criação de uma agência no estilo do FBI (a polícia federal americana) e a possível redução da idade penal para 14 anos. Mas os governos na Argentina têm uma longa história de fazer promessas que não têm condições de cumprir. Blumberg diz que, apesar disso, ele acha que as novas medidas de segurança vão ter efeito, “porque há pessoas participando desses protestos em todo o país e nós temos cinco milhões de assinaturas (para uma petição exigindo maior segurança)”. “Por isso, os políticos vão ser obrigados a fazer essas mudanças, porque o povo vai cobrar. E se eles não fizerem, nas próximas eleições, essas pessoas vão ficar sem emprego.” Sob pressão Um dos políticos que mais estão sendo pressionados é o novo secretário de Segurança da Província de Buenos Aires, Leon Arslanian. Seu maior desafio será reforçar a força policial da província, notoriamente corrupta e que foi acusada de participar de vários seqüestros – ainda que, no caso de Axel, ela só é acusada de incompetência.
Arslanian já começou a recrutar dois mil novos agentes e demitiu um grande número de policiais acusados de cometer crimes ou condenados pela justiça. O secretário, entretanto, pode fazer pouco para combater as raízes da criminalidade, que são a pobreza, o desemprego e as deficiências no sistema de educação. “Minha expectativa é levar à frente um processo de mudança e transformação que permita à polícia ganhar a confiança do país e de sua comunidade, prevenir e resolver crimes e realizar investigações bem-sucedidas.” ”A comunidade quer que não ocorram mais crimes, quer viver em paz.” Até o momento, há poucos indícios de que uma das duas coisas esteja ocorrendo. De acordo com a imprensa argentina, Bueno Aires registra hoje um seqüestro a cada 48 horas. E enquanto a situação não melhorar de forma clara, Blumberg prometeu continuar travando sua cruzada. “Quando nós conseguirmos que eles aprovem as leis, quando todos esses assassinos estiverem na prisão e quando as pessoas puderem viver em paz – de forma que os bandidos não sejam os únicos nas ruas, e nós, as pessoas decentes, não tenhamos que nos esconder em nossas casas atrás de grades –, aí o meu trabalho vai estar terminado.” |
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