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Para historiador, Fidel passou de libertador a ditador

Fidel Castro
Fidel Castro é um dos principais personagens políticos do século 20 na América Latina
O presidente cubano, Fidel Castro teve uma trajetória semelhante à de líderes latino-americanos do século 19, como José de San Martín e Símon Bolívar, na opinião do historiador argentino Jose García Hamilton.

Assim como os dois “libertadores da América”, Fidel tentou se eternizar no poder depois de ter liderado uma campanha de libertação, diz Hamilton.

“San Martín e Bolívar chegaram ao poder graças à libertação dos povos, mas depois tentaram se perpetuar no cargo”, disse o autor de livros sobre Bolívar e San Martín.

Para o historiador, Fidel "virou pior ditador do que seu principal inimigo, Fulgêncio Batista”, em referência ao líder do regime derrubado pela Revolução Cubana.

A diferença, continuou ele, é que Fidel bateu recorde de tempo no poder. “Nenhum deles, nem mesmo Franco, permaneceu tantos anos na Presidência”, afirmou, referindo-se ao general espanhol Francisco Franco, que governou a Espanha entre 1939 e 1975. San Martín, libertador da Argentina, Chile e Peru, exerceu sua liderança entre 1812 e 1826. Bolívar esteve cerca de 20 anos numa trajetória similar que foi de 1810 a 1830.

O historiador acredita, no entanto, que, ao menos inicialmente, Fidel Castro “libertou” Cuba da ditadura de Batista.

“Naquele momento, suas ações foram vistas com bons olhos pela comunidade internacional”, disse. Foi logo depois, lembrou, do início de mudanças na política de diferentes países da região. Getúlio Vargas se suicidou em 1954, Perón foi derrubado do poder em 1955, por uma revolta militar, Perez Jímenez, na Venezuela, caiu em 1958, e Fidel tomou o poder, em Havana, em 1959.

Fidel e "Che"

Já o historiador e psicanalista Pacho O'Donnell, autor da biografia Che sobre o ex-guerrilheiro argentino Ernesto “Che” Guevara, prefere não fazer comparações entre personagens de diferentes períodos históricos, mas acredita que o paralelo mais próximo seja o próprio ex-companheiro de revolução.

A diferença entre Fidel e "Che", que estiveram unidos na decisão de derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista, em 1959, está, segundo O'Donnell, no fato de "o cubano ter apostado na política e o argentino na epopéia”.

Ou seja, um entrou para a história e o outro virou mito – o rosto de Che Guevara está, por exemplo, nas passeatas e protestos de várias partes do mundo, representando o desejo da igualdade social.

O'Donnell recorda que foi Raúl Castro quem apresentou Che Guevara a Fidel Castro, como contou o próprio ex-guerrilheiro argentino numa carta enviada a sua família, em julho de 1955, quatro anos antes que derrubassem a ditadura de Batista.

“Guevara e Raúl Castro representaram, no início, o setor mais radicalizado da revolução cubana. Eles eram os únicos que se reconheciam, publicamente, como marxistas”, recordou.

Para o historiador, a sucessão em Cuba será de Fidel para o Exército, hoje comandado pelo general Raúl Castro. “Virá uma etapa ditatorial do
Exército e depois uma saída à chinesa. Quer dizer, uma economia
capitalista com uma sociedade comunista”.

'Autoritarismo'

García Hamilton esteve duas vezes na capital cubana, Havana, mas no início deste ano foi proibido de desembarcar na terra de Fidel por razões que ainda desconhece. “Talvez tenha sido por meus livros que falam sobre o autoritarismo latino-americano”, especulou.

Autor de livros sobre o general e “libertador” José San Martín (“Don Jose”) e sobre o também general e igualmente conhecido como “libertador” Simón Bolívar (“Simón”), García Hamilton entende que Fidel também é o único a deixar o irmão no poder – mesmo que seja, temporariamente.

Ele citou, no entanto, três outros casos de nepotismo na história recente da América Latina. François Duvalier, no Haiti, deixou o cargo para o filho, Jean Claude Duvalier. A cadeira de Anastasio Somoza, na Nicarágua, foi ocupada pelo filho, Luis Somoza. Na Argentina, o ex-presidente Juan Domingo Perón morreu no cargo, deixando a Presidência ara sua mulher, Isabel Perón.

Tanto Hamilton como O'Donnell reconheceram o líder cubano como um dos principais personagens políticos da América Latina – e talvez do mundo - no século 20 e início do século 21.

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