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Julgamento de Saddam pode marcar começo de nova era | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O julgamento de Saddam Hussein vai representar mais do que um acerto de contas antigas - dará ao novo governo iraquiano e seus sucessores uma oportunidade para deixar o passado para trás e mostrar quem manda agora. Será importante ver como eles procederão. Eles vão querer demonstrar um compromisso com a Justiça e com a legalidade para mostrar que uma nova era começou. Qualquer coisa que tiver a aparência de Justiça sumária de vítimas hoje no poder vai minar essa posição. É por isso que um tribunal especial foi estabelecido para conduzir o caso e é por isso que ele terá tempo para recolher provas. Teste Este também é um teste importante para a autoridade e a reputação do primeiro-ministro interino do Iraque, Iyad Allawi. Allawi já demonstrou alguma habilidade em controlar os fatos nos primeiros dias de sua administração - primeiro, ao assumir o poder antes do esperado e agora, ao obter a custódia legal do ex-ditador, mesmo que ele continue sob a guarda americana.
A idéia é projetar a imagem de um Iraque sob controle. Allawi precisa fazer tudo o que puder nos primeiros dias para construir essa imagem porque os insurgentes têm, sem dúvida, seus próprios planos para causar impacto. Não há dúvida de que este também é um momento de satisfação para o próprio Allawi. Em 1978, quando vivia em exílio na Inglaterra, ele contou que dois homens invadiram sua casa com um machado e iriam matá-lo e a sua mulher se seu sogro não tivesse voltado repentinamente. Allawi sempre responsabilizou Saddam Hussein por ordenar seu assassinato e, em novembro passado, ele levou seu caso a um tribunal em Bagdá e obteve um veredicto de culpa para Saddam Hussein e seu cunhado, Barzan al-Tikriti, preso em 2003. Um juiz expediu um mandado de prisão. Mas o caso contra Saddam Hussein deverá ir além de um ataque individual, incluindo assassinato em massa e genocídio, como uma forma de simbolizar a intensidade de sua opressão. Execução O destino de ditadores julgados por seu próprio povo varia. Alguns são executados, outros vão para a prisão, e outros simplesmente se apagam. Entre as execuções mais notáveis está a do líder da Romênia, Nicolai Ceausescu, que conseguiu escapar de helicóptero depois que uma multidão que supostamente manifestaria apoio a ele tornou-se hostil pouco antes do Natal de 1989. Ceausescu e sua mulher foram capturados pouco depois, julgados rapidamente e executados por um pelotão de fuzilamento, em momento gravado em vídeo, no dia do Natal. Ceausescu manifestou arrogância, rejeitando o direito dos que o acusavam de julgá-lo, mas eles estavam determinados a fazer isso e mostrar que seu regime havia acabado. Outra imagem que vem à mente é a de Benito Mussolini e sua amante, amarrados de cabeça para baixo em um poste por italianos que os capturaram. O destino de outros foi menos dramático. O líder da Polônia comunista, general Jaruzelski, foi a julgamento por ordenar à polícia que abrisse fogo contra manifestantes em Gdansk, em 1970.
Sua saúde precária atrasou o julgamento. Em sua defesa, Jaruzelski disse: "Você tem de servir a Polônia da forma que for, não importa o sacrifício exigido". Em 2001, Egon Krenz e dois outros ex-líderes comunistas da Alemanha Oriental foram condenados por serem responsáveis pela política de atirar para matar alemães orientais que tentassem fugir do país cruzando a fronteira. Krenz e outros alegaram que não eram culpados, mas foram condenados a pena de prisão. Krenz serviu quase quatro anos de uma pena de seis anos e meio e foi libertado em dezembro do ano passado. Os julgamentos, tanto na Polônia quanto na Alemanha, eram parte de um processo de fechar o capítulo do governo dos partidos comunistas na Europa central e do leste no pós-guerra. A forma como eles foram conduzidos foi importante para dar o tom do que seria o futuro. O extravagante e cruel ditador Jean-Bedel Bokassa, o "Imperador" da República Centro Africana, teve um destino mais fácil. Ele fugiu para a França, revelando que dera diamantes de presente ao presidente francês Valery Giscard d'Estaing. Depois, Bokassa voltou para seu país, onde primeiro foi condenado à morte, em seguida, à prisão perpétua e, no final, a uma pena de apenas dez anos de cadeia. Bokassa cumpriu sete anos da pena e foi libertado, dizendo que havia sido indicado emissário do Papa secretamente. Quando morreu, em 1996, foi até elogiado na mídia estatal por sua carreira "ilustre". Exílio Alguns ditadores nunca enfrentaram a Justiça. Idi Amin escapou de Uganda e passou seus últimos anos de vida recluso, na Arábia Saudita.
"Baby Doc" Duvalier deu uma festa antes de deixar o Haiti rumo à França, para um exílio confortável. O Coronel Mengistu fugiu da Etiópia e encontrou refúgio no Zimbábue. E há os que enfrentam a Justiça dos vencedores. A liderança nazista - excluídos Hitler e poucos de seus assessores - foi julgada em Nuremberg. O líder do Panamá, Manuel Noriega, foi capturado por americanos e condenado por tráfico de drogas em Miami, onde permanece preso. Há outras formas de se lidar com ditadores. Julgamentos internacionais podem se tornar mais comuns no futuro com a instalação do Tribunal Penal Internacional. Atualmente, o ex-líder da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, está em julgamento em Haia. A Justiça não é mais deixada para os novos líderes. E existe ainda um caminho para fazer justiça, como o adotado na África do Sul com a comissão da verdade e reconciliação. Acreditava-se que as futuras relações na sociedade seriam melhor servidas por revelação do que por retaliação. É pouco provável que o Iraque siga esse caminho em relação a Saddam Hussein. |
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