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Minas fazem uma vítima a cada 12 horas na Colômbia | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Ao ser atingido por uma mina terrestre, Miguel Angel Flórez, de 9 anos, perdeu um amigo, um braço e a visão no olho direito. E também a vontade de sair de casa. Desde que ocorreu o incidente, em outubro do ano passado no sul do Estado de Antióquia, o garoto, traumatizado, abandonou as brincadeiras ao ar livre. Ele também deixou de ajudar o pai na lavoura porque pensa que o sofrimento pode se repetir. "Estávamos voltando do trabalho quando eu, meu pai e um companheiro fomos atingidos", lembra Miguel Angel. "Foi meu amigo quem pisou na mina. Ele morreu na mesma hora." Miguel Angel, o pai e o amigo são vítimas da proliferação de minas terrestres, um problema que causa a morte ou a mutilação uma pessoa a cada 12 horas na Colômbia. Apesar de não haver números oficiais, acredita-se que existam mais de 100 mil desses explosivos no país. De acordo com Luz Piedad Herrera, diretora do Observório de Minas da Vice-Presidência, já foram registrados incidentes em mais da metade das cidades colombianas. Em apenas 2 dos 32 Estados do país não foram registradas explosões até o momento. Em alta Javier Flórez, pai de Miguel Angel, diz que, no dia do incidente, não se preocupou com seus próprios ferimentos – ele queria apenas salvar o filho, que não conseguia enxergar e estava coberto de sangue. "Amarrei uma tolha no abdômen aberto do meu filho e gritei para que alguém viesse nos socorrer", lembra Flórez. “Eu não tive seqüelas, mas meu filho ainda sente dores de cabeça terríveis e está correndo o risco de perder a visão no outro olho.” Conforme Tamy Hall, responsável pelo programa de ação contra as minas terrestres da Organização dos Estados Americanos (OEA) na Colômbia, o mais preocupante é que está aumentando o número de campos minados. De acordo com ela, todos os grupos armados ilegais em ação no país são culpados pela colocação das minas. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam um crescimento de 340% no total delas nos últimos três anos. O Exército deixou de enterrá-las em 2001, quando o governo colombiano subscreveu a Convenção de Ottawa, que proíbe a fabricação e o uso de minas. Mas ainda hoje há muitos campos minados que foram criados pelos militares. Responsabilidade Álvaro Jiménez, diretor da organização não-governamental Colômbia Sem Minas, afirma que o Estado tem obrigação de prestar atenção integral a todos os sobreviventes. Mas nem sempre isto acontece. “Os mais atingidos são camponeses sem muita educação que desconhecem seus direitos. Eles vivem em lugares distantes, onde o hospital mais próximo está a 16 horas ou mais de distância”, diz ele. Segundo Jiménez, geralmente estas pessoas, que perderam um braço ou uma perna, se acostumam a viver sem uma prótese. Muitos terminam na mendicância ou se transformam em uma espécie de fardo para seus familiares. Baratas Tanto as minas industriais como as caseiras são muito baratas na Colômbia. Para construir uma mina é necessário menos de US$ 1 (R$ 3,12), sua destruição pode custar mais de US$ 1 mil (3,2 mil). “Se o conflito terminasse amanhã, levaríamos pelo menos 10 anos para erradicar completamente as minas”, afirma Tamy Hall. “A situação é muito grave, porque, depois de estar enterrada, uma mina tem vida útil de 50 anos. Até hoje, por exemplo, são registradas vítimas de artefatos enterrados durante a Segunda Guerra Mundial.” Na avaliação de Diana Roa, representante da Unicef, a faceta mais grave do problema é quando uma criança é atingida. Segundo ela, além das minas, outros tipos de artefatos explosivos que ficam no chão sem ter sido detonados – morteiros, granadas, balas explosivas – ajudam a agravar a situação. Ninguém recolhe este material, que termina sendo muito atrativo para as crianças - depois de 40 anos de guerra civil, elas estão acostumadas a ver armas na televisão ou em seus vilarejos, com militares, grupos paramilitares, guerrilheiros e até em suas casas. “As armas não aterrorizam as crianças”, afirma a representante da Unicef. Diante da situação no país, Edgar Moreno iniciou na semana passada uma viagem de bicicleta por oito Estados colombianos, para conscientizar as pessoas sobre o problema das minas terrestres. Moreno é um sobrevivente de um acidente com uma mina, ocorrido em 1992, quando tinha 16 anos. Mesmo sem a perna esquerda, ele acredita que pode ajudar a evitar estes incidentes e, também, ajudar os sobreviventes a ter força de vontade para seguir vivendo, apesar das limitações físicas. |
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