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O meu Dia D | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Televisão e jornais têm mostrado e contado tudo o que é possível sobre o dia 6 de junho de 1944, o Dia D. Velhos filmes e novos documentários marcaram a ocasião. Por falar em marcar, dado que me marcou é saber que, dos veteranos da Segunda Guerra Mundial, morrem cerca de 1,2 mil por dia. Continuo a ver e ouvir, ao menos na mente, o depoimento dos veteranos do desembarque na Normandia. Passada a data, mas imbuído do mesmo espírito, venho aqui prestar meu testemunho. Dia 6 de junho caiu numa terça-feira. Eu estava no quarto ano primário do colégio Mello e Souza, ali mesmo na Avenida Copacabana, quase esquina de Barão de Ipanema, onde ficava o Mallet Soares. Favor não confundir os dois, apesar da semelhança nos uniformes de camisa azul e calça azul-marinho. Pela manhã, peguei minha praiazinha, já que morava na Atlântica e era só atravessar a rua. Bati bola, fui de jacaré e acabei subindo para a obrigação de pelo menos uma hora de estudo. Depois do almoço, meio-dia e meia, peguei o rumo de minha Normandia. No caso, a professora Dona Armia, boa profissional e pessoa, mas tão assustadora para mim quanto a guarnição alemã encarregada de defender o lado de lá do canal da Mancha. Meus inimigos eram a matemática e as chamadas ciências naturais. Na hora do recreio, joguei pingue-pongue. Cada um trazia seu lanche. O meu vinha numa merendeira metálica preta que até garrafa térmica tinha, às vezes com Ovomaltine, outras com suco de laranja. Eu estava sempre quebrando minha garrafa térmica. Na saída – não juro – dei uma passada na papelaria ao lado, a Iracema, onde voltei a tentar roubar botão de baquelite para meu time, o Paulistas. Difícil. O dono do estabelecimento era uma espécie de Rommel das papelarias: uma raposa. Passei pelo bar ao lado da papelaria, na esquina da Barão de Ipanema. Comprei por alguns “mirréis” umas balas Futebol para a coleção de figurinhas. Peguei pelo meio uma sessão das 4 no Roxy, esquina da Bolívar. O filme? Me esqueci. Em junho, a noite vinha mais cedo e, com ela, cessavam os confrontos. Cama. Não sem antes ler o Gibi ou o Guri surrupiados no jornaleiro da esquina. Uma luta? Acho que não. Apenas os deveres e combates daquilo que foi ontem. |
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