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Atualizado às: 04 de junho, 2004 - 16h40 GMT (13h40 Brasília)
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Gangues de garotos usam arsenal herdado de governo no Haiti

Fotos Paulo Cabral
Bandeira brasileira na favela: afinidade que vem do futebol
A Cidade do Sol, uma das mais carentes e violentas favelas de Porto Príncipe, foi um dos primeiros locais a serem ocupados pelo Exército americano quando a Força Multinacional Interina (MIF, na sigla em inglês) chegou ao Haiti em 29 de fevereiro deste ano.

É lá que está concentrado o maior número de chimères (nome em francês e creole que significa "garotos maus"), os bandos de jovens armados que antes lutavam em defesa do governo de Jean Bertrand Aristide e que agora estão usando seu arsenal apenas para o crime. É a mesma atitude adotada pelos ex-rebeldes que haviam se armado para a luta contra Aristide.

O desarmamento desses grupos é um dos pontos mais importantes do mandato da Força de Estabilização da ONU para o Haiti.

Numa visita da reportagem da BBC Brasil à favela, alguns dos chimères disseram que aceitam entregar as armas, mas em troca de emprego e comida.

Plano

O plano da ONU (Organização das Nações Unidas) é exatemente buscar esse tipo de desarmamento pacífico, mas há dúvidas sobre a disponibilidade de recursos para isso.

Outro fator agravante é o ambiente político ainda instável no Haiti.

O integrante dos chimères Theodule Makenson, de 25 anos, disse que eles "têm que usar as armas porque não há outro jeito de sobreviver".

Ele e seus companheiros fogem de perguntas diretas sobre as suas atividades, mas dão indicações de que "usar as armas" significa assaltar os "burgueses", que moram nos bairros mais ricos de Porto Príncipe.

"Se eles querem desarmamento têm de nos dar comida e nos dar empregos. Não tem como sobreviver aqui", diz Makenson.

Andando pela favela rodeado de chimères - que agem como os chefes da área - é difícil conversar com outros moradores para conhecer o que eles pensam do bando de jovens.

Fotos Paulo Cabral
Um chimère mostra o tiro que levou no braço

Mas duas pessoas foram discretamente dizer ao tradutor haitiano que acompanhava a BBC Brasil na favela que ele estaria andando "com bandidos perigosos", que também cometeriam crimes na própria comunidade.

Os chimères não aceitam serem fotografados. Um deles permitiu uma imagem da cicatriz dos tiros que diz ter levado da polícia, mas apenas depois de uma garantia de que seu rosto não apareceria.

Pobreza

Os rapazes, no entanto, fazem questão de mostrar os recantos mais pobres e sujos da favela. "Queremos mostrar como a vida é aqui", diz um deles.

Como em outras favelas haitianas, o abandono é total. O mal-cheiroso esgoto a céu aberto está por todos os lugares, e crianças brincam ao lado de enormes montes de lixo.

Na falta de água corrente, há apenas algumas latrinas comunitárias, muito sujas e mal cuidadas.

A energia elétrica, que chega às casas por meio de ligações irregulares, não é estável, e telefones não existem na Cidade do Sol.

Governo

"A Cidade do Sol é uma favela com 300 mil moradores e que tinha apenas quatro policiais. O problema era a falta de recursos do governo, que foi estrangulado pela comunidade internacional", diz o ex-ministro haitiano Lelsy Voltaire, atual porta-voz do partido Família Lavalas, do ex-presidente Jean Bertrand Aristides.

Voltaire nega - como acusam os opositores de Aristides - que o Família Lavalas tenha armado os chimères. Mas o ex-ministro admite que o partido errou ao aceitar uma aliança com eles.

"Foi um erro, mas nós não tinhamos outra opção. Sem recursos para cuidar da segurança, o governo teve de se aproximar dos bandidos", diz.

"Os chimères se aproximaram do partido apenas porque estávamos no poder. Agora eles estão buscando alianças com o novo governo."

Mas na Cidade do Sol, os chimères mostram que continuam leais ao ex-presidente.

"Os americanos tiraram do governo o presidente que cuidava da gente aqui na favela. Agora que ele foi embora a gente não tem mais comida, nem empregos, nem nada", diz Ernst Latile, de 23 anos.

Mesmo assim, Latile diz que são bem-vindas as forças da ONU, lideradas pelo Brasil, "desde que ajudem o Haiti, que precisa principalmente de empregos".

Outro chimère diz que seriam necessários pelo menos dez anos de permanência das tropas para elas conseguirem ajudar o país.

Simpatia

É voz corrente que a simpatia que os haitianos têm pelo Brasil pode ajudar neste processo de pacificação. A posição é compartilhada mesmo por aliados do ex-presidente Aristide.

"Acho que os Estados Unidos aqui são vistos como uma força de ocupação. Acredito que não vai haver este tipo de pensamento em relação às forças da ONU lideradas pelo Brasil", disse Lelsy Voltaire.

Em tom bem-humorado, o ex-ministro dá uma receita para os militares brasileiros conseguirem entrar nas favelas e conseguir o apoio dos moradores.

"Os soldados têm que jogar futebol com eles. Eu sei que os soldados brasileiros são bons de bola."

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