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Fotos alimentam sentimento antiamericano no Egito | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Emissoras de TV árabes vêm fazendo uma intensa cobertura dos supostos atos de tortura cometidos por militares da coalizão liderada pelos Estados Unidos em prisioneiros iraquianos. “A situação não mudou no Iraque. Só mudou o carcereiro”, disse uma reportagem veiculada pela rede Al-Arabiya após a divulgação de fotografias que mostram as supostas torturas. “Isso é uma vergonha, vergonha, vergonha”, disse um telespectador em um café no centro velho do Cairo, arrancando sinais de aprovação dos outros. “Um soldado urinando em um prisioneiro, abuso sexual e humilhação. Isso é humano?” Valores Fotografias de corpos nus empilhados e o sorriso sarcástico de uma recruta americana – isso é particularmente revoltante em uma cultura que valoriza a dignidade, a modéstia e o respeito. Ele completou: “Os Estados Unidos costumavam significar liberdade. Agora significam imperialismo”. Por sua vez, um garçom do mesmo café disse estar pronto para ir ao Iraque se tornar um mártir combatendo os americanos. Comentários desse teor não surpreendem. Os árabes estão geralmente irritados com os Estados Unidos e Israel. Isso pode ser uma maneira segura de demonstrar insatisfação, já que pode ser arriscado fazer críticas aos seus próprios líderes. Mas não existem dúvidas sobre o profundo insulto que as fotografias representaram. O café que eu visitei se tornou conhecido no Cairo porque seus clientes festejaram quando os americanos derrubaram Saddam Hussein. Mas a coalizão já não tem mais defensores no local. Indignação Não muito longe, na Universidade do Cairo, uma discussão enérgica estava acontecendo, com as tais fotografias sendo atiradas no rosto de um professor visitante que defendeu os americanos. O cientista político Shamlan al-Eesa, que veio do Kuwait, ressaltou uma verdade pouco confortável: em muitas partes do Oriente Médio, o comportamento que se espera da polícia não é diferente do que as fotos mostram. “Essas coisas acontecem todos os dias no mundo árabe, mas ninguém fala nada”, diz ele. “Essa é a diferença em relação ao Ocidente, que admite o problema e tenta fazer algo para solucioná-lo.” Mas o acadêmico não conseguiu aliados com esse tipo de argumento. “As fotos revelam a verdadeira natureza dos Estados Unidos e suas políticas”, disse uma estudante.“Democracia e direitos humanos: é tudo ilusão.” “Fiquei chocado”, afirmou outro estudante. “Por que essas fotografias foram tiradas, em primeiro lugar? Isso significa que os soldados estavam se divertindo. É o que dói mais.” Estrago Os EUA estão tentando exportar a democracia para o Oriente Médio, mas hoje não é possível que isso aconteça, segundo o jornalista e ativista pró-democracia egípcio Nabil Zaki. “Agora tudo o que for relacionado com os americanos é detestado”, diz ele. “Noventa e nove por cento da população da região odeia os americanos. Eles os consideram agressores.” A Al-Jazeera e a Al-Arabiya vêm sendo criticadas pela coalizão, que as acusa de fazer uma cobertura hostil, inflamatória e imprecisa. Assim como o resto da imprensa árabe, as duas rede dizem que as fotografias mostram que estavam certas o tempo todo. O perigo para a coalizão, e para o Ocidente em geral, é que, neste clima, muita gente acredita em qualquer informação, mesmo as mais falsas, sobre soldados americanos ou britânicos no Iraque. O jornal iraquiano Al-Bayyinah publicou um grande artigo intitulado “Homossexuais abusam de iraquianos”, no qual diz que a prisão de Abu Ghraib se tornou um “clube noturno para cowboys”. “Soldados americanos bebem álcool sobre os prisioneiros, enquanto os religiosos continuam rezando”, diz o artigo. E outras fotografias estão circulando em sites da internet em língua árabe. Elas mostrariam duas mulheres iraquianas, ambas vestindo roupas negras tradicionais, sendo estupradas por homens que estariam usando uniformes do Exército americano. Essas fotos não parecem genuínas. Os uniformes não parecem reais. As fotos de militares britânicos abusando de iraquianos podem não ser verdadeiras também. O estrago, entretanto, já foi feito. |
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