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Análise: Bush 'esvazia' negociações do Oriente Médio | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Depois de meses de negociações, e mais de duas horas de discussões face a face com Ariel Sharon, o presidente Bush anunciou seu veredicto sobre o plano do premiê israelense de retirar assentamentos judaicos da Faixa de Gaza, endossando-o com mais força e entusiasmo do que qualquer israelense ousava imaginar. "Essas são ações históricas e corajosas", disse o presidente dos Estados Unidos. "Se todos os lados envolvidos abraçassem este momento, eles poderiam abrir as portas ao progresso e colocar um fim a um dos mais duradouros conflitos no mundo." E esse foi apenas o começo das supresas. Usando um vocabulário cuidadosamente selecionado, Bush esteve perto de aceitar o direito de Israel de manter controle permanente sobre os maiores assentamentos na Cisjordânia. "À luz da nova realidade na região, incluindo a existência de grandes centros populacionais israelenses, não é realista pensar que o resultado das negociações finais sobre a região será um completo retorno às linhas (de fronteira) do armistício de 1949, e todos os esforços anteriores de negociar a solução com dois Estados chegaram à mesma conclusão", disse Bush. E o que é ainda mais polêmico: Bush tocou na essência de uma questão de honra para os palestinos, o direito de retorno de refugiados a Israel. "Parece claro que uma base consensual, justa e realista para solução do problema dos refugiados palestinos vai precisar ser encontrada por meio do estabelecimento de um Estado palestino, e o estabelecimento dos refugiados palestinos nesse estado em vez de em Israel."
O governo americano vai argumentar que está sendo apenas realista, transformando em palavras o que muitas pessoas esperam que seja o acordo final de paz. De fato, funcionários de alto escalão do governo disseram a um grupo de céticos jornalistas da Casa Branca que eles não estão pré-julgando esse documento final. "Questões relacionadas a fronteiras, aos refugiados, são questões do status final", disse um desses funcionários. "Questões do status final precisam ser resolvidas com o consenso das partes envolvidas. O presidente diz que, quando essas partes encararem essas questões, vão ter que levar em conta a realidade." A diferença é que nenhum presidente dos Estados Unidos esvaziou as negociações dessa forma antes. O que Bush fez foi puxar o tapete de qualquer futuro negociador palestino, ao negar seus pedidos antes mesmo de qualquer conversa. Que concessões poderia, agora, um negociador palestino obter em troca da renúncia do direito de retorno dos refugiados a Israel, por exemplo, se ele sabe que Washington já se comprometeu a se opor a esse retorno? Bush ganha em casa Não é à toa que Ariel Sharon está maravilhado. Não apenas ele conseguiu o que queria, como também seu feito foi transmitido ao vivo em horário nobre pela TV israelense, com ele ao lado do presidente americano. Os críticos de Sharon em seu próprio partido, o Likud, e o resto da cena política, precisam entender que, agora, o jogo acabou. Ainda assim, ainda pode levar meses até que sejam feitas as retiradas prometidas pelo primeiro-ministro israelense, por causa das ações legais movidas pelos colonos. Também é possível que Sharon tenha que deixar o governo, já que ele está sendo investigado por corrupção. Mas por que o presidente Bush aceitou essas exigências sem precedentes? Parece que ele foi atropelado pelo "trator", como é conhecido Sharon. Afinal de contas, como, neste este ano de eleição, ele seria visto ao se opor ao lobby judeu?
O líder israelense estava empurrando uma porta aberta. No mundo preto-e-branco de Bush, os israelenses são as pessoas boas, e os palestinos, pelo menos seus líderes, são os vilões. Todo mundo em Washington perdeu a paciência faz tempo com o líder palestino Yasser Arafat. Assim, se as negociações não são possíveis, por que não apoiar uma solução unilateral? Isso acaba com o ato de "matar moscas", como Bush disse recentemente em outro contexto. Certamente, a decisão de Bush vai ser recebida bem nos Estados Unidos, não apenas pelo lobby judeu. Cristãos fundamentalistas (que constituem boa parte do eleitorado do presidente), republicanos linha dura e, é claro, os democratas (que receberam 90% dos votos dos judeus nas últimas eleições) também ficarão satisfeitos. As concessões feitas por Bush a Israel vão ser difíceis de repudiar por qualquer presidente americano no futuro. Isso seria suicídio político. O mapa do processo de paz no Oriente Médio foi mudado para sempre. |
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