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Europa terá voz própria contra o terror, diz historiador espanhol | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A Europa deve adquirir uma voz própria no combate ao terrorismo internacional após os atentados em Madri, prevê o historiador espanhol José Manuel Santos, diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca. Na sua opinião, ao ser alvo direto de ataques de militantes islâmicos, o continente já não apenas dará apoio aos Estados Unidos nessa luta, mas "terá que fazer uma política própria". "Agora se fala que realmente a União Européia tem que tomar medidas extraordinárias de segurança interna", declarou Santos, que respondeu a algumas das perguntas dos internautas da BBC Brasil sobre as consequências dos atentados de 11 de março em Madri. Ele disse também que a Espanha pode ter sua economia afetada com a queda do turismo ao país. Leia a seguir a íntegra da conversa. Pergunta – O senhor não acha que os terroristas foram os grandes vencedores das eleições espanholas? Os atentados conseguiram mudar o destino de uma eleição. Como o senhor analisa essa situação? (Leucio, de Recife, e Nery, de São Paulo) José Manuel Santos – Eu acho que é um pouco mais complicado. Com certeza os atentados influenciaram as eleições, ninguém pode negar que a tragédia que aconteceu em Madri na quinta-feira, três dias antes da eleição, teve um efeito. Mas até onde chegou o efeito nunca vamos saber. Agora estamos entre os que acham que o partido socialista não teria ganho sem os atentados e os que dizem que claramente os atentados tiveram um efeito mas que o partido socialista tinha muitas possibilidades de ganhar. O que eu acho é que desde o começo de março as pesquisas mostravam que o partido socialista podia ter um resultado bem melhor do que os analistas políticos estavam pensando. Só quero dizer que no domingo nós espanhóis fomos aos colégios eleitorais votar com uma sensação de choque forte, com umas imagens terríveis na cabeça, e também com uma idéia de relação entre os atentados e a participação da Espanha na guerra do Iraque. Nesse sentido tem uma parte dos eleitores, não podemos quantificar quantos, que estava pensando que o partido que apoiou aquela intervenção militar no Iraque tinha que sair do governo. Mas nunca podemos pensar que um atentado muda um governo. Isso deslegitima completamente o resultado das eleições e eu acho que o resultado das eleições do dia 14 na Espanha foi completamente legítimo. Pergunta - Em que medida um ataque como o de Madri pode interferir no processo eleitoral dos EUA? Será possível que esse ato terrorista fortaleça a campanha de Bush para a reeleição já que um dos únicos pontos favoráveis a ele nas pesquisas eleitorais dizem respeito a quem seria mais capaz de derrotar o terrorismo? (Roberto, de Niterói, e Givaldo Corcinio, de São Paulo) Santos – Eu acho que os EUA agora têm um movimento forte contra a guerra no Iraque. Esse movimento está relacionado com o resultado e a maneira como está sendo levada a política no Iraque no último ano. A sensação nos EUA e aqui também, ainda mais agora, é que longe daquele mundo seguro que eles prometiam no momento da intervenção, estamos num mundo bem mais inseguro. Portanto os eleitores nos EUA vão pensar bem claro nessa questão. Mas o que estou vendo agora é que a primeiras pesquisas estão falando que realmente a luta contra o terrorismo internacional é uma questão forte nos EUA. Os cidadãos estão atrás do governo nessa guerra, muito mais do que estavam os espanhóis atrás do governo popular. Portanto eu não acho que o resultado das eleições nos EUA vai estar condicionado pelo fato do terrorismo internacional ter uma presença forte na Europa. Estamos também muito longe das eleições que só acontecem em novembro e nos EUA a questão interna é sempre mais importante do que a questão externa. Pergunta – Caso se confirme a anunciada decisão do primeiro-ministro eleito espanhol, Jose Luis Rodriguez Zapatero, de fazer voltar à Espanha as tropas que estão no Iraque, pode-se prever que outros países europeus tomem a mesma iniciativa? (Cassia Pinto, de Porto Alegre) Santos – Eu acho que não. Eu acho que nem a Inglaterra, nem a Polônia, nem a Itália vão mudar suas posições porque a mudança na Espanha não é uma mudança nova.
No programa do partido socialista estava já claro que Zapatero não concordava com aquela política e que ele ia tirar as tropas do Iraque. É uma decisão feita pelo partido socialista espanhol que na verdade não vai ter um seguimento por parte daqueles países que ajudaram e apoiaram aquela intervenção. Pergunta – É possível especular sobre o futuro imediato do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, e do britânico, Tony Blair? O fato de a Espanha anunciar uma possível retirada do Iraque deixa a Itália e a Grã-Bretanha isolados na Europa? (Cassia Pinto, de Porto Alegre) Santos – Eu acho que a Espanha e a Grã-Bretanha já estavam isoladas na Europa, e um pouco Portugal também, apesar de o apoio português ter sido um pouco menor. Mas com certeza aqueles que chamamos aqui o trio de Açores, fundamentalmente Aznar, Blair e Bush junto com o primeiro-ministro português, entraram numa via diferente da que nesse momento estava sendo a política européia que queria ter uma voz própria frente aos EUA. Quando três países da União Européia, fundamentalmente a Grã-Bretanha, apoiados pela Espanha e a Itália, entram numa lógica de apoio incondicional a todas as medidas dos EUA no que eles chamam de luta contra o terrorismo internacional, eles já estão numa situação isolada dentro da UE. Portanto não é o caso de dizer que se a Espanha sair agora do Iraque esses países ficam isolados. Eles já estavam isolados. Pergunta – A vitória dos socialistas na Espanha fortalecerá a União Européia? Qual será o impacto desse novo governo na política da União Européia? (Thiago Garone, de Atibaia, SP) Santos – Se vão fortalecer a UE eu não sei. Eu acho que a mudança de governo na Espanha não vai trazer, no contexto global, uma grande mudança na política européia. O que vai mudar vai ser o alinhamento da Espanha com a Grã-Bretanha e a Itália. Segundo o primeiro-ministro eleito espanhol, Zapatero, a Espanha vai agora procurar um melhor entendimento com o que chamamos o eixo da União Europeia: a França e a Alemanha. O que vamos ter talvez é um fortalecimento do eixo motor da UE que é a França e a Alemanha, frente aos outros dois grandes países da União Europeia, que são a Grã-Bretanha e a Itália. Pergunta – Qual impacto os atentados de Madri terão sobre a guerra global antiterrorista? Será mais provável o fortalecimento das ações anti-terroristas lideradas pelos EUA e Grã-Bretanha, com a adesão de outros países, ou um recuo desse apoio? (Paulo Marques, de Salvador, Bahia, e Regina Osório, de Aveiro, em Portugal) Santos – Eu acho que no momento da guerra no Iraque o debate não era se a Espanha apoiava ou não a política contra o terrorismo. A Espanha é um país que infelizmente tem terrorismo próprio há 30 anos, por isso é sempre um país envolvido na luta contra o terrorismo. A questão é como fazer essa luta contra o terrorismo. O debate era: para lutar contra o terrorismo internacional é necessário uma invasão do Iraque? Eu acho que 80% da opinião pública espanhola pensava que não. A luta contra o terrorismo é necessária. Como é que tem ser feita essa luta? É essa questão que deve agora entrar no debate. A Europa com certeza já foi afetada diretamente por esse terrorismo de forma dramática por isso agora a Europa vai ter que ter uma voz própria dentro dessa luta contra o terrorismo internacional. Já não é só um apoio aos EUA, já é diretamente afetada e portanto terá que fazer uma política própria. Agora se fala que realmente a União Européia tem que tomar medidas extraordinárias de segurança interna. E estão falando de criar a figura de coordenador-geral da política antiterrorista. BBC Brasil - O sr. acredita que a política chamada antiterrorista será liderada por outra facção que não a dos EUA e Grã-Bretanha? Santos –Essa política terá que contar com mais países, só que esses países só vão entrar nessa luta contra o terrorismo se tivermos um consenso sobre como ela tem que ser feita. Até agora os EUA estavam numa política de "Eu contra todos". Eles falavam assim: "Está comigo ou contra mim". Agora que a Europa também é afetada com certeza vai poder ter uma voz própria, vai querer fazer uma política própria e portanto não vai ser uma política antiterrorista só dos EUA. Quem vai liderar essa política antiterrorista é muito cedo para saber, mas a potência militar são os EUA, e eles vão ter sempre uma capacidade maior de resposta. Pergunta – Os EUA sofreram muito em termos turísticos depois dos ataques de 11 de setembro. Como a indústria turística da Espanha poderá ser afetada pelos ataques em Madri? (Eduardo Ferreira, da Flórida, nos Estados Unidos) Santos – Pode ser afetada com certeza. Já ontem os valores turísticos nas bolsas de Madri caíram porque o turista escolhe os destinos em função de praia, sol e segurança. Ninguém pode esconder que se de repente um país fica marcado como ficou marcada a Espanha por esse fato pode ter um efeito negativo dentro da indústria turística. Na Espanha isso é especialmente importante porque o turismo é um dos aspectos mais importantes da economia nacional. Estamos falando de um país como a Espanha, que recebe aproximadamente 50 milhões de turistas por ano e é talvez o destino mais importante do verão na Europa. Pode ter um efeito negativo com certeza. |
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