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Análise: A história conturbada do quintal do Tio Sam | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O papel desempenhado pelos Estados Unidos na saída do presidente Jean-Bertrand Aristide do Haiti mostra que o Tio Sam ainda quer manter as coisas calmas no seu próprio quintal. As circunstâncias exatas do afastamento de Aristide são assunto para debate. Ele disse que foi forçado a abandonar seu cargo, tendo recebido a advertência de que milhares iriam morrer, incluindo talvez ele próprio, caso não concordasse em sair. Aristide disse à rede de TV CNN que foi "um autêntico golpe de Estado, uma forma moderna de realizar um seqüestro moderno". Diplomatas americanos disseram que ele concordou em deixar o Haiti e que quando foram à casa de Aristide no domingo de manhã para acompanhá-lo até o aeroporto, ele já tinha feito as malas. Os diplomatas revelaram também que ele escreveu uma carta de renúncia antes de entrar no aviáo fretado pelo Departamento de Estado americano. O que pode ter acontecido talvez seja uma mistura de ambas as versões. Aristide precisa de alguma explicação para o fato de ter fugido. Washington precisa jogar a responsabilidade sobre ele. Mudança de postura dos EUA Certamente, o governo Bush fez pouco esforço para defender um homem em quem Bill Clinton apostou quando ordenou que fuzileiros navais fossem enviados ao Haiti, dez anos atrás. Durante a crise, porém, quando a oposição haitiana se recusou a aceitar Aristide como parte de um acordo para divisão de poder no país, os Estados Unidos recuaram. Palavras do porta-voz do Departamento de Estado, Richard Boucher, depois da saída de Aristide: "Nós todos sabemos que a história política do Haiti é tal que, durante seu mandato, o presidente Aristide criou uma grande divisão dentro da sociedade - a polarização aumentou, a violência cresceu." "Há muitos grupos armados que tinham ligação direta com ele e seu governo. Dessa forma, de um jeito ou de outro, muita violência resultaria desse fato, da forma como ele governou o país." 'Óbvia manipulação' Críticos dizem que algo mais estava em ação. O mais ferrenho defensor dessa teoria é o economista Jeffrey Sachs, diretor do Instituto da Terra da Universidade Columbia, em Nova York. Sachs disse em um artigo no jornal britânico Financial Times que os Estados Unidos derrubaram um líder democrático.
"A crise no Haiti é mais um caso de óbvia manipulação americana de uma pequena e empobrecida nação, em que a verdade não foi explorada pelos jornalistas", escreveu Sachs. "A equipe responsável pela política externa do governo Bush chegou ao poder querendo afastar Aristide, há muito um desafeto de conservadores americanos poderosos como o senador Jesse Helms, que obsessivamente enxergavam o presidente haitiano como mais um Fidel Castro no Caribe", concluiu. "Tais críticos atacaram (o governo americano) duramente quando o presidente Bill Clinton reconduziu Aristide ao poder em 1994 e conseguiram retirar as tropas americanas do país pouco depois, muito antes de o país estar estabilizado. Em termos de ajuda para reconstruir o Haiti, os fuzileiros navais americanos deixaram para trás cerca de 128 km de estradas pavimentadas e, essencialmente, mais nada." "Enquanto isso, a chamada 'oposição', uma confraria de ricos haitianos ligados ao antigo regime Duvalier e ex (ou talvez ainda ativos) agentes da CIA, fazia lobby em Washington contra Aristide." A Doutrina Monroe O fato de a postura americana ter o costume de mudar tão rapidamente poderia parcialmente explicar a relação tensa que os Estados Unidos sempre tiveram com a região do Caribe. Isso começou com a Doutrina Monroe, em 1823, quando o presidente Monroe advertiu às potências européias, especialmente à Espanha (que havia acabado de perder suas colônias), que ficassem longe do hemisfério ocidental. O mesmo processo continuou com invasões e intervenções americanas em Cuba, Guatemala, República Dominicana, Nicarágua, El Salvador, Granada, Panamá e no próprio Haiti. Robert Pastor, que era diretor de Assuntos Latino-Americanos durante a presidência de Jimmy Carter e tentou desenvolver uma melhor relação com a região caribenha, disse que as necessidades dos Estados Unidos na área da segurança colaboram para criar o padrão de postura americano. "O grau de atenção dedicado pelos Estados Unidos à região varia entre o obsessivo e o desinteressado. Eu já comparei esse padrão a um 'redemoinho', que suga os Estados Unidos em um vértice de crise quando o país fica preocupado com pequenos vizinhos ou seus líderes." "Os presidentes americanos reagem a essas crises com programas de segurança, políticos e econômicos, que têm seus antecedentes ainda que os responsáveis por concebê-los não estejam cientes disso. Então, quase repentinamente, o interesse e os recursos americanos saem da região, e muitos americanos praticamente esquecem ou seus adversários ou a razão que os levou a intervir." Algumas vezes, as intervenções são bem-recebidas pela população local. Poucas pessoas na pequena Ilha de Granada, por exemplo, ficaram contrariadas ao ver o afastamento do grupo que havia ganhado controle do governo depois que ele executou o líder original da revolução, Maurice Bishop. Mas, em outras ocasiões, o motivo da ação americana não é tão óbvio para quem observa de fora. Cemitério em San Salvador Em 1981, Ronald Reagan havia acabado de chegar ao poder e seu secretário de Estado, Alexander Haig, havia declarado que a frente de batalha na Guerra Fria era agora a América Central. O governo Reagan desenhou uma linha imaginária ligando a União Soviética a Cuba, Nicarágua (então sob controle dos sandinistas) e El Salvador, onde atuavam os rebeldes da frente Farabundo Marti. Os corpos de três jovens haviam sido jogados no cemitério de San Salvador, capital de El Salvador. Suas nucas haviam sido estouradas, provavelmente com tiros de grandes rifles G3 usados pelos militares salvadorenhos. Os locais vieram para ver se eles poderiam ser identificados. Uma mulher se aproximou, cobrindo o nariz com um lenço. Deu uma olhada de perto e saiu andando. Não era fácil ver aquelas jovens vítimas da Guerra Fria. Eles pareciam mais ser vítimas de uma guerra civil. El Salvador, depois, fez as pazes consigo mesmo. Deixou de ser um problema. E muito pouco se ouviu falar desde então. |
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