|
No Haiti, Bush opta pelo caminho multilateral | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O presidente partiu. Os marines e/ou gendarmes chegaram. No Haiti – que era de Jean-Betrand Aristide e não se sabe exatamente de quem será por uns tempos – está se repetindo um padrão clássico de intervenção da superpotência americana no seu quintal ou da subpotência francesa em uma de suas ex-colônias. Como de hábito, a intervenção é justificada para restaurar a ordem e abrir o caminho para um futuro promissor. A crise do Haiti é clássica, mas tem suas peculiaridades. Em geral, parte algum ditador Duvalier. No caso haitiano, o ex-responsável por assuntos interamericanos no governo Reagan, Bernard Aronson, apontou o dilema: "Como defender a democracia constitucional quando o líder democrático é parte do problema"? Na expressão de uma alta fonte diplomática americana não identificada, citada pelo Wall Street Journal, o dilema foi resolvido da seguinte maneira: "Nós tivemos um papel vital para deixar claro que Aristide era o problema e não a solução para os problemas do Haiti". O drama, como reconheceu Aronson, é que o ex-padre que inspirou e mobilizou os miseráveis desde os tempos em que servia na favela La Saline, em Porto Príncipe, era apenas parte do problema. Aristide estava longe de ser o santo retratado por congressistas negros em Washington que vivem fora da realidade, mas tampouco o demônio pintado por conservadores ou oportunistas que ajustam a realidade às suas necessidades políticas. Eleição O ex-presidente foi eleito com lisura por mais de 60% dos votos em 1990. Isto nunca tinha acontecido no infeliz Haiti. Mas ele era melhor para protestar do que para governar. Sua ineficiência era agravada pelas condições lastimáveis do seu país e por sua indisposição para fazer compromissos. Robert White, o ex-embaixador que se insurgiu contra as truculências americanas na América Central e Caribe nos tempos de Reagan, diz não acreditar quer Aristide tivesse um "osso democrático no seu corpo". Mas White arremata que os "EUA minaram o governo constitucional no Haiti". Aristide foi inicialmente minado no governo Clinton, o mesmo que o reconduziu ao poder em 1994 após o previsível golpe militar tramado pela tradicional elite haitiana e sua soldadesca. Clinton forneceu assistência insuficiente e deixou o Haiti de lado quando o êxodo dos refugiados foi suavizado. Com Bush, previsivelmente, foi pior ainda. Aristide foi reeleito e assumiu o segundo mandato em fevereiro de 2001, semanas após a posse de Bush. O ex-padre adepto da Teologia da Libertação sempre foi desprezado pelos conservadores agora no comando em Washington. As acusações de corrupção, de fraude eleitoral e de violações de direitos humanos facilitaram o virtual corte da assistência não apenas americana, mas internacional. Nos últimos tempos, o apoio a Aristide nos EUA se limitava aos congressistas negros do Partido Democrata. Curiosamente os principais pré-candidatos democratas à presidência, os senadores John Kerry e John Edwards, agora estão criticando Bush pela "demora" em agir no Haiti. De fato, manter o status quo político no país mais miserável das Américas era simplesmente insustentável. Desta vez, o governo americano foi à luta secundado por países que não o seguiram no Iraque, como França, Canadá e mesmo o Brasil. O Bush velho de guerra desta vez não foi unilateralista. Agiu dentro da esfera das Nações Unidas, graças à aprovação unânime de uma resolução de intervenção e pacificação. Ironicamente, a frágil democracia haitiana sofreu mais um golpe, mas as leis internacionais estão funcionando. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||