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Caio Blinder: Tragédia sem inocentes | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O último momento glorioso da história do Haiti foi o primeiro, há 200 anos, quando os escravos inspirados pela independência dos Estados Unidos derrotaram as tropas de Napoleão e criaram o segundo país das Américas. Depois foi uma sucessão de momentos inglórios no país mais pobre do continente. A França impôs uma pesada dívida em troca de reconhecimento e os Estados Unidos, incomodados com uma república de ex-escravos negros, levaram 60 anos para reconhecer formalmente o Haiti. O sistema que se cristalizou foi o de uma elite mulata que pilhava os parcos recursos nacionais. Instituições democráticas nunca foram forjadas num país marcado por 30 golpes de Estado na sua miserável e violenta história. Problemas esperados Portanto, havia uma triste previsibilidade que o caos novamente iria tomar conta de metade da ilha caribenha de Hispaniola. Desde que 20 mil soldados americanos brevemente ocuparam o Haiti em 1994 para restaurar o presidente Jean-Bertrand Aristide no poder, era uma questão de tempo até uma nova degringolada. De um lado, um regime acusado de corrupção, desmoralizado e que teria fraudado eleições parlamentares, mas ainda com uma base popular. Do outro, uma colcha de retalhos que inclui desde ex-aliados de Aristide a bandidos da pior espécie. No meio, o desespero de uma população. Isto é o Haiti. Não é à toa que o ex-presidente Bill Clinton despachou as tropas com relutância em 1994 e não via a hora de cair fora. A invasão recolocou no poder Aristide, o primeiro presidente eleito democraticamente no Haiti, mas que fez muito pouco para construir instituições como um Judiciário independente e forças de segurança relativamente honestas. Protegendo o investimento Com cinismo e em alusão à impaciência americana, James Morrell, do Projeto Democrático Haitiano em Washington, diz que ''é preciso ficar para proteger o investimento"'. De fato, algumas centenas de milhões de dólares e um par de anos são insuficientes para construir um país. E com alguém como o ex-padre Aristide, o retorno deste investimento é muito mais improvável. Imensamente popular junto às massas na transição de resistente a governante, o presidente tinha pouco a oferecer de concreto. Ainda por cima mostrou-se ineficiente e recorreu cada vez mais a táticas truculentas. No lugar dos tontons macoutes da ditadura Duvalier, agora são as gangues armadas do poder popular. Jocelyn McCalla é uma das mais influentes ativistas haitianas nos EUA. Diz que "ninguém é inocente nesta história". Ela lembra que, na época de Clinton, o governo americano só mergulhou profundamente na crise haitiana porque milhares de refugiados apareceram nas costas da Flórida. Clinton precisou agir diante do espetáculo de 70 mil refugiados entre 1991 e 1994. Desprezo No governo Bush, até semanas atrás, existia uma relutância ainda maior para se engajar e, ao lado de outros países estrangeiros, oferecer algum tipo de mediação. Bush nunca escondeu seu desprezo por Aristide, um antigo adepto da teologia da libertação, e as mensagens sobre a importância de preservá-lo no poder eram ambíguas. As prioridades americanas são impedir uma guerra civil em larga escala, que gere uma nova onda de refugiados, e conseguir algum tipo de remendo político -baseado em partilha do poder e menos atribuições para Aristide - que torne desnecessária uma intervenção militar em larga escala. O acuado presidente topou, mas na terça-feira a oposição disse não e insiste na renúncia de Aristide. É um cenário que reduz a margem de manobra diplomática para os Estados Unidos e demais países engajados na mediação da crise. Vale repetir que existe uma triste previsibilidade no Haiti. Já estão sendo preparados os planos de contingência para acolher 20 mil refugiados na base americana de Guantánamo, em Cuba. |
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