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Atualizado às: 08 de fevereiro, 2004 - 17h57 GMT (15h57 Brasília)
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O sofrimento silencioso da Coréia do Norte

Praça Kim Il-sung na Coreia do Norte
Os prédios do governo estão na praça Kim Il-sung.
Enquanto os líderes da Coréia do Norte gastam milhões comprando armas do exterior, a população continua desesperadamente pobre.

Kim foi o primeiro norte-coreano que eu já encontrei.

Não tenho certeza do que esperava, talvez um robô com a cara fechada.

Ao contrário, lá estava Kim, sorrindo e acenando através da janela empoeirada do meu trem, na chegada à estação de Pyongyang.

Crocodilo de Ortega

"Bem vindo a Pyongyang", disse Kim, sacudindo minha mão com entusiasmo. "Como foi de viagem?"

Havia sido longa e demorada. O trem se arrastou pelos 240 km da fronteira com a China por dez horas.

"Foi ótima", eu disse a Kim, determinado em ser agradável.

Visitantes a este reino eremita seguem um roteiro pré-determinado.

As visitas são, na verdade, uma turnê aos monumentos em homenagem à Kim Il-sung, o fundador da Coréia do Norte.

Durante os três dias seguintes, Kim me acompanhou ao local de nascimento do grande ditador, à sua escola e à sua estátua de 30 metros no centro de Pyongyang.

No entanto, o meu favorito foi o “Museu dos Presentes”, dados por dignatários internacionais, meio milhão de presentes.

O museu é escavado dentro de uma montanha, cerca de 160 km ao norte da capital Pyongyang.

Os que contribuiram poderiam integrar um guia “quem é quem” dos bandidos do século vinte.

Estão lá um trem blindado dado por Stalin, um rifle de caça dado por Nicolai Ceaucescu, e uma espada de ouro maciço dada pelo Coronel Gadafi.

O primeiro prêmio, no entanto, para falta de gosto vai para o revolucionário nicaraguense Daniel Ortega.

Ele enviou um crocodile empalhado, apoiado nas suas patas traseiras e carregando uma bandeja de bebidas. Certamente algo que todo ditador deve ter.

Poucos voltam

Ao longo da turnê Kim permaneceu calado.

O que ele acharia deste monumento à corrupção e mau gosto, eu me perguntava.

Na verdade, Kim é um dos poucos privilegiados da Coréia do Norte.

Ele já esteve no mundo exterior.

"Onde você foi?" Eu perguntei.

"Fui à China e à Cingapura," ele disse.

"De qual você gostou mais?" perguntei.

"Obviamente Cingapura," ele disse com melancolia. "É um lugar muito civilizado."

Me perguntei como um homem que havia visto por si mesmo a modernidade e liberdade de Cingapura poderia ainda acreditar na Coréia do Norte.

Oficialmente, a Coréia do Norte é um paraíso na Terra, comandada por um gênio benevolente.

Na verdade, a vida no país é brutal.

A sua economia é falida e o povo está a beira de morrer de fome.

Mesmo a menor critica ao regime pode ser suficiente para enviar uma pessoa ao Gulag, de onde poucos retornam.

Brinde

Quando pegamos a estrada de volta à Pyongyang, começou a nevar fortemente.

De repente, vi uma multidão de pessoas na estrada.

"O que eles estão fazendo?" perguntei a Kim.

"Eles estão varrendo a estrada", Kim disse com um sorriso amargo. Ele não estava brincando.

Por todo o caminho de volta à Pyongyang, cruzamos com ilhares de camponeses varrendo a Estrada.

Ao nos aproximarmos da capital, cruzamos com outra multidão, desta vez centenas de crianças marchando no frio cortante, carregando bandeiras vermelhas e entoando cânticos.

"o que eles estão fazendo" perguntei novamente.

"Eles marcham para encorajar os pais a trabalharem mais ", disse Kim.

Anoitecia quando entrávamos nas ruas desmanteladas de Pyongyang. Não existe iluminação pública.

Na escuridão, pude ver milhares de pessoas caminhando com dificuldade para casa pela neve.

Pensar não é permitido

Durante minha viagem, Kim não pediu por nada.

Ouvi relatos de guias pedindo presentes caros, mesmo dinheiro, mas Kim não fez isso.

Então, no ultimo dia, ele virou para mim no carro.

"Você teria algum livro consigo?" ele perguntou. "Gosto muito de ler livros em inglês."

Me compadeci pore le. Aqui estava um homem de cérebro, alguém que fala três línguas fluentemente, aprisionado em uma sociedade onde pensar não é permitido.

Em nossa última noite juntos, eu convidei Kim para jantar.

Ao bebermos o forte licor norte-coreano, brindamos a amizade eternal entre os povos da Grã-Bretanha e da Coréia do Norte.

Kim então, me olhou com uma expressão muito séria.

"Então, o que você acha da Coréia do Norte?" ele perguntou.

Por algum motivo, eu podia dizer que esta não era uma pergunta de cortesia. Ele realmente queria saber.

Me esforcei para dar uma resposta que fosse ao mesmo tempo educada e honesta.

“Acho que é um pena”, eu disse, “que um país e um povo com tanto potencial não está tão bem quanto poderia estar."

Kim se enclinou de volta em sua cadeira e suspirou profundamente.

"Acho que você está certo", ele disse, "acho que você está certo."

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