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Análise: Se praticamente todos erraram, de quem é a culpa?
Se praticamente todos erraram de quem é a culpa? A questão resulta do exímio discurso burocrático praticado em entrevistas à imprensa e no depoimento no Senado por David Kay, o ex-chefe das investigações americanas, sobre o até agora inexistente arsenal de armas de destruição em massa no Iraque de Saddam Hussein. Kay é claro em um ponto: é altamente improvável que exista o arsenal. Essa posição de profunda desconfiança contrasta de forma flagrante com a certeza que a administração Bush manifestava até tempos atrás e que servia para justificar a invasão do Iraque. Mas essa franca avaliação nem de longe leva Kay a insinuar que o presidente Bush e aliados como Tony Blair enganaram o mundo de forma deliberada. Bush absorveu as informações que melhor se ajustavam ao seu julgamento sobre o Iraque. Vincent Cannistraro, um dos mais importantes funcionários da CIA durante o governo Reagan, toca num ponto interessante. Por mais técnico que seja o material produzido por agências como a CIA, os analistas operam em um "ambiente político". Desinformação De qualquer forma, Kay dá mais importância às falhas e aos exageros da CIA do que às responsabilidades da Casa Branca. Mais do que isto, ele dilui as responsabilidades ao apontar uma falha global de inteligência. Para Kay, até Saddam Hussein foi vítima de uma campanha de desinformação, pois cientistas iraquianos (corruptos ou covardes) mentiram sobre os planos de desenvolvimento das armas. Na defensiva, a Casa Branca rapidamente se apropriou do argumento da falha global de inteligência para se proteger. Em primeiro lugar, no contra-ataque do governo Bush, a inteligência sobre Iraque era igual a de governos anteriores. O segundo ponto é que a crença sobre o arsenal era compartilhada por serviços secretos estrangeiros e nada mais saboroso para os aliados de Bush do que citar o presidente francês Jacques Chirac, que antes da invasão advertiu sobre "a provável posse de armas de destruição em massa por um país incontrolável, o Iraque". Com veneno, um editorial do Wall Street Journal recordou que o senador John Kerry, favorito nas primárias democratas, votou a favor na resolução sobre a guerra no Congresso, após ter tido acesso a material de inteligência e dizer que acreditava na existência do arsenal de Saddam Hussein. Nada disso, é claro, impede os democratas de usarem a munição fornecida por Kay como arma de destruição eleitoral. Alarmismo Joseph Cirincione, do Instituto Carnegie, em Washington, diz que há dimensões diferentes de responsabilidades nesta falha global de inteligência. Para ele, o governo Bush transformou as suspeitas que existiam no governo Clinton em alarmismo. Michael O' Hanlon, do Instituto Brookings, também em Washington, conclui que a Casa Branca "dramatizou uma ameaça que não era iminente". David Kay foi inspetor de armas da ONU e ele compartilhava o ceticismo da Casa Branca sobre a retomada das inspeções. Agora ele acredita que estas investigações e o cerco internacional foram muito efetivos para levar o Iraque a abandonar seus programa de armas de destruição em massa nos anos 90. A saída dos inspetores do país ajuda a explicar as falhas de inteligência, pois agências como a CIA passaram a ter mais dificuldades para colher informações e distinguir entre as intenções de Saddam Hussein e a realidade. No máximo, o governo Bush admite que houve algumas falhas de inteligência e descarta a convocação de um inquérito independente, como aconteceu na Grã-Bretanha. Até as eleições A Casa Branca insiste que o trabalho dos seus inspetores (agora com a chefia de Charles Duelfer no lugar de David Kay) deva continuar. Como seu antecessor, Duelfer está cético que alguma coisa será encontrada, mas por enquanto não fixa um prazo para o término das investigações. Arrastar estas investigações, de preferência além das eleições de novembro, obviamente interessa ao governo Bush. Melhor ainda é mudar de assunto e dizer que a invasão foi empreendida essencialmente para derrubar um regime tirânico e não porque representava uma ameaça clara e iminente. Ken Pollack, um ex-analista da CIA que martelava na tecla que a invasão do Iraque era justa e necessária em razão da ameaça de armas de destruição em massa, diz que sem as provas é preciso se render às evidências que o governo americano foi leviano. Houve uma falha global de inteligência, mas a decisão política de ir à guerra foi de George W. Bush. |
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