|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Tudo dependerá da economia em 2004
Se em 2003 a política foi decisiva para que Lula superasse com sucesso as enormes dificuldades do início de seu governo, em 2004 tudo dependerá da performance da economia. É verdade que o presidente encerra o ano montado em altos índices de popularidade _ para 42% dos entrevistados pelo Datafolha em dezembro, o desempenho de Lula vem sendo bom ou ótimo, percentual praticamente idêntico aos 43% registrados em março. Mas há sinais claros de que essa avaliação positiva está estreitamente ligada à percepção de que a retomada do crescimento econômico é questão de tempo _ e de pouco tempo. Quanto a isso, o governo está otimista. O que mais se ouve no Ministério da Fazenda e no Banco Central é que um crescimento de 3,5% no ano que vem "está na mão". 'Sem besteiras' Ou seja, não seriam necessários milagres ou medidas heróicas para atingir esse patamar. Bastaria não fazer besteiras. Depois do dramático "cavalo de pau" de 2003, a economia já teria entrado em rota de recuperação, com quase todos os indicadores apontando para um cenário positivo: risco-país em queda, dólar estável, inflação sob controle, contas externas equilibradas, juros declinantes, investimentos em ascensão etc. Os próximos quesitos a entrar na fila das boas notícias seriam justamente aqueles que mais afetam o dia-a-dia dos brasileiros: o crescimento da produção, a geração de empregos e a elevação da renda do trabalhador. Os economistas do governo apostam que, em poucos meses, os progressos nessas áreas também serão evidentes. Se isso se confirmar, o governo terá todos os motivos do mundo para comemorar. Como cada ponto de crescimento no PIB gera aproximadamente 500 mil empregos novos, e como entram no mercado de trabalho por ano cerca de 1,5 milhão de pessoas, um crescimento de 3,5% ou 4% da economia, pelo menos, impediria o aumento do estoque de desempregados. Alguns dirão que isso é pouco _ e com razão. Mudança de clima Afinal, o Brasil precisa abater sua dívida social, e não estabilizá-la. Mas, num país que, na economia, vem de duas décadas de anda-um-pouquinho-pára-um-pouquinho e vegetou no último ano, embicar para cima já é o bastante para mudar o clima. E aí voltamos à política. Em outubro, teremos eleições municipais _ e elas serão uma prova de fogo para o governo Lula. Embora muita gente boa goste de dizer que, em eleição para prefeito, o povo não julga presidente, penso diferente. Tudo bem, o eleitor de municípios longínquos ou pouco populosos vota basicamente em cima de questões locais. Mas, nos grandes centros, nas capitais de Estado, nas cidades com mais de 200 mil eleitores, onde há opinião pública e dois turnos, o embate político é bem mais complexo: os atores, embora locais, mexem-se num ambiente nacional. Temas como emprego, renda, segurança, saúde, educação etc., mesmo não sendo da responsabilidade dos prefeitos, sempre acabam subindo no palanque. Eleições passadas Quem tiver dúvidas recorra às eleições de 1996 e 2000. Na primeira, os aliados de Fernando Henrique nadaram de braçada _ era o tempo do real igual ao dólar. Já na última, realizada em plena ressaca da desvalorização cambial, o PT federalizou a campanha e se deu bem. Quando as urnas foram abertas, o país era outro: a sucessão presidencial estava deflagrada, FH caíra definitivamente na defensiva e Lula deixara de ser um cabra marcado para morrer, passando a constituir uma alternativa real de poder. O país queria mudanças _ e as eleições municipais haviam deixado isso claro. E agora em 2004? Lula pode ter diante de si o melhor dos mundos: o cruzamento do calendário eleitoral com a curva da retomada do crescimento da economia. Se o desemprego começar a ceder lá para abril ou maio, como prevêem os técnicos do governo, o PT e seus aliados enfrentarão a disputa eleitoral com um discurso redondo e _ quem sabe? _ convencerão boa parte dos eleitores de que estão fazendo um bom trabalho no governo. No mínimo, empatarão a briga. Se os ventos da economia forem mais favoráveis, porém, poderão ir ainda mais longe, criando um ambiente favorável à reeleição de Lula. E, como o poder atrai aliados, mas a perspectiva de poder atrai ainda mais, o governo teria, então, uma boa chance de consolidar sua base político-parlamentar na segunda metade do mandato do presidente. Mas tudo depende da economia... E a economia costuma ter razões que os próprios economistas desconhecem. |
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||