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Desmobilização de paramilitares causa polêmica na Colômbia
A desmobilização dos 855 paramilitares de extrema direita iniciada nesta terça-feira traz muito mais dúvidas do que certezas à possibilidade de pacificação do país. Ninguém sabe o que ocorrerá com eles depois das escassas três semanas que passarão confinados, participando de programas educativos, capacitação profissional e atenção social e psicológica. Defensores de direitos humanos na Colômbia temem que eles sejam perdoados dos crimes bárbaros cometidos nos últimos anos, como massacres, assassinatos seletivos e seqüestros. “É um gesto publicitário, para mostrar à opinião pública que eles têm vontade de paz”, afirma o cientista político Mauricio Romero, que lançou recentemente um livro sobre o fenômeno paramilitar colombiano. “Esta boa vontade deles não corresponde à realidade, porque, em muitas partes do país, eles seguem recrutando combatentes, não pararam com as matanças e os seqüestros, e não cortaram os vínculos com o narcotráfico”. Fracasso Segundo Romero, esta desmobilização não é convincente e deve se transformar em um novo fracasso para o governo, depois do referendo realizado há um mês. De acordo com ele, após as três semanas de cursos, os jovens voltarão à vida anterior, vinculados aos programas de segurança das Forças Armadas, ou como membros de grupos de delinqüentes juvenis. No último domingo, o jornal El Tiempo entrevistou um integrante do grupo de 855 desmobilizados, gerando mais incertezas sobre o processo. O jovem garantiu que não entregaria todas as suas armas e, depois das três semanas de treinamento, retornaria ao negócio de venda de maconha. O cientista político Mauricio Romero ressalta que foi estratégica a opção de iniciar a desmobilização dos paramilitares com o Bloco Cacique Nutibara (BCN), um dos blocos menos conhecidos das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) e acusado de ter fortes vinculações com o narcotráfico. “A desmobilização destas pessoas não colocará em risco a força militar e o controle territorial das AUC em Medellín e nas cidades próximas”, disse. “Os rumores surgidos nos últimos dias, de que a maioria destas pessoas não seriam paramilitares, parecem ser verdadeiros. Alguns, podem ser simpatizantes e matadores de aluguel; outros, membros de companhias de segurança que têm relação com comandantes das AUC”. Romero afirma, no entanto, que as forças rurais das AUC na região, as que relamente controlam a política e o território permanecerão intactas. Há algumas semanas, integrantes do BCN afirmaram que o grupo era integrado por 3 mil pessoas. Inexplicavelmente, ninguém sabe o que passou com os outros 2,2 mil integrantes, já que os principais líderes garantem, agora, que todos eles participaram da desmobilização desta terça-feira. Incertezas O analista militar Alfredo Rangel também assinala que o BCN não figura entre os mais violentos das AUC. Para ele, a desmobilização desse grupo é apenas o primeiro passo de um caminho cheio de incertezas. “Essa primeira etapa não garante o sucesso do processo de desmobilização”, afirmou. “Ninguém sabe que posição assumirão os paramilitares se o governo decidir colocar alguns deles na cadeia, ou mandar para os Estados Unidos os líderes ameaçados de serem extraditados, devido ao envolvimento com o narcotráfico. Estas dúvidas não serão solucionadas neste momento.” Na avaliação do deputado Gustavo Petro, o ato simbólico de entrega de armas dos paramilitares ocorrido na manhã desta terça-feira no centro de Medellín foi a maneira encontrada pelo governo para ocultar as verdadeiras discussões que trazem um processo de negociação de paz com grupos da extrema-direita. “Qualquer pessoa acostumada com a violência colombiana ficaria emocionada ao ver centenas de jovens abandonando suas armas, mas isto é uma farsa”, disse. “A real intenção do presidente Álvaro Uribe é anistiar narcotraficantes escondidos dentro das AUC, como Don Berna, principal líder do BCN. Ele é o herdeiro de Pablo Escobar, um dos maiores narcotraficantes de cocaína do mundo, que deseja viver legalmente em Medellín”. Petro se refere ao projeto de lei do governo que pretende dar liberdade condicional e castigos simbólicos a membros de grupos armados ilegais que participem de negociações de paz. Ele destaca que esta proposta foi feita para que os paramilitares sigam com as múltiplas matanças de camponeses, campanhas de aniquilamento de sindicalistas, simpatizantes da esquerda e ativistas dos direitos humanos. ‘Paródia’ Durante a solenidade de hoje, o chefe político das AUC, Carlos Castaño, mandou um recado aos congressistas. Ele disse que a proposta do governo não foi discutida pelo grupo, mas deveria servir como instrumento para facilitar a desmobilização de outros paramilitares no país. Na última semana, ele pediu ao governo colombiano assinar um acordo com Estados Unidos, dando imunidade aos paramilitares que participem de um processo de paz. José Miguel Vivanco, diretor da organização não-governamental Human Rights Watch, classificou a desmobilização dos paramilitares como “uma paródia, um espetáculo de impunidade”. “Foi um show televisivo, em que o mais grave foi vermos o alto comissário de paz do governo participar do espetáculo junto com pessoas que cometeram milhares de massacres e são pedidas em extradição pelos Estados Unidos”, afirmou. De acordo com ele, o projeto de lei do governo é pior que uma anistia, a legalização do paramilitarismo. Segundo Vivanco, os paramilitares resolveram negociar porque os Estados Unidos pediram a extradição de seus principais líderes. Para ele, os responsáveis por atrocidades devem ser punidos e o governo americano deve se opor agressivamente ao projeto de lei que está sendo discutido no Congresso. Terras Conforme Petro, outra falha na negociação com as AUC é a ausência de uma discussão sobre o que ocorrerá com os mais de 6 mil hectares de terras altamente produtivas compradas pelos paramilitares com dinheiro ilícito. “Quem pensa que este é um processo de paz, está enganado”, assinalou. “É um processo que justifica a lavagem de dinheiro”. Outras organizações defensoras dos direitos humanos na Colômbia reclamam que a negociação com as AUC deixam sérias dúvidas, como quem são as pessoas que entregaram as armas hoje, que tipo de trabalho realizarão no futuro e se podem realmente ser integrados à sociedade civil depois de apenas três semanas de treinamento. |
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