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Atualizado às: 14 de outubro, 2003 - 22h34 GMT (19h34 Brasília)
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Bogotá recebe 40 deslocados todos os dias

Local de explosão ocorrida em agosto
A violência tem feito com que milhares deixem suas casas

Nas principais ruas de Bogotá, uma das faces mais tristes do conflito interno colombiano é visível. Mulheres carregando filhos pequenos e portando cartazes mal escritos explicam os seus dramas e se queixam da indiferença das pessoas.

Elas integram o exército de deslocados internos, que vive um exílio dentro do próprio país, tentando escapar dos combates entre as guerrilhas marxistas, os paramiliares de direita e os militares que brigam pela terra, por princípios ideológicos e pelas drogas.

Apenas em Bogotá, chegam pelo menos 40 deslocados todos os dias. De acordo com a organização não-governamental Consultoria para os Direitos Humanos e o Deslocamento (Chodes), o número de colombianos que foram obrigados a abandonar suas casas já chega a três milhões.

No mundo, apenas o Sudão supera a Colômbia nesta tragédia humanitária, como define organizações ligadas aos direitos humanos.

Esmola

Dóris Piedad Mosquera fugiu de seu povoado em Boyacá depois que sua família foi ameaçada de morte por guerrilheiros. Com o marido doente e dois filhos, de cinco e quatro anos, ela pede esmola na zona norte da capital colombiana.

“Tenho dois primos na região de Boyacá que são policiais. Por causa disso, nos consideraram colaboradores da polícia, e tive de sair de lá com meus pais, minhas três irmãs, meu marido e meus filhos”, explica Dóris.

“Saímos com medo de sermos mortos, mas preferíamos continuar vivendo na nossa terra. Lá, podíamos cultivar nossa comida. Não era necessário nos humilhar por uma moeda”, afirma.

Dóris vive a duas horas de Bogotá, numa cidadezinha onde a presença guerrilheira é muito forte. Sem contar com qualquer ajuda do governo e temendo ser ameaçada novamente, caso descubram seus vínculos familiares, ela acredita que terá de buscar outro lugar para morar.

Fugindo da violência

Junto com Luz Divia Arango, outras 200 pessoas fugiram de Rio Blanco, em Tolima, para não ficar no fogo cruzado entre paramilitares e guerrilheiros.

Eles tiveram de caminhar por mais de dez horas até encontrar um albergue. Depois, foram encaminhados para uma fazenda, onde o marido de Luz Divia foi assassinado.

Atualmente, ela vive em Ciudad Bolívar, um dos bairros mais pobres e violentos de Bogotá, numa casa feita com latas e papelão. Com as faxinas que faz duas ou três vezes por semana, tenta sustentar seus cinco filhos.

“A vida tem sido muito dura para mim. Lá tínhamos uma fazenda e trabalhávamos como empregados em outra. Mas, tivemos de deixar tudo”, lembra Luz Divia.

“Como não tenho trabalho fixo, sou diarista, alguns dias passamos fome. O que eu ganho não alcança para alimentar meus meninos”, afirma.

Vida transformada

Segundo Jorge Rojas, diretor da Codhes, o drama vivido por Dóris e Luz Divia se assemelha ao dos outros deslocados pela violência.

De acordo com ele, a maioria são pessoas do campo, que levavam uma vida simples mas digna que, no entanto, foi transformada de um dia para o outro quando grupos guerrilheiros, ou paramilitares, chegaram às suas regiões.

O drama atinge mais de 900 das 1098 cidades colombianas. Algumas vezes, as pessoas escapam individualmente, ou em família. Em outras ocasiões, toda a comunidade decide fugir dos enfrentamentos armados, dos massacres, ou do recrutamento forçado de um dos grupos ilegais.

Drogas

Também tentam escapar do assédio dos traficantes de drogas, para que se cultivem coca.

“Infelizmente, os deslocados não têm tido a oportunidade de justiça, nem de verdade, ou de reparação”, afirma Rojas. “A situação deles segue sendo muito crítica, sem que o Estado tenha ressarcido seus direitos”.

Desta população deslocada, chamada no país de ‘desplazados’, 70% são mulheres e crianças.

“O governo reconhece a gravidade do problema, uma crise humanitária que ultrapassou a capacidade institucional”, diz Luis Alfonso Hoyos Aristizábal, diretor da Rede de Solidariedade Social, organismo estatal encarregado pelo tema do deslocamento.

“Tentamos amenizar o problema levando alimentos para aqueles que vivem no campo, garantindo a presença da Polícia ou do Exército e agilizando o sistema de comunicação para sabermos quando ocorre algum incidente”, afirmou.

Crise humana

Na avaliação de Hoyos, por conta desta ação governamental, a tendência crescente do número de novos deslocados, 81% em 2001 e 140% em 2002, foi reduzida em 2003.

Segundo a Codhes, no primeiro semestre foram registrados 117 mil, contra 220 mil em igual período do ano passado.

“Estes números não querem dizer que houve uma redução. Ocorreu uma contração, explicada pelo recuo das ações militares guerrilheiras e a trégua decretada pelos paramilitares”, assinala Rojas. “No entanto, há um aumento significativo dos confinamentos”.

Segundo o diretor da Codhes, em várias regiões do país, as pessoas estão impedidas de sair das zonas de conflito. Guerrilheiros e paramilitares se converteram em uma espécie de exército de ocupação, negando às pessoas o direito à mobilidade.

William Spindler, oficial Regional de Informação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), confirma a versão de que muitas comunidades estão sitiadas.

“A situação na Colômbia é crítica. Estamos falando de uma grande crise humanitária, a mais grave do continente americano”, afirma Spindler.

Ele explica que o impacto do deslocamento é enorme na sociedade e na economia colombiana. “Cada vez que alguém deixa o campo é uma pessoa a menos produzindo alimentos e um desempregado a mais nas cidades”.

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