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Atualizado às: 14 de outubro, 2003 - 22h16 GMT (19h16 Brasília)
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Freiras brasileiras ajudam deslocados na Colômbia

Rebeldes e soldados na Colômbia
Conflito na Colômbia já deixou milhares de deslocados

A gaúcha Égide Benedetto algumas vezes precisa se esforçar para conter as lágrimas, durante o seu trabalho em Bogotá. Há mais de uma década, a religiosa ajuda deslocados, pessoas que fogem do sangrento conflito interno que matou mais de 40 mil pessoas na última década na Colômbia.

"É muito difícil quando escuto um pai de família recém chegado a Bogotá dizer que não tem onde dormir, não sabe como encontrar comida para alimentar seus cinco, seis filhos, ou que acorda tarde, porque tem apenas o almoço para dar a eles", diz a irmã Égide.

Segundo ela, as histórias são muito tristes. "Às vezes é preciso se segurar para que eles não percebam que a gente tem vontade de chorar. Mas temos de nos manter firmes, porque precisamos animá-los", afirma.

Junto com outras três brasileiras, a irmã Égide administra o Centro de Atenção ao Migrante (Camig), criado em 1995 pela Arquidiocese de Bogotá, para atender pessoas vindas de diferentes partes da Colômbia. O obejtivo é escapar da violência protagonizada por paramilitares de direita e guerrilheiros esquerdistas.

Sem política

Elas integram a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlo Borromeo Scalabrinianas, cuja missão na Igreja Católica é o serviço evangélico e missionário aos migrantes.

No Camig, as religiosas atendem cerca de uma centena de deslocados todos os dias. No ano passado, elas ajudaram 12 mil e 500 famílias. Nos primeiros seis meses de 2003, mais de sete mil.

Apesar de Bogotá ser a cidade com o maior número de deslocados no país, de acordo com a organização não-governamental Consultoria para os Direitos Humanos e o Deslocamento (Codhes), a capital não conta com políticas para a prevenção, proteção, atenção humanitária e recuperação econômica, psicológica e social das famílias que tiveram de deixar suas terras para proteger a própria vida.

“Por conta da ausência dessas políticas, o trabalho da igreja e das organizações não-governamentais é fundamental para diminuir o drama dos deslocados colombianos”, afirma Jorge Rojas, diretor da Chodes.

Janete Ribeiro, diretora do Camig, informa que as pessoas chegam apenas com a roupa do corpo, necessitando de tudo, desde uma escova de dentes até um lugar para ficar.

“Graças a Deus contamos com a colaboração das paróquias, da comunidade e de algumas empresas. Isso nos ajuda a amenizar um pouco o sofrimento destas pessoas”, diz a irmã Janete, maranhense de Imperatriz e há 11 meses vivendo na Colômbia.

As pessoas atendidas pelo Camig recebem desde comida, alojamento, dinheiro para o primeiro mês de aluguel na cidade e apoio espiritual, até capacitação professional e atendimento psicológico.

Dignidade

Além do Camig, elas também contam com uma espécie de sucursal na estação rodoviária de Bogotá.

É lá que trabalha a irmã Eli Ana Rui, que chegou em janeiro deste ano para sua segunda temporada no país. Em 1994, a catarinense passou um ano na cidade de Cali, onde as religiosas Scalabrinianas iniciaram seu trabalho na Colômbia.

“Na estação rodoviária, a administração, os vigilantes e os policiais conhecem o nosso trabalho e encaminham as famílias que chegam perdidas, sem saber o que fazer ou para onde ir”, diz a irmã Eli.

“Tentamos fazer de tudo para ajudá-los. Porém não conseguimos realizar o grande desejo deles de voltar para suas terras. Para isso seria necessário eliminar o problema, acabar com o conflito interno colombiano”, afirma.

Segundo a irmã Teresinha Monteiro, uma das facetas mais importantes do trabalho delas é destacar o valor humano dos deslocados.

“Ressaltamos que eles são pessoas dignas, que não devem sair por aí pedindo esmola, mas buscar um meio de subsistência”, conta a irmã Teresinha.

“A gente vê tanta tristeza, tanta desgraça nas histórias deles. Mas, graças a Deus, temos a missão e sabemos como ouvir e acolher estas pessoas, dando toda a atenção que eles necessitam”, afirmou a irmã.

Scalabrinianas

Égide Benedetto lembra que no começo não sabia direito o que fazer. Mas, com o tempo, com o dia-a-dia, foi aprendendo com eles. Aos poucos, ela descobriu a melhor maneira de ajudá-los, de orientá-los, sempre com uma voz de alento e de esperança.

As quatro brasileiras foram parar na Colômbia porque a congregação delas ainda é pequena no país andino. Na realidade, apesar da congregação ter nascido na Itália, em 1895, o Brasil reúne o maior grupo de missionárias.

O fundador foi João Batista Scalabrini, que definiu a missão de atender e assistir os emigrantes italianos que partiram para o Brasil. Um mês depois da fundação, chegaram as primeiras missionárias ao país.

As Scalabrinianas iniciaram sua missão em São Paulo e depois estenderam-na ao Rio Grande do Sul. Hoje, estão presentes na maior parte dos estados.

Muitas irmãs brasileiras estão realizando suas atividades nos 23 países onde as Scalabrinianas estão atuando.

Mas, de acordo com Janete Ribeiro, nenhum país supera o Brasil.

“Muitos brasileiros reclamam do nosso país sem razão. Depois de conhecer vários lugares no mundo, tenho a certeza de que o Brasil é o melhor para viver. As pessoas se confraternizam, se ajudam mais”, afirma a irmã.

Com relação à Colômbia, ela não tem muita fé de ver o país livre do conflito interno em 10 anos. Segundo a irmã, quanto mais o governo colombiano aperta os grupos armados ilegais, mais barbaridades acontecem.

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