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Atualizado às: 01 de setembro, 2003 - 19h36 GMT (16h36 Brasília)
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Análise: O que está por trás das manobras de Kadafi

Coronel Kadafi
Concessões de Kadafi: fraqueza política ou mais uma manobra diplomática

Desde que chegou ao poder com um golpe militar contra o idoso rei Idris, que estava ausente do país recebendo tratamento em um spa na Turquia em 1969, o líder líbio, coronel Kadafi, tem sido um mestre em manobras mirabolantes.

Resta saber se a última - um acordo para aumentar o valor da compensação pelo atentado a bomba contra um avião DC-10 da companhia francesa UTA em 1989 - representa mais um inteligente golpe diplomático ou é um sinal de fraqueza de uma figura cada vez mais desesperada para se livrar de seus inimigos a qualquer custo.

Certamente ele não podia permitir que a França bloqueasse uma resolução da ONU retirando formalmente as sanções contra o seu país. Mas a posição anterior da Líbia era que um tribunal francês já havia estabelecido a compensação pelo atentado contra a UTA em 1999, e o país não faria mais pagamentos.

O tribunal decidiu por US$ 33 milhões em compensação, uma quantia modesta se comparada aos US$ 2.7 bilhões pagos pelo atentado contra um avião da Pan Am, obtidos após negociações diretas com a Líbia pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha.

Estratégia

Então Kadafi está sendo forçado a partir para a ofensiva, para justificar suas ações. Ele reforçou a retórica, como que para se proteger contra críticas internas.

Em um discurso marcando o aniversário de seu golpe, ele apresentou o acordo francês e o acordo de Lockerbie, assim como uma oferta para pagar compensação pelo bombardeio da casa noturna La Belle, em Berlim, em 1986, como simplesmente uma forma de defender a Líbia usando dinheiro.

E foi isso o que ele disse: "Deus amaldiçoe o dinheiro! Para que serve o dinheiro? Com o dinheiro nós defendemos nosso país. Eu acredito que os incidentes da UTA e de Lockerbie já ficaram para trás, e nós, com a ajuda de Deus, entramos em uma nova era."

A transcrição do Serviço de Monitoramento da BBC (que registra o que aparece na mídia em todo o mundo) mostrou aplausos após essa declaração.

Kadafi prosseguiu: "Com sabedoria, a coragem dos líbios e a astúcia em conduzir a batalha estratégica, em administrar esse perigoso conflito com poderes nucleares, dinheiro não é importante. Nós temos nossa dignidade e não estamos interessados em dinheiro. Nós vivemos uma nova era com o Ocidente."

Ele citou outras maneiras pelas quais a Líbia havia "lutado com coragem na batalha pela libertação". A lista incluía desde o apoio aos palestinos com armas até o fornecimento de botes de borracha aos egípcios para que eles cruzassem o Canal de Suez em sua guerra contra Israel, em 1973, e o apoio a movimentos de libertação por toda a África.

"Nós libertamos a África do Sul, o Zimbábue, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Angola", declarou ele. Kadafi não mencionou seu apoio ao IRA, que foi substancial.

"Agora, estamos colhendo os frutos da nossa luta, a África está conosco, os povos estão conosco e nos apóiam. Nossa voz é ouvida e respeitada", disse o líder líbio.

Defesa

O que era diferente, agora, sugeriu Kadafi, era a forma como a Líbia e sua causa estavam sendo defendidos.

Trata-se de uma nova defesa, e não está claro se ela vai convencer os líbios, que talvez intimamente estejam bastante irritados com o valor das compensações.

Em troca, é claro, a Líbia vai ter as sanções da ONU, já suspensas, formalmente retiradas, mas o país ainda não está livre de todas as sanções. As americanas continuam valendo, ao menos por enquanto.

O especialista em Líbia Tim Nibblock, da Universidade de Exeter, apontou uma razão por trás das decisões de Kadafi.

"O Coronel Kadafi e aqueles que o cercam devem estar sentindo que as coisas irão mal para os regimes que não estão em paz com os Estados Unidos."

O professor Nibblock disse à BBC que, no caso do avião da UTA, havia um incentivo extra.

"Não apenas a França poderia bloquear a retirada das sanções da ONU, mas também é interessante para a Líbia não ser vista cedendo aos americanos no caso Lockerbie. É importante para a Líbia estar em acordo com os europeus também. Kadafi quer ter boas relações com ambos os Estados Unidos e a União Européia."

Os interesses ocidentais

O Ocidente tem interesse em extrair os dentes do tigre líbio.

Mas, visto o ocorrido com Saddam Hussein, o Coronel Kadafi pode se julgar com sorte por ter sobrevivido.

É pouco provável que um ataque a um avião civil americano hoje em dia trouxesse menos do que uma violenta troca de regime para os responsáveis.

De alguma forma, o cronel conseguiu escapar. Não teve o mesmo destino de Sadam Hussein, mas teve de pagar um preço financeiro. Os Estados Unidos foram os mais relutantes em fazer o acordo e a França, a mais entusiasmada, enquanto a Grã-Bretanha adotou uma posição intermediária, como de costume.

Mas todos concordam que o coronel está de sobreaviso e sabe que qualquer ação terrorista no futuro encontrará uma resposta severa.

Os principais problemas de Kadafi daqui para a frente podem partir dos próprios cidadãos líbios.

Um viajante que esteve na Líbia há alguns meses disse que nunca tinha ouvido críticas tão abertas ao governo líbio antes.

O comentário não significa que o fim do Coronel Kadafi esteja próximo. Mas pode ser um sinal de que - mesmo entre os líbios - ele perdeu o prestígio que buscou tão ardentemente.

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