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Atualizado às: 28 de agosto, 2003 - 15h38 GMT (12h38 Brasília)
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Blair diz que caso Kelly poderia tê-lo levado à renúncia

Tony Blair, primeiro-ministro britânico
Tony Blair foi interrogado por duas horas

O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, afirmou nesta quinta-feira que teria sido obrigado a renunciar se ficassem provadas as acusações de que o governo inseriu informações no relatório sobre o programa de armas do Iraque com o objetivo de fortalecer a posição pró-guerra.

"Se fosse verdade, isso significaria que nós (o governo) teríamos nos comportado de uma forma deplorável e eu teria de renunciar", afirmou o primeiro-ministro, durante o seu depoimento no inquérito que apura as circunstâncias da morte do cientista e especialista em armas do Ministério da defesa, David Kelly.

Durante a audiência, Blair negou as acusações, contidas em uma reportagem da BBC, de que o governo teria "maquiado" informações para tornar o relatório mais forte. A alegação foi atribuída a uma fonte do governo posteriormente identificada como sendo o cientista David Kelly.

Kelly foi encontrado morto em meio à polêmica criada pela reportagem, em um aparente suicídio.

Com um ar calmo e seguro, Blair deixou claro que não acredita que as acusações possam ser provadas, e que seu governo não cometeu nenhum erro na produção do dossiê sobre o Iraque.

Embora a polêmica não seja vista como uma ameaça ao governo de Blair, acredita-se que o caso tenha contribuído para a queda de popularidade do primeiro-ministro nas últimas semanas.

Blair, que depôs por cerca de duas horas, é o segundo premiê na história britânica a testemunhar em um inquérito judicial.

O primeiro foi o seu antecessor, o conservador John Major, que também depôs em um caso envolvendo o Iraque.

'Mais forte possível'

Em seu depoimento, o primeiro-ministro britânico disse que a orientação do governo era de que o relatório fosse o mais forte possível, mas sempre respeitando as informações dos serviços de inteligência disponíveis.

Blair disse ainda que o objetivo do relatório não teria sido justificar a guerra, mas sim mostrar que o governo dispunha de informações de inteligência para dizer que o Iraque representava uma ameaça.

Segundo o primeiro-ministro - o principal aliado do governo americano na campanha internacional contra o Iraque - desde os ataques de 11 de setembro de 2001, criou-se uma nova percepção na forma como lidar com o país então governado por Saddam Hussein e outros Estados que Washington considera "perigosos".

Blair sustentou que a interpretação das informações de inteligência foi "perfeitamente justificável" e lembrou que, à época, parte da imprensa qualificou o documento de fraco.

Chefe de Comunicações

Para o premiê, a pior acusação feita contra o governo apareceu em um artigo que o jornalista da BBC Andrew Gilligan, autor da reportagem, escreveu no jornal Mail on Sunday.

No artigo, Gilligan disse que a informação de que o Iraque poderia realizar um ataque com armas químicas em 45 minutos havia sido inserida no relatório a pedido do chefe de Comunicações de Blair, Alastair Campbell.

Blair disse considerar essa acusação um ataque direto ao governo.

O primeiro-ministro afirmou que a informação partiu do serviço de inteligência e que ele não via nenhum motivo para duvidar dela.

Ele disse ter insistido com seus assessores que o documento fosse produto do Comitê Conjunto de Inteligência e do chefe do órgão, John Scarlett. Segundo ele, não poderia constar nada no relatório que não tivesse partido de uma "fonte objetiva".

A versão de Blair já havia sido reforçada por Scarlett que em seu depoimento nesta semana assumiu responsabilidade pelo documento.

No entanto, o primeiro-ministro reconheceu que ele próprio viu rascunhos do documento e fez "comentários" a respeito. Ele também disse que à época do relatório o "clamor" pela produção de provas contra o Iraque era "muito forte".

Os contatos entre o gabinete do primeiro-ministro e John Scarlett estiveram entre as questões mais exploradas no testemunho de Blair.

Blair contestou a versão de jornalistas da BBC de que ele não teria mais mencionado o suposto risco de um ataque em 45 minutos desde a publicação do relatório porque ele próprio duvidava da veracidade da informação.

Kelly

Blair também disse que assumia total responsabilidade pela estratégia da assessoria de imprensa do governo que levou ao vazamento do nome de David Kelly como possível fonte da reportagem.

Quando lhe perguntaram se ele não achava que isso havia colocado muita pressão sobre o cientista, Blair disse que nada indicava que Kelly não fosse "alguém de uma certa robustez, que estava acostumado a lidar com a imprensa".

O primeiro-ministro também alegou que o nome de Kelly viria a público mais cedo ou mais tarde.

Sobre os pedidos do governo para que a BBC revelasse a identidade da fonte, Blair disse que era necessário saber que autoridade a fonte citada na reportagem sobre o relatório.

Apesar de a BBC ter resistido aos pedidos, Blair disse que a polêmica não era uma disputa entre a BBC e o governo, e sim entre a alegação de Kelly e a versão do governo.

A sessão mais aguardada do inquérito que está na sua terceira semana atraiu centenas de pessoas para a Corte Real de Justiça, onde estão sendo realizadas as audiências.

Algumas pessoas levaram barracas e sacos de dormir para passar a noite lá e serem os primeiros na longa fila que se formou durante a manhã. Devido ao grande interesse, a Corte acomodou - além dos lugares sempre reservados ao público - cerca de cem pessoas em uma galeria anexa.

A estudante brasileira Claudia Rondon comparou o procedimento com as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs).

"A diferença é que aqui o público tem acesso (às audiências)", afirmou Claudia, que chegou à 1h da manhã para garantir um lugar na audiência, que começou às 10h30.

Do lado de fora da Corte, um pequeno grupo protestava contra Blair com cartazes como "Bliar (trocadilho com liar, mentiroso em inglês), o Iraque está em chamas".

Depois de Blair, depôs no inquérito o presidente do Conselho Administrativo da BBC, Gavyn Davies. Ele disse que Campbell montou um pressão sem precedentes sobre a organização e acusou a BBC de ter mentido a respeito do assunto.

Davies afirmou ainda que o diretor de comunicação do governo atacou a imparcialidade e a integraidade da BBC.

As audiências serão retomadas na segunda-feira.

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