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Esclareça as suas dúvidas sobre a 'conexão Níger'
Os governos de Washington e Londres vêm discordando publicamente sobre a veracidade das alegações do governo britânico de que o Iraque teria tentado comprar urânio de Níger, um país da África Ocidental. Para a CIA, foi um erro ter incluído as informações no discurso anual do presidente George W. Bush, mas o governo da Grã-Bretanha se mantém firme na defesa. O analista Paul Reynolds, da BBC, responde abaixo as principais dúvidas sobre a última polêmica entre os dois aliados. De onde vieram essas informações? Um memorando chegou ao conhecimento da CIA (por intermédio dos italianos, segundo a revista Time), que parecia documentar a venda de urânio de Níger para o Iraque, no fim dos anos 90. Essa venda indicaria que o Iraque estava tentando construir uma bomba atômica, já que não desenvolvia nenhum programa nuclear civil. O que fizeram os americanos? A CIA enviou o ex-diplomata Joseph Wilson a Níger, onde ele já tinha trabalhado. Lá, Wilson conversou com representantes do governo do país da época do suposto negócio. Um deles teria dito que fôra procurado em junho de 1999 por um empresário que queria aumentar o comércio entre Iraque e Níger. Isso teria levantado as suspeitas de que o Iraque queria comprar urânio, já que Níger tinha poucas outras mercadorias a oferecer. O que concluiu o enviado americano? Ele chegou à conclusão de que, segundo artigo assinado por Wilson no The New York Times de 7 de julho, "é altamente duvidoso que qualquer transação desse tipo tenha acontecido". Ele disse ainda que o controle sobre a mineração de urânio em Níger é muito rigoroso e que a supervisão da atividade é feita pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Ele não fez referência ao tal memorando em seu relatório e tampouco chegou a lê-lo. O que fez a CIA então? A CIA disse que o relatório de Wilson teve "distribuição normal e ampla", mas que os integrantes do alto escalão do governo Bush não foram informados porque o documento não encerrava a polêmica, segunda a CIA. O governo britânico também não foi informado. Por que o governo britânico citou as alegações em seu dossiê de setembro de 2002? O governo diz que conseguiu as informações de uma fonte diferente, uma "fonte de inteligência estrangeira", e que os dados são "críveis". O serviço estrangeiro tampouco foi mencionado, mas algumas reportagens citaram os italianos, apesar de o jornal britânico Daily Telegraph ter chegado a dizer que a fonte era francesa. No entanto, a Itália também é citada como fonte da CIA, ou seja, o mistério permanece. Se a Itália foi a fonte comum, de onde vieram as informações diferentes dos britânicos? A CIA disputa a veracidade das alegações britânicas? Sim, de acordo com um comunicado da CIA que diz: "Nós temos reservas", mas "nossos colegas (britânicos) disseram ter confiança nos seus relatórios e deixaram a informação em seus documentos". No entanto, o ministro do Exterior britânico, Jack Straw, disse que "a CIA acreditou na veracidade das informações", porque havia outras fontes confirmando-as. A CIA disse que houve relatórios sobre tentativas do Iraque comprar urânio de dois outros países africanos. Ainda assim, os indícios parecem não ter convencido a CIA, já que a referência sobre a tal conexão Níger foi retirada de um discurso presidencial em outubro. A CIA e os britânicos dividiram todas as suas informações entre si? Não. O governo britânico admite não ter fornecido detalhes sobre a sua informação à CIA. Eles alegam que a tal "fonte de inteligência estrangeira" é que deveria tê-lo feito. Por outro lado, a CIA não contou aos britânicos sobre a missão de Wilson em Níger. Essa falta de troca de informações pode até ser o aspecto mais surpreendente do caso. Então, por que o presidente Bush citou Níger no seu discurso "O estado da União", de janeiro? Isso foi, segundo o diretor da CIA, George Tenet, um "erro". Apesar de Bush ter atribuído o relatório ao governo britânico, a CIA diz que os dados não eram suficientemente fortes para justificar a sua inclusão em um discurso de tamanha importância. Os críticos, incluindo Joseph Wilson, dizem que a Casa Branca usou os dados como parte de uma tendência de exagerar a ameaça iraquiana, apesar de isso ser veementemente negado pelo governo americano. Não ficou comprovado que o memorando original era uma fraude? Sim. Esse foi o memorando que chegou à CIA e que provocou a missão Wilson em 2002. Em março deste ano, o diretor da AIEA, Mohamed El Baradei, disse à ONU (Organização das Nações Unidas), que "esses documentos não são, de fato, autênticos". Os documentos eram, aparentemente, faxes trocados entre o Iraque e Níger, mas parece que eles continham assinaturas de pessoas que não integravam o governo do país africano na época. Por que não se descobriu que eles eram falsos antes permanece em aberto. Isso não abalou a confiança dos britânicos? Aparentemente, não. A Grã-Bretanha mantém-se fiel ao relatório da tal fonte estrangeira. Straw afirmou diante da Comissão Parlamenta para Assuntos Externos que os britânicos não sabiam sobre o memorando e que só ficaram sabendo sobre a falsificação quando ela apareceu na imprensa. |
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