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Argentina: vitória na Libertadores eleva auto-estima
A conquista da Taça Libertadores da América pelo Boca Juniors foi mais um elemento para elevar a auto-estima dos argentinos, que, no ano passado, além da crise econômica, tiveram uma atuação fraca na Copa do Mundo. A primeira página do jornal argentino Olé desta quinta-feira resume o sentimento dos torcedores do Boca. "Penta, papá!" é a manchete, que faz referência aos cinco títulos do time neste campeonato e uma provocação ao pentacampeonato da seleção brasileira de futebol, no ano passado. Na época daquela vitória brasileira, a seleção argentina de futebol não só decepcionava seus seguidores e analistas do esporte em geral, mas contribuía para o baixo astral nacional num momento em que o país ainda estava mergulhado na pior crise da sua história. Todos campeões "Todos nós, argentinos, somos campeões", animou-se o técnico do Boca, Carlos Bianchi, assim que a partida terminou no estádio do Morumbi. A declaração confirma que os argentinos estavam engasgados com tantas desilusões e que aproveitaram o resultado contra o Santos para comemorar uma etapa menos turbulenta no próprio país, marcado com aquelas imagens de saques e panelaços em dezembro de 2001 e início de 2002. Na madrugada desta quinta-feira, a comemoração terminou com pelo menos 20 torcedores presos no balneário de Mar del Plata, a 400 quilômetros da capital argentina, e outros 69 na província de Santa Fé. Além do futebol, o resto da vida argentina parece voltar ao normal. O país tem o primeiro presidente eleito, Néstor Kirchner, após a queda de cinco presidentes e um interino, em menos de dois anos. Hoje, a bolsa de valores de Buenos Aires é a mais rentável da América Latina e já se começa a negociar um acordo de três anos com o FMI (Fundo Monetário Internacional), o que era impossível de se imaginar em julho do ano passado. Outros dados são: a reabertura, no fim-de-semana, da Harrods - a loja inglesa de departamentos fechada durante mais de uma década - restaurantes lotados, turismo em alta e a economia registrando oito meses de crescimento. Apesar disso, a insegurança pública cresce, o desemprego ainda é alto (cerca de 20%) e a previsão é de estagnação, no mês de maio, e de dúvidas sobre a intensidade desta nova fase da economia argentina. "A reativação da economia argentina está presa por alfinetes", afirmou o economista Miguel Angel Broda, guru de investidores brasileiros, argentinos e americanos e torcedor do Atlanta, um clube de terceira divisao que tem as mesmas cores azul e amarelo do Boca. Para Miguel Angel Broda, a Argentina manterá sua recuperação este ano, mas ele argumenta que a falta de investimentos e de crédito na praça impedem que esse crescimento seja mais "sustentável". Hoje, porém, dez entre dez economistas dizem que a Argentina pode comemorar por ter saído do fundo do poço em relação ao ano passado, na pior fase da sua história, apesar de muitos estarem atentos aos reflexos que ocorrerão aqui com a previsao de menor crescimento da economia brasileira. "A comparação com a tragédia econômica do ano passado não é muita vantagem, mas já é alguma coisa", disse o economista Júlio Piekarz, da consultoria IBCP. Agora, 40 anos depois daquela derrota para o Santos, que à época tinha Pelé e outros craques no time brasileiro, o Boca deixou os argentinos em estado de graça. No Obelisco, no coração de Buenos Aires, e no bairro da Boca, a dez minutos dali, a festa entrou pela madrugada. E, nesta quinta-feira, a capital argentina amanheceu com cartazes que comemoram o resultado, com ironias contra seu adversário direto no campo nacional, o RiverPlate. No entanto, ao mesmo tempo, as emissoras de televisão mostram as imagens de violência geradas na mesma comemoração da conquista do Boca. Enquanto, em Mar del Plata, vários torcedores foram presos acusados de vandalismo contra o patrimônio local, em Buenos Aires, no próprio Obelisco, colocaram fogo na grama e uma pessoa caiu do alto desse símbolo da cidade e está internada num hospital. Fatos que não ofuscaram a comemoração pelo desempenho do Boca - time que reúne a maior torcida do país. Nesta manha de quinta-feira, é possível notar que jornaleiros, pedreiros e até executivos vestem a camiseta do Boca ou gravatas nas cores do clube. Para completar, a Unesco declarou, ontem, Patrimônio da Humanidade a Quebrada de Humahuaca, um conjunto de montanhas coloridas, na província de Jujuy, no norte da Argentina. O que levou o cartunista Nik, do jornal La Nación, a mostrar uma foto do ministro da Economia, Roberto Lavagna, autor da reativação econômica, champagne na mão, dizendo: "É um orgulho que a Unesco tenha declarado a Quebrada patrimônio da humanidade...". Ao que o próprio cartunista respondeu, no mesmo desenho: "É que escutam 'Quebrada' e já pensam na Argentina". O deboche explica-se por, pelo menos, dois motivos: os argentinos vão enfrentar pela frente a difícil negociacao com o FMI, que inclui o pagamento da dívida pública, em moratória desde dezembro de 2001, e porque os argentinos, mesmo em festa, não sabem, tradicionalmente, esquecer - ou viver - sem pensar em crise. E em futebol. |
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