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Atualizado às: 20 de junho, 2003 - Publicado às 09h32 GMT - 06h32 (Brasília)
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Kirchner troca cúpula das Forças Armadas

O general argentino Brinzoni (esq.), que deixou a cúpula das Forças Armadas
O general Brinzoni (esq.) saiu fazendo críticas

Três dias após ter assumido o poder, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, gerou polêmica ao demitir e aposentar o comandante do Exército, tenente-general Ricardo Brinzoni, e empossar imediatamente o seu sucessor, o general Roberto Bendini.

A pressa de Kirchner, segundo assessores, ocorreu porque o presidente já queria ter o novo representante militar na manhã desta quinta-feira, durante as comemorações oficiais do Dia do Exército.

Além de Brinzoni, cerca de 20 generais foram retirados da cúpula da instituição. Ainda nesta semana, o presidente argentino deve assinar a demissão e a aposentadoria de outros 30 militares do comando da Marinha e da Aeronáutica.

De acordo com assessores do presidente, Kirchner também pretende realizar mudanças radicais na Suprema Corte de Justiça e na Polícia Federal.

Suprema Corte

Direta ou indiretamente, as três medidas têm o mesmo motivo: a decisão de Néstor Kirchner, eleito com 22% dos votos, de ressaltar que ele é o presidente e afastar pessoas ligadas ao ex-presidente Carlos Menem ou acusadas de algum tipo de participação na última ditadura militar (1976-1983).

Por isso, os sucessores na cúpula das Forças Armadas serão mais jovens e de extrema confiança do presidente.

"Depois de 20 anos, parece que voltou a intriga política contra os quartéis. Para mim, esta decisão é inexplicável", disse o general Brinzoni, durante discurso de despedida.

"Apesar disso, continuaremos respeitando as instituições, a Constituição e a lei", afirmou. Segundo Brinzoni, hoje o Exército participa do "sonho coletivo" de um país empreendedor, previsível e integrado ao mundo.

O ex-chefe do Exército, que foi aposentado sete meses antes do prazo, deixou o posto às 13h desta quarta-feira, e quatro horas mais tarde seu sucessor era empossado.

Roberto Bendini era comandante da Brigada XI em Rio Gallegos, capital da província de Santa Cruz, na Patagônia, e onde Néstor Kirchner foi governador durante 11 anos.

"Esta é a primeira vez, desde a volta da democracia, há 20 anos, que um presidente toma uma medida tão drástica", afirmou o especialista Vicente Massoti, que foi contra a decisão do presidente.

"Hoje, já são poucos os militares que atuaram durante a ditadura e que continuam na ativa", observou Horácio Verbstsky, colunista do jornal Página 12 e presidente da ONG Cels (Centro de Estudos Legais e Sociais), que aprovou a iniciativa presidencial.

'Nova era'

Visivelmente contrariado com a demissão de mais da metade da cúpula do Exército e da esperada metade do comando da Marinha e da Aeronáutica, o novo ministro da Defesa, José Pampurro, ainda tentou convencer o presidente a mudar de idéia. Mas foi em vão.

Então, Pampurro passou a justificar publicamente o gesto presidencial, dizendo: "O governo impulsa um projeto nacional e não há motivos para que as Forças Armadas sejam excluídas desta nova era."

"Nova era" também foi a expressão usada pelo presidente Néstor Kirchner assim que assumiu a Presidência da Argentina, no último domingo.

"Queremos que as Forças Armadas sejam prestigiadas e comprometidas com o futuro e não com o passado", ressaltou o presidente durante seu discurso de posse no Congresso Nacional.

De acordo com a ONG Cels, Ricardo Brinzoni participou de atos de violência durante a ditadura, tão condenada pelo novo presidente do país.

Brinzoni

Brinzoni também é responsabilizado, segundo a imprensa argentina, pela pressão para que a Suprema Corte de Justiça não anule duas leis que anistiam os militares que atuaram na última ditadura.

Os militares temem que, se isso ocorrer, eles acabarão no banco dos réus, 20 anos depois do fim do regime.

É também por este motivo, segundo analistas, que Kirchner pretende renovar a Suprema Corte, cujos integrantes são identificados com o ex-presidente Carlos Menem.

Kirchner se define como um homem de "centro". Nos anos de chumbo no país, o atual presidente atuou em uma ala esquerda da chamada Juventude Peronista.

Sua mulher, a senadora Cristina Kirchner, que não deixou sua cadeira no Parlamento porque rejeita o papel de primeira-dama, é definida como de "centro-esquerda" ou "esquerda".

A mulher do presidente discorda da discussão ideológica que renasceu na Argentina nos últimos tempos. Para Cristina, é hora de as diferenças ficarem para trás e de o país se unir para avançar em melhorias sociais.

Durante entrevista a um programa de televisão, a apresentadora Mirta Legrand perguntou ao casal se com eles voltaria a "zurdaje" (esquerdismo).

A pergunta provocou uma reação imediata de Cristina: "Mirta, foi por discussões como esta que terminamos com 30 mil desaparecidos nos anos 70."

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