A fogueira que nunca se apaga

Crédito, Naomi Arnold
- Author, Naomi Arnold
- Role, BBC Travel
Há muitas trutas nadando nos rios que circundam a isolada vila de Murchison, na Nova Zelândia, e muitos pescadores atrás delas. Mas as trutas não entram no rio Blackwater.
Ele é, a primeira vista, um rio típico da Ilha Sul desse país da Oceania. Mas o Blackwater tem um traço inconfundível: o cheiro de querosene na água.
O odor é fraco, mas foi o suficiente para dar a Blackwater seu nome (literalmente "água preta"), e forte o suficiente para manter as trutas distantes. Há petróleo nas montanhas ao redor, e em uma parte da floresta do vale de Blackwater o petróleo dá origem a um fenômeno natural pouco conhecido.
Para vê-lo, você precisa saber onde procurar.
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Crédito, Naomi Arnold
Os locais chamam isso de "Gas Blows", mas o casal de agentes de turismo Merve e Shirley Bigden batizou o fenômeno de "Experiência das Chamas Naturais".
Desconhecido pela maioria dos turistas - e também para a maior parte das pessoas que não moram em Murchison, que tem apenas duas ruas -, um impressionante caldeirão de chamas amarelo brilhante e sem fumaça nunca se apaga em uma mata da área, alimentando-se do gás metano que vaza continuamente do solo.
Essa fogueira eterna está ardendo, segundo a lenda, desde os anos 1920, quando um casal de caçadores parou para fumar e um jogou fora seu fósforo, que de repente incendiou o gás que vazava bem ao seu lado.
Segundo os Bigdens, o caçador na verdade sentiu o cheiro no ar e, em um momento de loucura, jogou o fósforo para ver o que aconteceria.
Mas outra versão diz que os caçadores sentiram o cheiro do gás, jogaram um cachimbo no chão e então o acenderam.

Crédito, Naomi Arnold
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Qualquer que seja a verdade, o fato é que as chamas raramente se apagaram desde então.
Em uma manhã de inverno, eu embarquei por quatro horas no tour, com dois outros turistas e a moradora local Shelley Neame como guia.
Um trajeto esburacado de 15 km para o sul nos levou até o ponto em que começamos uma caminhada de 2,4 km pela mata. A família de Neame é toda de Marchison, desde quando a área foi ocupada, por volta de 1800, e conhece muita a história local.
Ela parou para contar histórias sobre a trilha e a área, mostrando a antiga estrutura com que tentaram retirar petróleo nos anos 1970.
Ela também falou sobre as aves moa que costumavam andar no local - antes de serem caçadas até a extinção - e mostrou a estranha árvore local de folhas rígidas e em forma de lâmina, usadas para manter as moas distantes. Quando a árvore fica alta o suficiente, seu topo tem uma "nuvem" de folhagem verde.

Crédito, Naomi Arnold
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Após cerca de uma hora, as chamas amarelas apareceram, em uma cavidade rasa alguns metros a frente. Cercada por samambaias e arbustos locais, a fogueira apareceu de forma totalmente inesperada. Era até um pouco assustadora, como se espíritos da mata tivessem acabado de deixar o local. Mas, em um dia frio, era uma visão animadora. Corri para o local para esquentar minhas mãos, que a esta altura estavam geladas.
Neame colocou uma panela de acampamento sobre as chamas, ferveu água e fez um chá. Depois ela colocou uma frigideira nas pedras quentes que estavam nas chamas e fez panquecas, que comemos com mel local.
O mel era doce e a panqueca, macia. Ficamos ali comendo e pensando sobre a geologia das profundezas da terra que haviam criado aquilo.
Sentamos em bancos de madeira perto das chamas por quase uma hora, olhando o fogo. Era impressionante pensar que a fogueira estava ali quase continuamente há cem anos (às vezes, após fortes chuvas, o gás precisou ser acendido outra vez).

Crédito, Naomi Arnold
Há pelo menos outros nove locais pelo mundo com fogueiras eternas devido a gás natural.
Os mais conhecidos são grandes atrações turísticas, que dão origens a histórias de mitologia de centenas de anos e inspiram adoração cultural e religiosa.
Yanartaş, no Monte Olimpo da Turquia, tem dezenas de pequenas fogueiras que ardem ininterruptamente de buracos na pedra, claros o suficiente para, no passado, servir de guia para marinheiros à noite.
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Eles estão lá pelo menos há 2.500 anos, e a área é conhecida como a possível origem do mito da Quimera que lança fogo pelas narinas na Ilíada de Homero.
Abaixo das fogueiras está o templo de Hefesto, deus grego do fogo, metalurgia, fundição e dos ferreiros.

Crédito, Naomi Arnold
Outra chama eterna arde no templo de Jawalamukhi, na Índia. Ele é adorado como uma divindade e atrai milhares de peregrinos todos os anos, que levam doces, leite e frutas como oferendas.
A Nova Zelândia, um país geologicamente novo, não tem nada do tipo: seu equivalente a ruínas clássicas é uma mata antiga, pássaros, água e paisagem.
Mas essa maravilha natural é única: em nenhum outro lugar do mundo as chamas ardem em meio à mata não habitada.
Para tornar isso ainda mais especial, as mudanças naturais do petróleo e do gás subterrâneo, assim como a perspectiva de começar extração de gás e petróleo em breve, significa que isso pode ter vida curta.
Leia a <link type="page"><caption> versão original desta reportagem (em inglês)</caption><url href="http://www.bbc.com/travel/story/20150810-new-zealands-never-ending-fire" platform="highweb"/></link> no site <link type="page"><caption> BBC Travel </caption><url href="http://www.bbc.com/travel" platform="highweb"/></link>












