Pergunta do plebiscito da Grécia parece... grego

A formulação da pergunta do plebiscito sobre a dívida grega, que será realizado neste domingo, é um pouco confusa.

Crédito, BBC World Service

Para quem não consegue ler grego, aqui está a tradução.

PLEBISCITO do dia 5 de julho de 2015

Deveria ser aceito o plano de acordo, que foi submetido pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional no Eurogrupo de 25/06/2015 e composto por duas partes, que constituem sua proposta unificada?

O primeiro documento é chamado "Reformas para a conclusão do atual programa e além" e o segundo "Análise preliminar de sustentabilidade da dívida".

NÃO ACEITO / NÃO

Os dois documentos anexos - "Reformas para a conclusão do atual programa e além" e "Análise preliminar de sustentabilidade da dívida" - não parecem ser mais claros do que a questão da consulta popular.

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Ainda existe a questão de quando e como os eleitores terão acesso a estes documentos e se haverá economistas de primeira linha nos locais de votação para explicá-los.

É claro que isso gerou piadas nas redes sociais. E, para alguns analistas político, parece estar por trás do percentual de mais de 15% de indecisos apontados pelas pesquisas de opinião e que poderão ser o fiel da balança num momento em que nem o nai (sim) nem o oxi (não) abriram vantagem significativa nas medições.

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Crédito, BBC World Service

Legenda da foto, 'Eleitores vão às urnas no plebiscito grego'

Em outros países as autoridades criaram mecanismos para evitar confusões. No Canadá, por exemplo, há uma lei para impedir que questões assim sejam colocadas para a população.

Depois de dois longos e complicados plebiscitos sobre a independência da província do Quebec em 1980 e 1995, a "Lei de Clareza" determinou que uma consulta popular sobre independência deve se ater a: "Você quer a independência, sim ou não?".

Não ou sim?

Além de ser um pouco complexa, a questão do plebiscito grego coloca de forma controversa a opção "não" - apoiada pelo governo - sobre a opção "sim", o que fez algumas pessoas dizerem que a consulta está enviesada.

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É um formato "incomum", diz Katie Ghose, diretora-executiva da Sociedade de Reforma Eleitoral do Reino Unido.

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Crédito, BBC World Service

Legenda da foto, 'Eles provavelmente deveriam ter desenhado a cédula de votação do #Plebiscitogrego assim'

No caso do plebiscito grego, aponta Ghose, também há outra complicação: o enunciado diz "O plano deveria ser aceito" em vez de "aceito ou rejeitado".

Sim ou não?

O referendo da Grécia não é a primeira consulta popular a ser acusada de favorecer uma das opções, e há claramente exemplos piores na história.

Em 1978, depois de ser acusado pela ONU de violar direitos humanos, o general chileno Augusto Pinochet fez um referendo para saber se ela apoiava suas políticas.

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A opção "sim" vinha acompanhada da bandeira chilena. O "não" aparece mais abaixo junto com um retângulo preto.

Crédito, BBC World Service

O resultado? Pinochet recebeu o apoio de 78,6% dos chilenos que foram às urnas.

E, em 1938, Adolf Hitler fez um referendo com a seguinte pergunta ao povo da Alemanha: "Você aprova a reunificação da Áustria com o Reich alemão obtida em 13 de março de 1938 e você vota na lista de nosso Fuehrer, Adolf Hitler?

A cédula tinha um formato para lá de enviesado.

Crédito, BBC World Service

Hitler ganhou com 99,7%.

Teste

Quando o governo britânico prepara a questão de uma consulta popular, a comissão eleitoral leva 12 semanas para testar a questão com grupos de cidadãos e, assim, eliminar qualquer confusão ou favorecimento.

Um rascunho do referendo se o Reino Unido deveria deixar a União Europeia foi reescrito porque confundia a uma minoria significativa de pessoas que não sabia que o país já era membro do bloco.

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Além de checar seu enviesamento, também é verificada sua clareza, diz Rosie Davenport, da comissão eleitoral.

"Analisamos o tamanho da pergunta. Temos critérios para o número de palavras que ela pode conter", afirma ela.

"O objetivo é fazer com que a questão fique o mais clara e concisa possível, para que você não apresente um excesso de informações para o cidadão antes de ele votar."

Tempo curto

Isso nos leva de volta à Grécia. Atenas não teve o luxo de poder testar sua pergunta por 12 semanas: seu plebiscito foi convocado no último fim de semana pelo premiê Alexis Tsipras.

"A natureza emergencial desta consulta dá pouco tempo para que os argumentos de cada lado sejam preparados, e a pergunta tem muitos detalhes, essencialmente questionando os gregos se eles aceitam propostas baseadas em documentos específicos do FMI, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia", diz Ghose.

Ela acredita ainda que, com tão pouco tempo para o povo se decidir, o que os políticos estão dizendo aos gregos terá mais peso no resultado do que normalmente ocorre em outras consultas.

"Milhões estão de ouvidos atentos ao que os líderes dos partidos têm a dizer e basearão suas decisões nisso", afirma Ghose.

'A pergunta do plebiscito grego seria mais clara se tivesse sido formulada assim: Você quer deixar a União Europeia? Vote: sim para não. E: não para sim.'

Crédito, BBC World Service

Legenda da foto, 'A pergunta do plebiscito grego seria mais clara se tivesse sido formulada assim: Você quer deixar a União Europeia? Vote: sim para não. E: não para sim.'