'Ele tem que bater de frente': o que pensam eleitores de Cunha

Crédito, BBC World Service
- Author, Jefferson Puff - @_jeffersonpuff
- Role, Da BBC Brasil no Rio de Janeiro
Terceiro deputado federal mais votado do Rio de Janeiro, atrás de Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Clarissa Garotinho (PR-RJ) (os três são evangélicos), Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atual presidente da Câmara dos Deputados, apostou em diversas frentes para chegar aos 232.708 votos obtidos no Estado nas últimas eleições, e dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que três locais concentraram seus votos.
No interior, o município de Itaboraí foi responsável por 19.054 votos (17,15% dos válidos da cidade para deputado federal). Já na Região Metropolitana do Rio, Belford Roxo somou 23.776 votos (11,9% dos votos válidos na cidade). E, na capital, duas zonas eleitorais da Zona Oeste lhe deram a maior votação. A de número 179, dos bairros de Anil, Cidade de Deus, Pechincha e Rio das Pedras, com 8,45% dos votos válidos, e a de número 25, de Santa Cruz, Guaratiba e Sepetiba, com 9,68% dos votos válidos.
Não por acaso, os três locais concentram muitos evangélicos. Mas o eleitorado de Eduardo Cunha inclui diferentes matizes. Há os que concordam inteiramente com sua agenda conservadora (contra o aborto e contra o casamento gay); os que são contra o aborto, mas a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo; há católicos, evangélicos, eleitores de Dilma Rousseff (PT) e eleitores de Aécio Neves (PSDB).
Dobradinhas com deputados estaduais dessas localidades garantiram a Cunha acesso a seus redutos eleitorais. Na favela de Rio das Pedras, ele se associou ao deputado Domingos Brasão, e no município de Belford Roxo ao deputado Waguinho, ambos do PMDB.
A BBC Brasil foi até as duas localidades e conversou com alguns desses eleitores:
Rio das Pedras
José Rogério Henrique

Crédito, BBC Brasil
O pedreiro José Rogério Henrique, de 33 anos, tem opinião formada sobre o momento atual entre PMDB e PT. "Eu creio que tudo isso que eles estão fazendo em Brasília, essas brigas, esse enfrentamento, só piora tudo. O empresário não investe, e quem sofre é a gente", diz, acrescentando que "a crise está acabando com o país". Há 15 anos na comunidade, o paraibano diz que votou em Cunha pela influência de Brasão, que "tem muito voto aqui dentro". Católico, ele é contra o aborto, mas a favor do casamento gay.
Carlos Augusto Rodrigues

Crédito, BBC Brasil
Carlos Augusto Rodrigues, de 43 anos, afirma que não votou em Brasão, mas sim em Cunha, porque "já o conhecia, e gostava dele". O pedreiro, que não é evangélico e se define como alguém que "respeita todas as religiões", acredita que o aborto deveria ser permitido para quem já tem mais de três filhos, sobretudo para quem é pobre. Sobre o casamento gay, também discorda. "Acho que é muito polêmico, mas eu não tenho preconceito com a vida do outro. Deus não é livre? Então todo mundo tem o direito de casar com quem quiser". Sobre o mandato de Cunha e o enfrentamento ao governo, limitou-se a dizer que "a pressão sobre a presidente não vai dar em nada".
Deise de Oliveira
Paraibana, a auxiliar administrativa Deise de Oliveira, de 27 anos, diz que votou em Cunha para deputado federal, "porque parecia ser um cara sério e trabalhador". Além disso, estava sempre ao lado do deputado estadual Domingos Brasão (PMDB), "que tem uma ligação muito forte com o povo daqui". Ela diz ser católica e contra o aborto, "salvo em casos de estupro". Quanto ao casamento gay, considera que "cada um tem que ser feliz do seu jeito", e sobre o mandato de Cunha, diz que "não saberia opinar".
Maria Santília da Silva

Crédito, BBC Brasil
Para a camelô Maria Santília da Silva, de 49 anos, o atual presidente da Câmara "foi de carona" com o deputado estadual Domingos Brasão. "O Brasão fazia bonito aqui dentro e ele vinha no embalo". Eleitora de Dilma Rousseff, ela diz que Cunha está "batendo muito de frente com a presidente", o que a surpreendeu. "Quem vê cara não vê coração, né?", conclui.
Belford Roxo
Maria das Graças Gonçalves

Crédito, BBC Brasil
A cozinheira aposentada Maria das Graças Gonçalves, de 65 anos, votou em Aécio Neves (PSDB) para presidente, e Eduardo Cunha para deputado federal. Evangélica, ela diz concordar com as posições do peemedebista quanto ao aborto e o casamento gay. "Acompanho o mandato dele e acho que está certo, ele tem que pressionar para tirar as coisas a limpo", diz, acrescentando que já conhecia o deputado Waguinho, mas que teve o primeiro contato com Cunha na campanha ─ da qual acabou participando entregando panfletos no seu bairro.
Lucas Duarte

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Lucas Duarte, de 17 anos, é estudante e milita no movimento juvenil do PMDB na cidade. "Fui acompanhando o trabalho dele nos últimos tempos, e gostei da sua atuação", diz, explicando o voto em Cunha. "Acho que o enfrentamento dele ao governo federal e ao PT é necessário para fortalecer o PMDB", diz o jovem evangélico que partilha da agenda conservadora do deputado federal.
Lucilaine Dias de Carvalho

Crédito, BBC Brasil
Para a técnica de enfermagem Lucilaine Dias de Carvalho, de 38 anos, o voto em Dilma é agora motivo de arrependimento. Ela passou a apoiar o impeachment, "porque tudo aumentou, desde o pedágio até a faculdade, e pela corrupção também". Para ela Cunha surgiu na cidade como "uma pessoa muito simpática e honesta". Ela concorda com a postura do presidente da Câmara, de "bater de frente" com o governo federal.
Tânia da Silva
Já a comerciante Tânia da Silva, de 43 anos, critica a estratégia de dobradinhas e proximidade com igrejas, e diz que perdeu a confiança no deputado estadual Waguinho. "Eles botaram obreiros nas ruas para conseguir votos. Não simpatizo com isso, não", diz.
Fábio Brasil

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Para o também evangélico Fábio Brasil, de 38 anos, a dobradinha com Waguinho falou mais alto. O empresário, que votou em Dilma para presidente, diz que acompanha o mandato de Cunha em Brasília e que concorda com seus posicionamentos. Contra o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo, ele diz que a "agenda da família" de Cunha pesou em sua decisão.












